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Ufba vai propor tombamento de sete prédios
A Reitoria da Universidade Federal da Bahia (Ufba) proporá o tombamento de sete edificações que lhe pertencem. A ação envolve propriedades em estilo eclético, construídas na virada do século XIX para o XX, em terrenos valorizados pelo mercado imobiliário. Com o pedido que fará ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a universidade mostra que, em Salvador, é preciso tombar para preservar.
“É uma lição que a universidade está dando. Esse papel é dever da instituição”, declara o reitor da Ufba, Naomar de Almeida, que vem construindo a decisão há quatro anos. “Que faça isso pelo exemplo e não como no passado, somente na retórica. Muita gente tem uma fala de defesa do patrimônio que se esgota aí. A Ufba encontrou um caminho de fazer dando sinais de valorização da sua memória em coerência com as propostas do seu plano diretor. Que esse processo seja uma lição”, disse, referindo-se ao Plano Diretor de Salvador (PDDU). “É um exemplo para a cidade, de que a participação é possível nos processos”, falou.
Com exceção da Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus - que é identificada com o neoclássico e está inserida em um contexto colonial - e da Reitoria, no Canela - que é uma reprodução de outro prédio -, os imóveis são remanescentes das casas que marcaram a expansão da cidade com rumos que não o do atualmente chamado centro antigo de Salvador. Os demais imóveis são a residência universitária masculina, na Vitória; a feminina, a Escola de Teatro e a de Belas Artes, na Avenida Araújo Pinho, no Canela; e a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, em São Lázaro.
Como primeiros prédios a serem tombados nesse estilo em Salvador, a iniciativa pode ser considerada pioneira e ousada. Tradicionalmente, o Iphan tem reconhecido o patrimônio classificado como colonial. Agora terá a oportunidade de aprovar o tombamento de imóveis cuja proteção já tinha sido pedida em 1998, pelo Sindicato dos Arquitetos (Sinarq), como é o caso das residências da Vitória, que tem 5.900 m², com 2.170 m² de área construída, e a do Canela, que tem 2.150 m², com 2.160 m² de área construída. A da Vitória, que pertenceu à família Calmon Villas-Boas, foi comprada em 1956 e chegou a ser tombada, junto com 12 imóveis, em 2003. Ao final de um ano, teve o processo arquivado pelo próprio Iphan.
Uma vez acatado o reconhecimento do mérito, a providência servirá para impedir que os prédios notificados tenham a sua integridade física adulterada ou que sejam destruídos, como prevê o Decreto-lei nº 25/37.
O reitor Naomar de Almeida acha que, além da Faculdade de Medicina, que tem 200 anos, nenhum dos exemplares é antigo o suficiente ou preenche os requisitos artísticos para ser tombado. “O critério principal é a relevância cultural, como referência baiana da universidade federal. Porque era onde os movimentos liderados por Edgar Santos aconteceram. Para o movimento estudantil é relevante a residência”, expôs. Esta chegou a receber a visita de Juscelino Kubitschek.
Arquiteta explica o valor artístico das edificações
O período entre a década de 40 e a de 60, protagonizado pelo fundador da Ufba, reitor Edgar Santos, e por professores trazidos por ele, como Agostinho da Silva (Ceao), Yanka Rudzka (Dança), Joachim Koellreutter, Ernst Widmer e Walter Smetak (Música), e Martim Gonçalves (Teatro), dentre outros, foi historiado exaustivamente. Mas nem só a consolidação da Universidade da Bahia como vanguarda brasileira justificaria o tombamento dos prédios representativos de um estilo que, partindo da França, se instalou em cidades do mundo e do Brasil - o eclético.
“Concordo com o reitor Naomar, mas levantaria uma outra questão que me parece tão relevante quanto. É sobre o valor artístico que aquela arquitetura tem e que é digna de preservação. Esses valores têm sido reiteradamente reconhecidos por organizações. Foi solicitada sua preservação aos órgãos competentes, o que promoveu um debate na cidade. Mesmo assim, parece que Salvador custa a reconhecer esse período”, discorre a arquiteta e coordenadora do curso técnico em infra-estrutura urbana do Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (Cefet), Maria do Carmo Baltar Esnaty.
“Seja por suas características intrínsecas ou pelo valor de mercado do local onde estão inseridas ou, melhor dizendo, pela pressão do valor de mercado. Falar de eclético implica diferenciados aspectos. Cada cidade tem uma tônica nessa produção, de acordo com o seu desenvolvimento naquele período. Uma vai ter mais influência francesa, outra mais erudita”, explana Maria do Carmo.
Valor – “O que acontece em Salvador é que esse período ainda é pouco estudado. Talvez pelo imenso patrimônio colonial, que é riquíssimo”, disse. De acordo com ela, Belo Horizonte, Porto Alegre, Belém e Recife têm um nível de proteção de seus exemplares maior que Salvador. “Paris talvez seja o exemplo mais espetacular. Virou modelo para intervenções. E é o grande exemplo de eclético. Ninguém pensa em destruir um boulevard para construir outras coisas. Aqui, ao perder esses modelos, perde-se a oportunidade de estudar como ele aconteceu”, disse.
Existe dinheiro para conservação
“Esse movimento agora desfaz aquela impressão”, diz Naomar de Almeida sobre a mobilização que estudantes e professores das escolas de Teatro e de Belas Artes fizeram em 2005, contra a venda dos prédios onde estão instalados. Ele avisa que essas unidades não serão transferidas para o campus de Ondina, a menos que elas queiram. “Acho que houve extrapolação naquela época. Bastaria terem perguntado. Esse mal entendido até hoje persiste. Ninguém vai ser forçado a nada”, afirma Naomar.
O reitor fala com entusiasmo sobre o plano diretor que está prestes a executar. Enfatiza que nele consta a rigorosa racionalização dos espaços dos campi. E menciona o Reuni, programa do governo federal, responsável pelo financiamento e estruturação curricular.
“Nós não estamos precisando de dinheiro para construção”, esclarece, para afastar a idéia de que a universidade faria melhor se vendesse seu patrimônio. “Pelo contrário, ela está incorporando imóveis. No interior estamos acrescentando - comprando e recebendo doações. Temos mais de R$ 1 bilhão em patrimônio imobiliário, e isso vai aumentar”, prevê, e avisa que dois pavilhões serão oferecidos à faculdade, em São Lázaro.
Para Naomar, “a Ufba está do tamanho que a Bahia merece”. Ele disse que foi reduzindo a dívida crônica que existia e que foram captados recursos do Ministério da Educação, do CNPq, Finep, Fapesb, Petrobras e Agência Nacional de Petróleo.
O reitor Naomar de Almeida explica que o memorial dos prédios a serem tombados está sendo preparado para respaldar o pedido ao Iphan. “O próprio palácio da Reitoria eu considero que tem um uso predatório. Os azulejos [vindos do Solar Bom Gosto, demolido na década de 30, tombados nacionalmente, em 1958) estão atravessados por redes de fibra ótica e fios de aparelhos de ar condicionado. Não acho essa uma boa destinação. O uso administrativo não é compatível com o patrimônio”, diz.
“São Lázaro não teve investimento nos últimos 30 anos. O prédio vai ser restaurado. Foi nele a sede da Faculdade de Filosofia no tempo de Isaías Alves”, informa.
Marcos de uma cidade rica
O prédio da Escola de Teatro foi projetado pelo arquiteto italiano Rossi Baptista, que veio para Salvador a convite do comendador Martins Catharino. Ele fez o palacete na Graça, hoje Palacete das Artes, a sede da Associação dos Empregados do Comércio, na Rua Chile, e provavelmente a Residência Universitária, no Corredor da Vitória. Ao todo, foram mais de 30 projetos. Baptista foi um dos que incrementaram a arquitetura em Salvador. Na época, a cidade sentia os efeitos da riqueza gerada pelas exportações.
Nos anos 50, naquela casa, foi instalada a Escola de Teatro. A estudante de licenciatura em teatro Naia Prata, 21 anos, diz que a iniciativa de tombar a casa que tem "tanta história para contar" tinha mesmo que ser tomada. “Acho superimportante porque esses prédios fazem a identidade da Ufba. A universidade foi construída nesses casarões. Alguns foram transformados por dentro como o que permitiu a construção do Teatro Martim Gonçalves e que assim acumulou mais história. Se não fosse conservado, a gente deixaria de ter esse legado e mudaria a cara da cidade”, aplaudiu Naia.
Na Escola de Belas Artes, cujo prédio é tombado em nível estadual, a notícia foi bem recebida. O professor Onias Camardelli lembrou que aquele terreno é especialmente cobiçado por empresários do setor imobiliário porque tem acesso para o Vale do Canela. Ele lembrou de professores que passaram por ali e louvou a disposição que a Reitoria está tendo de promover a proteção em vez de entregar o patrimônio à iniciativa privada.
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