GUIA DO FORRÓ
Piseiro é forró? Descubra a diferença entre os ritmos que fazem o São João
Gênero passou por diversas transformações, mas tem características que se mantêm intactas

Em todo São João quando são divulgadas as atrações dos festejos é a mesma coisa: “cadê o forró de verdade?” e o “o forró raiz acabou” são algumas das falas que permeiam os comentários nas redes sociais. Mas será que todos sabem realmente como identificar o forró raiz e diferenciá-lo de outros ritmos?
É inegável que o forró passou por diversas transformações desde o mestre Luiz Gonzaga até os dias atuais, mas tem características que se mantêm intactas e são determinantes nessa avaliação.
Segundo o forrozeiro Del Feliz, o gênero ganhou uma dimensão diferenciada desde que foi “espetacularizado, saiu das casas e foi para os grandes palcos”. Ele destacou, em entrevista ao portal A TARDE, que tem os ritmos tradicionais muito bem determinados, que são:
- Arrasta-pé (acelerado e animado)
- Baião (marcante e cadenciado)
- Xaxado (mais seco e marcado)
- Rojão (rápido e vibrante)
- Xote (mais lento e romântico)
- Coco (percussivo e energético)
“A partir da década de 1990, foi acontecendo um incremento, com artistas e bandas, principalmente com cunho comercial, com outras batidas, que chamam de vaneira, forró eletrônico, entre outros. Até chegar ao piseiro e ao forró feito por Frank Aguiar, que também foi sucesso entre os anos de 1990 e 2000”, expôs o compositor.
Forró e apropriação
Del, que se tornou um embaixador da cultura nordestina e do forró no mundo, pontuou que a cultura não é estática e, por isso, ela muda, mas que existem algumas coisas que foram construídas ao longo de muitas décadas e viraram identidade.
“O forró tradicional é uma delas. Essa música é feita com sanfona, zabumba e triângulo, ainda que tenha outros elementos”, enfatizou.
O cantor classificou o gênero como um “aglomerado de ritmos” e disse que ele tem uma ampla gama de possibilidades. Segundo ele, isso dispensa apropriações de criações de outros estilos, que não têm relação com o forró e acabam sendo rotuladas como tal apenas por conveniência, especialmente para entrar no São João.
Para ele, “a apropriação do termo forró acaba sendo injusto com uma cultura que é identitária, muito relevante, simbólica para nós e é a expressão do que é o São João.”
Quando a gente fala de forró, estamos falando de uma identidade fortíssima, que se confunde com o que a gente come, bebe, dança e veste.
O que é forró pé de serra?
Apesar de algumas pessoas acreditarem que pé de serra é um ritmo, não é. “A expressão nada mais é do que raiz. Quando alguém diz que toca forró pé de serra, quer dizer que toca forró tradicional. Não é um ritmo”, explicitou Del Feliz.
Entre os exemplos atuais que representam o forró tradicional estão:
- Elba Ramalho
- Flávio José
- Jorge Altinho
- Dorgival Dantas
- Adelmário Coelho
- Trio Nordestino
- Targino Gondim
- Estakazero
- Jeanne Lima
- Emili Pinheiro
Forró eletrônico
Outra vertente bastante citada atualmente é o forró eletrônico. Nela se encaixam “as batidas novas que Aviões do Forró, Mastruz com Leite, Magníficos, entre outros, inventaram”.
São batidas que estão mais para uma mistura de lambada com axé e que nada tem a ver com o forró.
Del Feliz ressaltou que esses grupos e artistas contribuíram para o forró, gravaram xotes, arrasta-pé e baiões, mas eles também inventaram uma batida que não se encaixa no forró. “Eu tenho todo respeito por eles, não estou falando mal, é só desmistificar e ser justo com a origem e com a lógica”, disse o cantor, que complementou:
São duas coisas que, para a gente, são intocáveis quando se fala de forró tradicional: a lista desses ritmos, que são muito bem definidos, e a presença da sanfona, zabumba e triângulo, que são a alma do forró.

Piseiro
O forrozeiro também explicou porque o piseiro não pode ser considerado forró. O artista esclareceu que ele nasceu de uma experiência com um teclado, ou seja, é eletrônico.
“Não é forró tradicional, que é aquilo que a gente conhece muito bem, sabe como se faz, como se constrói, é quais são as batidas. Fizeram uma outra coisa que está muito mais próximo desse vaneirão”, falou.
Do piseiro, Del cita exemplos como João Gomes e Zé Vaqueiro. “Eles dão uma contribuição para o forró? Sim. Eles cantam outros forró tradicionais? Cantam. Mas a música que projetou o João, por exemplo, não tem nenhuma ligação com o forró. A do Zé é uma outra coisa, outra batida, que às vezes tem funk no meio. É importante separar as coisas. [...] Eu acho desnecessário usar o nome do forró nesse contexto”, elucidou Del.

Forró universitário
O embaixador do forró aproveitou a oportunidade para destrinchar o forró universitário, que não é ritmo, mas sim um "grande pecado". O cantor argumentou que o termo carregado de preconceito.
“É um fenômeno dos anos 2000, quando surgiu uma força muito grande do forró tradicional em certas regiões do país, mas passaram a chamar de universitário para não se associar a algo do Nordeste. Batizar de forró universitário traz uma carga de preconceito desnecessária”, esclareceu.
Forró tradicional e tradição
No forró tradicional, as batidas são muito bem definidas e os instrumentos são elementos identificadores e importantes. Dentro desse contexto, Del Feliz frisou que o forró raiz é um patrimônio que foi registrado e tem três elementos que são fundamentais para essa construção.
Se não tiver sanfona, zabumba e triângulo, a pessoa vai fazer uma coisa parecida, mas não forró.
Por fim, Del salientou que tem espaço para todo mundo, mas ao mesmo tempo, “em respeito a toda uma tradição, uma identidade construída, uma simbologia, é preciso que haja responsabilidade”.
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