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'Encontros' traz às telas o tema da solidão nas grandes cidade


No início dos anos 2000, o cineasta francês Cédric Klapisch ganhou certa notoriedade nos círculos cinéfilos mais cults com o lançamento da comédia romântica Albergue Espanhol (2002). O filme rendeu duas continuações: Bonecas Russas (2005) e O Enigma Chinês (2013). Agora, ele lança Encontros, filme que segue a mesma cartilha dos conflitos românticos de jovens soltos no mundo.
O cineasta atualiza seus temas e recai na solidão de um mundo hiperconectado para observar o cotidiano de um casal que mora um ao lado do outro, sofrem os mesmos dilemas contemporâneos e conflitos pessoais, mas não tiveram ainda a chance de se conhecerem.
Rémy (François Civil) é do tipo mais reservado, vive longe da família e perto da depressão – logo vai se consultar com um psicoterapeuta, algo que muita gente lê como tendência à loucura. Mélanie (Ana Girardot), por sua vez, trabalha num laboratório e luta contra a insegurança – ela precisa se preparar para apresentar uma conferência para cientistas importantes – e apesar da vida confortável financeiramente, sente-se só.
Além de um desentendimento que a afasta da mãe com quem é brigada; não demora muito para que ela também vá se consultar com um terapeuta. Eles frequentam os mesmos lugares na vizinhança (como o mercado de alimentos exóticos de um velho árabe, lugar em que mais de uma vez eles quase se encontram cara a cara). Possuem também suas desavenças e deslocamentos familiares e vivem a mesma rotina de solidão e poucas amizades.
Porém, ao invés de forçar uma situação em que estes célebres desconhecidos passem a compartilhar seus problemas e angústias – e o filme nos planta a dúvida se eles vão, em algum momento, de fato se encontrar –, Encontros prefere acompanhar os descaminhos isolados de cada um, seus dilemas e inseguranças, além das tentativas de inserção no mundo social.
Virtualidades
Como já é de costume, a ideia de solidão no mundo atual está sempre agarrada às possibilidades de interação virtual – algo impossível de escapar no nosso tempo.
Surge daí uma visão sempre muito pessimista do uso que se faz da internet e da vida conectada, das redes sociais e dos aplicativos de encontro.
Mélanie, por exemplo, busca algum tipo de relacionamento amoroso e/ou sexual nos aplicativos de paquera, conhecendo e saindo com tipos estranhíssimos. Por sua vez, Rémy acaba encontrando, via Facebook, antigos colegas do tempo de escola, pessoas de perfil totalmente diferente do dele.
Mesmo com as facilidades nos contatos interpessoais e demais maneiras de encurtar distâncias, o universo das redes de conexão virtual, onde todos transbordam felicidade infinita e sucesso na vida, são mostrados no filme como agente enganador, supérfluo e efêmero.
Klapisch prefere destacar a concretude das relações, a presentificação dos contatos pessoais, daí algumas cenas em que Rémy e Mélanie quase se esbarram em muitos momentos. O diretor possui um olhar atento para os detalhes da vida suburbana de Paris, longe dos cartões postais e da visão idealizada da capital francesa, e das pessoas que passam pela vida dos protagonistas – há um belo e surpreendente diálogo, por exemplo, entre os terapeutas que atendem cada um dos personagens.
Corações solitários
Nesse sentido, não deixa de ser um olhar menos cínico para cotidianos tão marcados por essa insegurança social quase depressiva, na medida em que o filme se preocupa em dimensionar os dramas e a personalidade dos protagonistas; o tratamento não é de pieguismo, mas também nunca desbanca na comiseração.
Ainda assim, Encontros não escapa de alguns situações forçosas na maneira como precisa sublinhar esse deslocamento dos personagens, especialmente diante de outras pessoas. Isso fica claro nas cenas em que Rémy e Mélanie engatam encontros amorosos com desconhecidos fadados ao insucesso, e em certa medida até caricatos, quando eles poderiam dar muito mais certo. Porém, o filme sente a necessidade de destacar uma inadequação social quase inerente á personalidade dos dois.
Esse amigo de infância que Rémy encontra por acaso no Facebook diz em certo momento do filme: “eu gosto de ser anônimo”.
Trata-se de um estado de espírito que muita gente gosta de compartilhar, especialmente nas grandes metrópoles. Rémy e Mélanie parecem ser forçados a isso, a revelia de suas necessidades emocionais.
Encontros, portanto, é um filme que luta a todo instante para que seus personagens percam o anonimato, deixem de ser só mais um na multidão, para ganharem mais autonomia no mundinho em que vivem.