ENTREVISTA
José Camargo: Covid reduziu drasticamente número de doadores de pulmão
Dr. Camargo fala dos avanços nas técnicas de transplante de pulmão e dos retrocessos quanto aos doadores

A Covid-19, por mais grave que seja, só é indicada para o transplante de pulmão em casos extremamente específicos. Ainda assim, as UTIs sobrecarregadas de pacientes com a doença provocaram uma redução drástica do número de doadores de pulmão, como explica o médico José de Jesus Peixoto Camargo, nesta entrevista exclusiva ao Jornal A TARDE.
Chefe da equipe que mais transplanta pulmões no país, ele é diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Nesta entrevista, Dr. Camargo fala dos avanços nas técnicas de transplante de pulmão e dos retrocessos em relação ao número de doadores. “Para se ter uma ideia, em 2018 chegamos a fazer 52 transplantes, enquanto em 2020-21 não ultrapassamos 17”.
Além de médico, Dr. Camargo também é escritor e tem uma visão humanista da saúde. “Há muitos anos, trabalhando com transplante, descobri que nada me gratifica mais do que perceber que consegui dar a uma pessoa que me procurou precisando de ajuda, uma alegria que ela não teria vivido, se eu não tivesse sido capaz de fazer o que fiz”. Confira mais na entrevista que se segue.
O transplante de pulmão é feito há mais de 30 anos no Brasil, mas o paciente grave de Covid-19 trouxe desafios e imprevisibilidades novas aos médicos. Como senhor, um dos maiores especialistas em transplantes de pulmão do país, precisou lidar com casos de pacientes com Covid? Quais são as complexidades desses pacientes?
Comparado com o cenário que encontramos quando fizemos o primeiro transplante da América Latina, em 1989, nessas três décadas e meia, ocorreram transformações muito importantes. Entre elas: a melhor seleção dos candidatos ao transplante, a preparação adequada para o procedimento, especialmente relacionados com reabilitação muscular, o manejo peri-operatório, a maior qualificação das nossas UTIs e o surgimento de drogas anti rejeição mais eficientes têm permitido resultados progressivamente melhores, especialmente nas últimas duas décadas. Nessa trajetória, o impacto da Covid-19 no número global de transplantes realizados, não foi relevante, mas trouxe um treinamento diferenciado na preservação artificial da vida através de recursos modernos de oxigenação. As indicações de transplante nessa condição surgiram naturalmente naqueles casos em que houve destruição pulmonar pela doença e o transplante representou a única possibilidade de sobrevivência. Mas a principal associação da pandemia com transplante foi a redução drástica do número de doadores, com as nossas UTIs sobrecarregadas de pacientes com Covid-19.
O transplante de pulmão, por ser um procedimento ultra complexo, só se enquadra para poucos pacientes de Covid extremamente selecionados?
Exatamente. As indicações de transplante pós-Covid foram excepcionais. No nosso serviço transplantamos dois pacientes com pulmões irrecuperáveis. Para que se tenha ideia da excepcionalidade da indicação, o Centro que mais transplantou pulmões pós-Covid, nos Estados Unidos, não ultrapassou 20 casos.
O transplante pós-Covid acelerou um debate no corpo médico do Brasil: a questão da chamada “priorização” na hora de definir quais pacientes devem ser colocados à frente na fila de espera pelo procedimento de pulmão. Como funciona essa lista hoje? Houve algum tipo de mudança nesse sentido?
A excepcionalidade da indicação não interferiu significativamente no número de pacientes transplantados, até porque os pacientes sequelados pulmonares pela virose, estavam todos em ventilação mecânica, e a necessidade de respiração artificial já é um critério antigo para priorização de qualquer paciente na lista de espera para transplante de pulmão.
E em termos gerais, como está a fila para transplantes no Brasil? Houve alguma evolução? No caso específico do transplante de pulmões a alta mortalidade dos pacientes que esperam o órgão acaba produzindo uma alta rotatividade nessa lista?
O grande limitante para o desenvolvimento dos transplantes em geral, continua sendo a escassez de doadores. No caso específico do pulmão, quando o paciente preenche os critérios para ser incluído em lista de espera, ele tem uma expectativa de vida menor que dois anos. Sendo assim a lista é renovada com rapidez e por uma de duas razões: ou o paciente foi transplantado, ou morreu, porque não conseguimos doador. Essa premência decorre da inexistência de uma forma de substituição artificial do órgão, como ocorre, por exemplo, com a diálise na insuficiência renal
Nesta pandemia passamos pela situação desesperadora de ter mais mortes na lista de espera, do que conseguimos transplantar. Para se ter uma ideia da queda, em 2018 chegamos a fazer 52 transplantes (ou seja, um por semana), enquanto em 2020-21 não ultrapassamos 17 transplantes, por ano. Em 2022 começamos a recuperar, mas ainda ficamos abaixo da meta (fizemos 30 transplantes no ano passado).
Por que o transplante pulmonar é tão diferente dos outros tipos de transplantes? E por que a mortalidade costuma ser mais alta?
Quando começamos a transplantar pulmões apenas metade dos transplantados estava vivo no quinto ano após a operação. Atualmente, esse número está acima de 75%.Na origem da dificuldade, duas características pulmonares contribuem para uma expectativa de vida, a longo prazo, menor do que a observada em outros transplantes: o pulmão é uma espécie de sentinela imunológico e, por isso, comparativamente mais rejeitável, do que os outros órgãos. Em segundo, o pulmão é o único órgão transplantado que continua em contato com ambiente, o que o torna mais vulnerável às infecções.
Vi uma entrevista do Senhor, na qual descreve o sofrimento terrível de quem precisa do transplante de pulmão. O senhor, que é adepto de uma visão humanista da saúde, como lida com essa dramaticidade e consegue ajudar o paciente e a família, que também acaba sofrendo bastante?
O candidato ao transplante de pulmão é um sofredor, considerando-se o martírio incomparável representado pela falta de ar. Acompanhar esse sofrimento é um exercício de impotência devastador para a família, confirmando que ninguém adoece sozinho. A ansiedade com esse quadro desesperador é agravada pelo fato de que essas doenças são progressivas, de modo que o paciente e sua família, percebem pelo agravamento da falta de ar, que ele está correndo contra o tempo, inexoravelmente. As histórias de desespero neste convívio são comoventes. A relação médico-paciente, nessa situação, é muito intensa porque envolve angústia, expectativa, incerteza e uma dose imensurável de esperança.
Falando mais um pouco ainda da humanização da medicina, o Senhor acredita que os médicos hoje já enxergam mais o paciente como um todo? Ou ainda falta cuidado com a pessoa e não apenas com a doença?
Essa diferença de atitude médica sempre existiu. É histórica essa separação entre médicos que tratam as doenças (que são monótonas e repetitivas,) e os que cuidam das pessoas que adoeceram, essas sempre diferentes, porque é uma característica humana, a originalidade do jeito de sofrer.
Os ex-fumantes são naturalmente a maioria dos pacientes na fila para transplantes de pulmão? O enfisema pulmonar é a principal causa? Qual é o peso do câncer de pulmão nessa fila?
Cerca de 40% dos transplantes de pulmão envolvem pacientes com enfisema, mas da enorme população de enfisematosos, não mais do que 15% terão condições de serem transplantados. Isso se deve à frequência com que os portadores de enfisema avançado têm outras doenças associadas ao tabagismo, (a mais frequente é a cardiopatia) impedindo a indicação de transplante. O câncer de pulmão, a exemplo de praticamente todos os outros tipos de câncer, representa uma contra-indicação absoluta ao transplante de órgãos.
A Santa Casa de Porto Alegre, onde o senhor trabalha, é referência na América Latina em transplante de pulmão. O que explica o sucesso dessa unidade de saúde nessa especialidade?
O pioneirismo numa área de reconhecida complexidade atraiu para o nosso serviço um grande contingente de pacientes que até então não tinham nenhuma alternativa que não fosse acompanhar a história natural de doenças irreversíveis. Por conta disso, realizamos até hoje, 730 transplantes, o que representa metade da experiência brasileira com transplante de pulmão.
Em 1999 introduzimos uma outra técnica pioneira que é o transplante com doadores vivos em que se utiliza parte do pulmão de dois adultos (em geral pai e mãe) para substituir pulmões de crianças, que de outra maneira não teriam chance de serem transplantados, porque o pulmão de um doador adulto não cabe na caixa torácica de uma criança. Já fizemos 40 desses transplantes, e o primeiro deles completará em setembro próximo, 24 anos do procedimento, levando uma vida normal. Certamente o apoio institucional foi decisivo nessas conquistas, e claro que este foi um projeto tocado à muitas mãos, corajosas e determinadas.
Qual é a avaliação do Senhor sobre a situação das Santas Casas de forma geral? O Senhor acredita que elas vêm tendo o apoio necessário?
As Santas Casas, como hospitais filantrópicos, enfrentam dificuldades históricas de sobrevivência. A Santa Casa de Porto Alegre, reconhecida como um dos mais importantes complexos hospitalares do Brasil. encontrou uma forma original de enfrentar essa dificuldade: com 40% dos seus leitos ocupados por pacientes privados ou conveniados, se dispôs a usar os recursos advindos dessa população diferenciada para subsidiar o déficit do SUS, o que representa um gasto ao redor de 150 milhões anuais, gastos acima dos parcos valores da tabela, que nunca serão remunerados. Essa forma invulgar de misericórdia permite que pacientes de todos os níveis sociais tenham o mesmo tratamento tecnológico dispensado aos pacientes privados. Claro que se essa estratégia for contada em um país civilizado, ninguém acreditará.
O Senhor já mencionou a euforia dos pacientes transplantados que voltam a ter uma vida normal depois de anos sem conseguir fazer tarefas básicas, como tomar banho e comer normalmente. Para o Senhor, deve ser uma grande satisfação ver o resultado…
Acompanhar o retorno à vida normal de pacientes que tinham extrema dificuldade de executar as tarefas mais simples é uma das experiências médicas mais gratificantes. Esse deslumbramento dos pacientes transplantados se deve, em grande parte, à mudança abrupta da qualidade de vida de pacientes que viveram durante anos a humilhação de se submeterem à opinião dos outros por não terem nem fôlego para argumentar. A capacidade humana de adaptação ao sofrimento é impressionante, mas assistir à alegria da recuperação da autonomia dessas pessoas é, para mim, a experiência médica mais gratificante.
Nós somos um jornal da Bahia e, dessa forma, não podemos deixar de pedir para o senhor relatar o caso de seu paciente baiano e a empolgação dele com o resultado do transplante.
Essa é uma história famosa, de um paciente baiano, de 49 anos, que antes de ser transplantado, várias vezes questionou se eu podia assegurar que ele voltaria a ter uma vida sexual normal, depois do transplante. Dois meses depois do transplante ele me ensinou um tipo original de gratidão, a gratidão com urgência, ao me ligar às 2h30 da manhã, ainda ofegante da sua proeza, pra me contar, em primeira mão, que tinha conseguido. Raras vezes voltei a dormir tão feliz!!.
O Senhor, como já mencionou, foi também pioneiro no transplante de pulmão em crianças. Quais são as complexidades e as vantagens de realizar esse tipo de procedimento no público infantil?
Conviver com o sofrimento na infância, é uma das experiências que mais me machuca. A morte cerebral em crianças é menos frequente, o que torna mais rara a doação de órgãos. Foi para essa população, que se desenvolveu a técnica do transplante com doadores vivos, uma experiência sempre comovente porque reúne num convívio de grande intensidade emocional, a perspectiva de recuperar para a vida normal um pingo de gente que sofre sem nem entender o que está acontecendo, com a determinação dos pais, sempre dispostos as fazer qualquer coisa para salvar suas crias bem-amadas. Dessa determinação, só quem tem filhos, consegue entender.
Além de médico, o senhor também é escritor e colunista de jornal. Gostaria de saber como foi esse chamado da literatura e como a experiência na medicina influencia o escritor?
A literatura e a medicina andam juntas porque têm em comum uso da palavra, que serve como instrumento de construção estética de um, e de matéria prima para arte de cuidar, do outro. O compartilhamento desse território pleno de emoção, explica porque tantos médicos são escritores, e tantos escritores leigos, se sentem atraídos pela densidade emocional do ser humano diante da ameaça da morte. A necessidade de resgatar o humanismo da medicina é tão explícita, que as melhores escolas médicas do mundo usam a literatura, e as artes em geral, como estratégia para estimular a inteligência emocional, tão desconsiderada pela tecnologia desprovida de afeto.
Para concluir, nesse sentido, queria saber se essa convivência próxima do senhor com a mortalidade dos pacientes acaba influenciando seu jeito de ser médico?
Eu costumo dizer que um médico que em 10 anos de atividade ainda não se transformou num especialista em gente, está desprezando uma fonte inesgotável de humanismo, que é paciente autenticado pelo sofrimento. Assustado pelo medo da morte, ninguém consegue aparentar o que não é. E conviver com essa autenticidade permite que o médico participe da relação afetiva mais densa que se pode desfrutar em poucos dias, entre duas pessoas que eram completos desconhecidos, até que uma delas adoeceu. A partir desse encontro, o exercício da empatia constrói maravilhas no coração humano. Cada médico certamente vai elaborar o seu modelo de pessoal de felicidade. Há muitos anos, trabalhando com transplante, descobri que nada me gratifica mais do que perceber que consegui dar a uma pessoa que me procurou precisando de ajuda, uma alegria que ela não teria vivido, se eu não tivesse sido capaz de fazer o que fiz. Sem nenhuma soberba, mas como uma doce compensação pelo sofrimento que enfrentamos, nas tantas vezes que não conseguimos.
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