TURISMO
Guia do Soteropobretano revela Salvador que quase não se vê

Soteropobretano: substantivo usado para os indivíduos habitantes de Salvador que, independentemente de sua classe social, aproveitam o melhor que a capital baiana tem a oferecer. Eles fogem da "cultura dos shopping centeres" e costumam comprar sempre a prazo, sem deixar de chorar um descontinho.
A definição acima não pode ser encontrada em nenhum dicionário, seja o Aurélio ou até mesmo o Dicionário de Baianês, que reúne gírias e expressões típicas da Bahia. Ainda.
Desde o último mês de setembro, o termo começou a se espalhar pelas redes sociais, com a criação do "Guia de Sobrevivência do Soteropobretano", uma página no Facebook destinada a dar dicas sobre atividades - muitas vezes incomuns - para se fazer em Salvador.
O criador do guia é o "soteropobretano" Iuri Barreto, 23, um jovem morador do Imbuí e recém-formado em Direito pela Ufba, que já era uma espécie de guia informal em passeios turísticos pela cidade.
"Começou com amigos, depois passou a ser com os amigos dos meus amigos que vinham para Salvador. Faço um roteiro, por prazer, com atividades para dois, três dias. Nada contra os guias turísticos, mas acho que existe uma forma melhor de mostrar a cidade para o turista. Eles acabam indo sempre para os mesmos lugares, os mesmos restaurantes".
O termo soteropobretano foi, na verdade, criado por um amigo carioca de Iuri, um dos turistas escoltados durante seus passeios na cidade.
"Ele gostou dessa mistura, de ver pobres e ricos juntos no Porto da Barra, por exemplo. Não que isso não aconteça lá no Rio, mas a geografia de Salvador acaba sendo menos estratificada. Gostei da sacada e quando pensei no guia resolvi usar a palavra".
A ideia inicial era criar um blog, mas Iuri rapidamente percebeu que poucas pessoas costumavam buscar novidades na sua página. Começou então a postar o conteúdo no Facebook e, em apenas dois meses, já possuía quatro mil curtidores. Isso até o início da saga do fim do mundo...
30 coisas - O sucesso mesmo do Guia do Soteropobretano veio quando Iuri resolveu fazer a lista das "30 coisas para fazer em Salvador antes do fim do mundo", brincando com a ideia (desmentida recentemente pela Nasa) que o mundo acabaria no próximo dia 21 de dezembro, devido a uma suposta profecia Maia. Atualmente, a página tem mais de 8 mil curtidores, dobrando o número em menos de 20 dias.
A primeira dica (pegar o trem que liga os bairros da Calçada até Paripe) teve mais de 500 "curtidores" e 400 compartilhamentos na rede social.
"Muita gente nem sabia da existência de um trem dentro da cidade. Ou tem preguiça de ir, por que acha longe. Mas há coisas que eles acham relevantes, como ir em um show na Praia do Forte, que as pessoas vão. Centenas de pessoas curtiram o comentário sobre o trem, mas acho que nem 10% vai querer ir lá. Temos que nos livrar dessas amarras e conhecer a cidade".
A lista das "30 coisas para fazer em Salvador antes do fim do mundo" já está completa, apesar de Iuri não ter escrito ainda os textos sobre todas as atividades. "Faço na véspera. É trabalhoso, já deixei de viajar para fazer os textos, mas escrevo com prazer", diz.
Para Iuri, que não tem grandes planos sobre o que fazer no futuro com o sucesso da sua página ("antes, vou descansar"), o objetivo é abrir a cabeça das pessoas para conhecerem melhor a cidade em que vivem.
"Não sei se é comodismo ou preguiça crônica, mas de uns 10 anos para cá, as pessoas vêm se acostumando a ter o shopping center como o único programa. Nada contra, mas eu vejo filhos de conhecidos crescendo dentro de shoppings. Também há uma mentalidade meio segregadora, as pessoas não querem se misturar. Claro que Salvador está cada dia mais violenta, mas deixar de aproveitar a cidade por causa disso, acho bobagem".
Ele dá como exemplo o lugar da conversa para a matéria, o Dique do Tororó, uma das atividades indicadas por Iuri para "ir antes do mundo acabar".
"Claro que dar uma volta no Dique durante a semana é perigoso, mas, aos domingos, isso aqui fica cheio. Brinco que é a nossa Lagoa Rodrigo de Freitas (que fica no Rio de Janeiro), só que muito mais bonita e menos poluída. Tenho amigos que têm medo de vir pra cá, e quando trago eles, percebem que não é nada disso. É você ter 'semancol', ficar num local mais movimentado. Não estamos no Iraque. Parece que as pessoas hoje quando saem de casa acham que estão indo para a guerra. Acho que o 'soteropobretano' é quem tem essa malícia, de saber curtir a cidade, mas também entender os perigos que ela pode oferecer".
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