CLIMA JUNINO
São João 'raiz': Bahia limita shows milionários e quer tradição para atrair turistas
Com festejos em todo o estado, iniciativas buscam ampliar turismo durante a celebração junina


O mês de junho já se aproxima e na Bahia o São João se espalha pelos 417 municípios, costurando diversidade e experiências culturais autênticas em cada cidade, com as festas, que misturam quadrilhas, forró e sabores da terra, ganham corpo como estratégia turística competitiva. Nos palcos, com cachês mais enxutos e maior transparência, abre-se mais espaço para os forrozeiros raiz e artistas locais, uma exigência do Governo do Estado que busca devolver ao público a essência verdadeira das celebrações juninas.
“O São João é a maior manifestação cultural do povo nordestino, e é na Bahia que ele encontra sua maior expressão”, afirma o titular da Secretaria de Turismo do Estado da Bahia (Setur), Maurício Bacelar, ressaltando que nenhum outros estado tem uma festa tão bem distribuída por seu território.
“O Carnaval impressiona pela concentração em Salvador, mas o São João é muito maior, é a maior festa popular do Brasil e uma das maiores do mundo. Salvador continua sendo a porta de entrada, com sua conectividade aérea e rodoviária, mas cidades como Cruz das Almas, Santo Antônio de Jesus, Amargosa, Senhor do Bonfim e Itabuna se destacam como grandes pólos juninos”, afirma.
Na última semana, em Belo Horizonte, foi encerrado o Roadshow São João da Bahia 2026, evento itinerante promovido pela Setur-BA, que passou também por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo: quase 500 operadores e agentes de viagens foram capacitados sobre os festejos juninos baianos e a sua diversidade de atrativos, alcançando os maiores emissores de turistas nacionais.
O evento integra a Estratégia Turística Bahia 4.0, que visa o incremento de negócios da indústria de viagens nas 13 zonas do estado, ajudando a consolidar o São João como produto estratégico do turismo da Bahia.
Hoje, o principal diferencial competitivo dos festejos juninos baianos, acredita o titular da Superintendência de Fomento ao Turismo (Sufotur), Gustavo Stelitano, é a diversidade.
“Os festejos acontecem em praticamente todos os 27 territórios de identidade, não se concentrando em apenas um lugar. Além do mais, tem um componente que será sempre forte: a paixão dos baianos e das baianas pela maior festa do interior. O São João contribui para a consolidação do interior baiano como destino turístico e quem vai para as festas, provavelmente vai voltar em outra época, seja pela hospitalidade, alegria, gastronomia ou diversidade cultural”, afirma Gustavo Stelitano.
Este ano, o Governo da Bahia está projetando investir, através de acordos com as prefeituras, R$150 milhões no São João.
"E através da Sufotur, garantir que pelo menos 25% desses recursos sejam destinados às apresentações de artistas do autêntico forró, com ênfase no samba junino, xaxado, baião, xote e no forró pé-de-serra. É uma preocupação constante do governador Jerônimo Rodrigues para que o investimento seja carreado para o fortalecimento da identidade cultural do São João da Bahia e demais festejos juninos, como as festas de Santo Antônio e São Pedro", explica Gustavo Stelitano, ressaltando que essa será uma das principais apostas dos festejos em 2026.
Para o titular da Setur, priorizar a contratação de artistas ligados à cultura junina dessa forma fortalece a tradição e incrementa ainda mais a economia. Em 2025, o São João da Bahia registrou um recorde histórico de mais de 1,8 milhão de visitantes e uma injeção de R$2,3 bilhões na economia do estado - números que a secretária projeta superar este ano.
Autenticidade
“Nosso São João é autêntico: em muitas cidades, a própria população decora as ruas, muitas pessoas que moram fora voltam para sua cidade, e as casas se abrem para receber vizinhos, parentes e até desconhecidos. É uma celebração de portas abertas, de acolhimento e de tradição que sempre atrai muitos turistas”, explica Maurício Bacelar.
Um bom exemplo é a estudante universitária Raíssa Araújo (20), que todos São João viaja de Salvador para Itatim - 3h a 4h de distância da capital.
“Lá tem festa junina, quadrilha, comidas típicas, cantores de fora... É aquele verdadeiro clima de São João, sabe? Sou de Salvador, mas a família do meu pai é de Itatim, então sempre passo as festas lá. Acho que o São João nas cidades grandes foi perdendo encanto e isso pode começar a tomar as menores também, por isso acho importante priorizar os artistas de forró, acredito que isso ajuda a manter a tradição do São João e preservar a festa como conhecemos”, reflete.
“O principal diferencial do São João na Bahia é ser a festa mais democrática que existe”, afirma o presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Wilson Cardoso.
“Todas as classes sociais participam, todos tem um licorzinho, um quentão, uma canjica, um angu… Essa culinária diversificada que movimenta a economia. Além disso, o São João da Bahia também é sobre a participação da família e dos amigos. Muitos que vivem fora, juntam dinheiro o ano inteiro para voltar e dançar um bom forró e a alegria é generalizada, por isso o Nordeste atrai tantos turistas. A Bahia faz o melhor São João do Brasil”, afirma.
E as expectativas estão altas no ramo hoteleiro, com destinos como Lençóis, Mucugê, Amargosa, Cruz das Almas e Jequié alcançando 100% de ocupação nos festejos juninos de 2025 - e outras cidades chegando a 90% -, as projeções para 2026 são as melhores possíveis.
Diversidade
“A Bahia não é apenas um estado, é quase um país por causa da sua dimensão e diversidade, e nesse período atrai públicos regionais e nacionais. Para 2026, esperamos uma ocupação elevada nos destinos tradicionais e crescimento em regiões como a Chapada e Porto Seguro”, explica o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis Bahia (Abih Bahia), Wilson Spagnol.
"É quase impossível não criar boas expectativas para o São João", afirma Luís Anselmo, proprietário da Anselmo Turismo. A procura ainda está começando, mas a agência já projeta uma alta demanda tanto por excursões quanto por bate-volta - opção de menor custo e escolhida por quem não tem folga. “O São João é uma das datas mais importantes para o turismo, e esperamos crescimento de pelo menos 10% em relação ao ano passado”. Entre os destinos mais procurados estão Chapada Diamantina, Caruaru e Campina Grande nas excursões, e Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus nos bate-volta.
Mas com festa junina por toda a Bahia, os forrozeiros de plantão tem opções de sobra para escolher. A aposentada Silvana Rose Santana Magalhães (57), por exemplo, vai passar as festas deste ano em Senhor do Bonfim.
“Geralmente passo o São João no interior e essa vai ser a segunda vez que vou para Senhor do Bonfim, porque gostei muito da experiência no ano passado. Sou apaixonada pelo São João e suas tradições, por isso achei ótimo esse investimento que estão fazendo em trazer mais forró raiz para as festas, afinal estamos no Nordeste e essa é a festa mais nordestina possível”, argumenta Silvana Rose.
E além desse incentivo do Estado para aumentar as atrações de forró raiz, há ainda as diretrizes para a contratação de artistas durante os festejos juninos de 2026 do Ministério Público da Bahia (MPBA), em parceria com o Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) e o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-BA).
Uma cartilha elaborada a partir da Nota Técnica Conjunta nº 01/2026, que tem orientado gestores municipais sobre critérios de economicidade, transparência e segurança jurídica nas contratações artísticas realizadas com recursos públicos, reduzindo riscos institucionais e evitando sobrepreços, para que as contratações sejam bem planejadas e compatíveis com a realidade financeira dos municípios.
Para a forrozeira Silvana, reduzir os cachês dos grandes shows abre espaço para bandas menores e valoriza o ritmo. "Que é a essência do São João. Para mim, São João é forró, e incentivar os artistas locais deixa a festa mais bonita e autêntica", afirma. Uma opinião muito parecida com a da técnica de enfermagem Isabel de Fátima.
“Acredito que os grupos e as origens precisam ser valorizados, porque é a nossa raiz, é onde tudo acontece. O São João é uma festa que atravessa gerações, da avó, para a mãe, para os filhos, para os netos... Precisamos resgatar e preservar as quadrilhas, o forró e toda a tradição que envolve os festejos juninos. Preservar essa história inteira e passar o para os mais jovens é essencial”, salienta.









