Joel Zito: "Continuo flertando com elementos documentais"

Cineasta Joel Zito Araújo está em Salvador para apresentar novo filme no Panorama Internacional Coisa de Cinema

Publicado terça-feira, 07 de dezembro de 2021 às 14:43 h | Atualizado em 07/12/2021, 14:47 | Autor: Da Redação*

O cineasta Joel Zito Araújo está em Salvador para apresentar seu novo filme,  “O pai da Rita”, no encerramento do Panorama Internacional Coisa de Cinema, nesta quarta-feira, 8, às 18h, no Cine Metha - Glauber Rocha. A programação que finaliza o festival tem ainda a exibição de “Samba Riachão”, de Jorge Alfredo; um evento musical em homenagem a Letieres Leite e Flavão, e o anúncio dos filmes vencedores das mostras competitivas.

A trama da comédia dirigida por Joel Zito apresenta dois compositores da velha guarda da Vai-Vai (escola de samba de São Paulo) que têm a amizade estremecida pelo surgimento da filha de uma antiga paixão de ambos, a passista Rita. O filme será exibido apenas no cinema, com ingressos por R$ 5,00 (preço único do Panorama), mas o festival também conta com programação on-line no site panorama.coisadecinema.com.br. 

Diretor, roteirista e produtor-executivo conhecido por tematizar o negro na sociedade brasileira, Joel Zito irá conversar com o público após a exibição de “O pai da Rita”. Na entrevista abaixo, ele conta um pouco mais sobre as inspirações do filme e o significado dessa obra dentro da sua trajetória. 

 - “O Pai da Rita” é sua primeira ficção desde “As filhas do vento” (2005). Como surgiu esse desejo de voltar à ficção após uma série de documentários?

Nestes últimos quinze anos fiz somente longas documentais, e mantive o exercício com atores em dois curtas ficcionais. Na realidade, tive muitas dificuldades em conseguir recursos para os grandes projetos ficcionais, tenho três roteiros ainda engavetados que espero filmar nos próximos anos.

- O roteiro tem inspiração nas músicas “A Rita” e “Samba do grande amor” de Chico Buarque. O que te atraiu na ideia de filmar a junção dessas referências e como essa inspiração nas canções se concretiza na tela? 

Quando surgiu esta ideia de fazer uma história em torno da questão do problema de paternidade do homem negro, e com dois personagens inspirados nos boêmios compositores da Vai-Vai, automaticamente apareceu o samba “A Rita”, por motivos que deixo para o filme revelar. Mas, confesso que fiquei imaginando o quanto Chico, no seu início de carreira, não poderia ter se aproximado das escolas de samba paulistas, e até mesmo se envolvido com alguma passista ou porta-bandeira para criar tal música. 

- Os protagonistas do filme têm uma relação íntima com o universo do samba. Como é a sua relação com o samba enquanto música e elemento agregador de comunidades?

Eu sou muito eclético em música, adoro vários gêneros e ouço diariamente criações de distintas nacionalidades. Minha playlist é uma gostosa babel. Mas, entre as músicas brasileiras, eu amo a poesia do samba, que é imbatível. Ninguém faz coisas tão belas como Cartola, Noel Rosa, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Geraldo Filme, Leci Brandão Candeias, além de tantos outros e outras. E o universo das escolas de samba é quase uma extensão dos terreiros. Embora seja um universo mais dominado pelo masculino.

- Seu cinema é marcado por documentários que tematizam o negro na sociedade. Embora seja uma comédia, “O pai da Rita” não se afasta da sua temática central. Como o filme dialoga com o restante da sua filmografia?

Ele é uma extensão do meu universo ficcional e documental. Nesta história totalmente ficcional, quem for ver vai perceber também um universo muito documental que traz as distintas gerações de negras e negros da São Paulo contemporânea. Você verá a cultura negra do Bixiga, um bairro histórico em intensa transformação, com sua tradicional escola de samba, assim como com suas missas afro e o cenário jovem do Aparelha Luzia, templo contemporâneo da SP da nova geração. Mesmo na ficção, eu continuo flertando com elementos documentais. Mas, ao mesmo tempo, o que pretendi fazer foi apenas uma comédia romântica, humana, profundamente humana. Os elementos documentais são apenas para aumentar o colorido da história. Esta é, pelo menos, minha intenção. Espero que o público concorde comigo.

*Em parceria com a assessoria do Festival

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