Longa-metragem baiano 'Meu Tio José' vai competir em festival francês

Publicado domingo, 13 de junho de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 12/06/2021, 16:22 | Autor: João Paulo Barreto | Crítico de cinema

Havia um peso na vida do então garoto que viria a se tornar o diretor de cinema Ducca Rios. Tal peso era aquele da ausência de respostas pelo assassinato de seu tio, o artista gráfico e ativista político José Sebastião Rios de Moura, morto a tiros há 38 anos, em junho de 1983, em Salvador, quando o menino tinha apenas dez anos de idade. Tal ausência de respostas ainda permanece.

Porém, existe uma perceptível sensação de diminuição do peso carregado por anos após a perda de seu tio. "Larguei um peso que vinha carregando exatamente nesse momento. Ao soltar o filme para os festivais e, em breve, para o público, eu sinto um grande alívio. Por ter conseguido concretizar um objetivo tão antigo. Quando tomei consciência de que queria, realmente, fazer algo com o José Sebastião, foi por volta de 2010", explica Ducca, salientando a importância da vitrine representada pelo Festival de Annecy, que começa amanhã, seguindo até dia 19.

Na história de seu tio, que conhecemos através da óptica da criança Adonias, figura infantil de Ducca aos dez anos, vemos um homem que vai perdendo sua força motriz à medida que a ditadura militar, o autoritarismo e o fascismo avançam no Brasil de 1964 em diante. A partir das lembranças compartilhadas pela família de Adonias, conhecemos José na adolescência ainda em Teresina e, depois, desembarcando no Rio de Janeiro, na efervescência cultural brasileira naquele começo dos promissores anos 1960. Após sua ida a Brasília, onde começa a atuar como professor da UNB, é quando envereda de vez na luta contra a ditadura, chegando a fazer parte do grupo que sequestrou o embaixador estadunidense Charles Elbrick, em 1969.

Exilado e em fuga constante, José torna-se, também, exilado de si mesmo, sob o peso daquela roda viva. Retorna ao Brasil com a anistia, mas nunca conseguiu voltar a si mesmo. Torna-se introspectivo e silencioso, possivelmente ainda revivendo os dias de terror ditatorial. Em Salvador, é baleado dentro de uma farmácia por homens de terno e gravata. Morreria dias depois no hospital. Um crime que a polícia nunca buscou solucionar.

"A transmutação, digamos assim, do José começa a acontecer na UNB. Porque começa a repressão de um lado, com os setores conservadores encampados pelos militares. Eles começam a dar mostras que não vão deixar o Brasil seguir pelo caminho democrático, e acabam dando um golpe. E aquilo ali é um golpe, realmente. Uma cisão, em 1964, na personalidade do José. Eu não sei como me colocar na pele dele, mas imagino isso. Imagino que ele, vendo o povo sem saída, viu a si mesmo sem saída. Porque você não ter democracia é você não ter saída. É você não poder se expressar. É você não poder opinar. Não existe voto. Não existe direito. Então, você é o que?",  reflete Ducca Rios ao pensar na situação pela qual passou seu tio. 

Animação

Ao optar por contar a história de seu tio José através da animação, Ducca Rios contou com uma ferramenta de liberdade criativa que o permitiu ilustrar o pensamento infantil e o choque de uma maturidade alcançada tão precocemente pela dor da morte de maneira ao mesmo tempo lúdica e calcada nessa dura realidade.

"Usamos em Meu Tio José momentos de ilusão, de delírio quando a animação vai para um ad libitum (sem restrições ou limites) completo. Mas o mais presente é o real. A estética do real. E dentro dessa estética, imprimimos essa opinião a partir da escolha do preto & branco, que tem duas questões que eu gostaria de ressaltar. Uma é óbvia, que é a ditadura militar. É um período preto e branco da História brasileira. Sem cor. E a outra é a força da mídia impressa. No filme, estampamos manchetes nos prédios, nas casas e em muros", pontua o diretor. 

Wagner Moura é quem dá voz ao José Sebastião. O filme conta, ainda, com outros atores baianos, como Bertrand Duarte, Jackson Costa e Evelin Buchegger Ducca Rios explica que Moura gravou sua participação em Meu Tio José no dia seguinte ao encerrar os trabalhos de direção em Marighella, seu filme de estreia como diretor. "Ele já estava com a vivência atrás das câmeras como diretor, mas estava mergulhado naquele período, entendendo quem era o Marighella, e sabia o que era a clandestinidade. Imagine a clandestinidade, quando as pessoas não podiam falar com seus familiares, e não tinham acesso nenhum, porque não existia internet. No máximo, um telefone, se não presença física", salienta o diretor, descrevendo a experiência com o ator.

“Ele percebeu quem era o José. Foi muito fácil para ele entender. Eu já observei outros papéis do Wagner. Ele entra nos personagens e você não reconhece mais a pessoa. Ele tem essa capacidade de não rotular o personagem. Ele realmente constrói personagens diferentes. Ele imprime a sua personalidade, claro, mas não dá pistas de quem ele é quando está dentro do personagem.  Isso é muito raro em atores", elogia Ducca.  

História se repete

Idealizado em 2010, em um período cuja conjuntura brasileira era outra, a animação é lançada em um ano como o de 2021, década que se inicia repetindo as mesmas armadilhas de uma oportunista situação política que, agora, já não mais flerta com o fascismo, mas, sim, o assume completamente. "Eu nunca imaginei que lançaria esse filme em um momento como esse. É uma coincidência ruim para o país. Para o filme, acaba passando uma coisa meio profética que, para mim pelo menos, não existe em Meu Tio José. Acho que foi uma conspiração do universo para esse filme ser lançado neste momento, quando estamos vivendo uma época que nos remete a momentos que aconteceram antes do golpe de 1964. Gente indo para a rua em 'Marcha para a Família', entendeu? Uma marcha para a família que, na verdade, esconde ideais super retrógrados. Gente pedindo cassação do STF. 'Mais bíblia, menos constituição.' Isso é uma loucura! Estamos dentro de um processo distópico de volta ao passado inacreditável. Acho que tem muita gente indo para a rua e pedindo intervenção militar porque não sabe o que é. Não sabe o quão ruim é isso. É um caminho perigosíssimo. Perigosíssimo! Para todos! É um caminho que leva ao abismo", alerta.

Nas melodias das músicas de Chico Buarque, desconstruídas em versões instrumentais a dividir os capítulos do filme, além da pulsante versão de Apesar de Você na voz de Lirinha, Meu Tio José nos deixa introspectivos ao seu final. Mas esperançosos de que "apesar de você", poderemos voltar a sorrir. 

MEU TIO JOSÉ / Dir.: Ducca Rios / Com as vozes de Wagner Moura, Lorena Comparato, Bertrand Duarte, Evelin Butchegger, Jackson Costa e outros

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