25 ANOS DE CINEMA
Mostra de Cinema de Tiradentes acontece on line pelo 2º ano

Por João Paulo Barreto | Especial para A TARDE
Começa amanhã e segue até o dia 29 de janeiro a vigésima quinta edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, tradicionalíssimo festival que completa um quarto de século e, pelo segundo ano consecutivo, tem sua mostra de filmes e atividades de forma 100% on line.
Estava tudo certo para acontecer seu formato hibrido, com sessões presenciais na cidade patrimônio cultural em Minas Gerais, e, também, através da plataforma on line www.mostratiradentes.com.br. No entanto, com as altas taxas de contagio e números de internações devido à variante Omicron da Covid 19, além da H3N2, variante da Influenza A, os organizadores tomaram a prudente decisão de cancelar a parte presencial, mantendo a mostra somente on line.
Em comunicado oficial destinado à imprensa, Raquel Hallak, diretora da Universo Produções e coordenadora geral da Mostra, salientou a necessidade de pensar de forma coletiva e consciente diante dos números de contágio em expansão. "Salvar vidas é o mais importante. Sendo assim, em diálogo com o Governo de Minas Gerais, com a Prefeitura Municipal de Tiradentes, patrocinadores e profissionais do audiovisual, fornecedores, equipes e curadores, concluí que o melhor a ser feito nesse momento é transferir as atividades presenciais para o formato on line, mantendo o mesmo propósito conceitual do evento e da programação", escreveu Raquel. A decisão consciente reflete uma preocupação válida diante da necessidade de se evitar aglomerações.
Homenagem a Adirley
Com 169 produções selecionadas entre longas, médias e curtas metragens, além de uma homenagem ao cineasta Adirley Queirós, a edição desse ano trará a pré-estreia de Fragmentos de 2016 em Dois Episódios, mais recente projeto do diretor do já clássico Branco Sai, Preto Fica (2014). Nesta nova empreitada, dessa vez em um formato de minissérie em dois episódios realizada ao lado do cineasta Cássio Oliveira, Adirley traz seu olhar para uma reflexão sobre moradias.
"Em 2016, saímos para filmar uma série documental sobre a questão da moradia no Distrito Federal e seus entornos. Era um projeto proposto pelo Governo Federal, através da TV Brasil, que abrangia todos os estados da Federação e que nos parecia de extrema importância para o desenvolvimento de um certo cinema brasileiro", explica Adirley em texto oficial sobre seu filme.
Grande Otelo
Com seis filmes oriundos da Bahia, a presença de trabalhos do nosso estado acontece em quase todas as mostras de curtas-metragens da edição 2022 de Tiradentes. Um dos destaques é o poderoso documentário Não Vim no Mundo para Ser Pedra, de Fabio Rodrigues Filho, que aprofunda uma suspeita do gigante Grande Otelo quanto ao seu clássico personagem Macunaíma, da obra de Mario de Andrade.

Otelo, em 1987, sugeriu em entrevista a possibilidade dele ter sido a inspiração para Mário de Andrade ter escrito o romance Macunaíma. Feito a partir de imagens de arquivo de filmes e entrevistas com o lendário ator brasileiro, o filme de Rodrigues cria uma pertinente reflexão não somente sobre essa suspeita de Grande Otelo, como, também, uma análise do povo brasileiro em seus aspectos identitários.
Para o diretor, trata-se de um "trabalho modesto que vê na remontagem de imagens a possibilidade de ler os vestígios, oferecer outras interpretações pras coisas dadas e, claro, interromper algumas repetições de violências nas imagens", explica Fabio.
“É a primeira exibição, de modo que eu estou nervoso porque foram alguns anos reunindo os materiais e montando, entre idas e vindas, desistências e retomadas, e acho que, para mim também que o realizei, é um filme enigmático – muito inspirado na ginga de Grande Otelo e na urdidura do livro de Andrade, sem qualquer pretensão de resumi-los nestes 25 minutos de filme", finaliza.
Mais Bahia presente
Além da obra tributo a Grande Otelo, da Bahia, Tiradentes trará exibições de A Realidade Não Tira Férias, curta realizado pelo coletivo Cidade Baixa, bem como de Qual é a Grandeza?, novo trabalho de Marcus Curvelo, e Alágbedé, filme de Safira Moreira. Mais dois filmes fecham a seleção baiana de curtas em Tiradentes. Central de Memórias, de Rayssa Coelho e Filipe Gama, doc que faz um retorno ao bairro de Vila Serrana, em Vitória da Conquista, que, em 1997, teve suas ruas eternizadas nas filmagens de Central do Brasil.
Para o co-diretor Filipe Gama, “o filme estabelece uma relação entre as memórias das moradoras entrevistadas sobre a ocupação do bairro e a produção do filme, em diálogo com as imagens contemporâneas da localidade e o material de arquivo". Sua sobreposição de imagens entre as registradas há 24 anos e as recentes, bem como aquelas captadas em Google Street View, trazem uma reflexão importante sobre a ideia do Cinema como registro do seu tempo.
"É o segundo curta que dirijo e o faço, mais uma vez, em parceria com Filipe, nesse exercício de aproximação do tema central da memória, ainda que com propostas narrativas e estéticas diferentes do nosso filme anterior, o Coleção Preciosa," explica a co-diretora Rayssa Coelho.
A mostra contará, também, com a exibição do documentário A Vida em Meus Punhos, de Marília Hughes Guerreiro, filme que aborda a trajetória de Adriana Araújo, boxeadora baiana medalhista nas Olimpíadas de Londres, em 2012.
"A idéia do filme chegou num momento delicado da personagem. Adriana Araújo, a primeira brasileira a ganhar uma medalha olímpica para o boxe, literalmente lutava para se manter no esporte", explica a diretora Marília Hughes. O documentário traz imagens da rotina de preparação da atleta e foca em sua esperança de conseguir seguir no esporte.
"Ela precisava fazer uma boa luta, caso contrário, suas chances no boxe profissional seriam nulas. Além dos treinos, eu procurei registrar toda uma rede de afeto em torno da personagem.", relembra a cineasta.
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