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28/10/2023 às 12:32 - há XX semanas | Autor: Rafael Carvalho | Crítico de cinema*

CINEINSITE JÁ VIU

Mostra SP exibe filme francês vencedor da Palma de Ouro

“Anatomia de uma Queda” investiga o caso de uma mulher acusada de matar o marido

“Anatomia de uma Queda” vem dividindo opiniões por onde passa
“Anatomia de uma Queda” vem dividindo opiniões por onde passa -

Justine Triet é apenas a terceira mulher a dirigir um filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, um dos mais importantes e tradicionais do mundo. Seu “Anatomia de uma Queda” vem dividindo opiniões por onde passa – em Salvador será exibido na próxima edição do Festival Varilux, em novembro –, e é seguramente uma escolha pertinente e justa para a Palma, ainda que não haja nada de muito inovador ou surpreendente nele.

À primeira vista, o filme passa como um drama de tribunal como tantos outros, sem nada de muito espetacular para esse subgênero. Mas é com o tom sóbrio e com a maturidade de encenação que Triet ganha pontos, fazendo do filme um estudo sobre a verdade e sobre a descrença que recai sobre a mulher quando está no lugar de acusada.

Sandra (Sandra Hüller) vive com o marido (Samuel Theis) e o filho de onze anos (Milo Graner) numa casa de campo nos alpes franceses, isolados do centro urbano. Num dia de inverno, pacato, o garoto – que é cego depois de sofrer um acidente quando mais jovem – vai passear enquanto os pais ficam sós em casa, cada um fazendo seu trabalho – são ambos escritores. Quando o filho retorna, encontra o corpo do pai no chão, já sem vida, com manchas de sangue, aparentemente tendo caído pela janela do sótão.

Isso é tudo que sabemos de início, pois o filme também não nos revela o mistério. Sandra passa a ser a principal suspeita, e aquilo que vemos no decorrer do longa é o desdobrar do caso, desvelando a conturbada relação do casal – no sexo, nas rusgas profissionais, nas decisões sobre como criar o filho e tantos outros detalhes que vão sendo descobertos e expostos a público.

Trier filma tudo isso com uma competência narrativa que já estava presente em seus filmes anteriores, seja na comédia romântica “Na Cama com Victoria” ou no drama de meia idade visto em “Sibyl”. Nenhum deles, no entanto, tinha a seriedade e densidade que encontramos no filme novo, conduzido com muita segurança pela diretora.

As maiores qualidades da obra estão em não investir nas falsas expectativas sobre a culpa ou inocência da mulher e principalmente em não trabalhar com ambiguidades. Se estas são postas em cena, isso se dá pelos lados da disputa judicial, já que o embate entre o advogado de defesa e a acusação é bem duro aqui, mas nunca pelo filme em si, que não julga sua protagonista, apenas observa a maneira cruel e em muitas vezes misógina com que ela é tratada. Junta-se a isso a excepcional atuação de Hüller e “Anatomia de uma Queda” torna-se filme obrigatório para qualquer cinéfilo.

Labirintos da memória

Alguns documentários estão carregados de boas intenções e de um tratamento carinhoso e cúmplice entre quem filma e quem é filmado, o que não significa um resultado final dos mais positivos. Esse é o caso de “A Memória Infinita”, de Maite Alberdi, longa que registra o cotidiano de um casal de idosos, ele com Alzheimer, passando pelos anos recentes de pandemia de Covid.

Mas não se tratam de pessoas comuns. Paulina Urrutia é uma veterana atriz que chegou a ser Ministra da Cultura nos tempos de reabertura política do Chile, enquanto Augusto Góngora foi um jornalista reconhecido pelo ativismo e pelos livros que escreveu como denúncia ao duro governo Pinochet.

Os relances da atuação profissional e de ativista de ambos são resgatados através de rápidas imagens de arquivo, mas o que interessa ao filme é a intimidade de um casal apaixonado que luta contra a perda da memória. Paulina cuida de seu esposo com uma dedicação e resignação invejáveis, coisa de um estado de amor bruto, enquanto ele perde cada vez mais suas memórias e a própria razão diante da doença avassaladora.

A jovem cineasta chilena parece ter encontrado uma predileção especial em filmar pessoas idosas, algo que já estava no seu longa anterior, “Agente Duplo”, indicado ao Oscar de Melhor Documentário, sobre um senhor que se infiltra num asilo porque desconfia que uma das pacientes está sofrendo maus tratos. Aqui, Alberdi repete o gesto do cuidado e do afeto, apostado na simples observação desse casal que aprende a se apaixonar a cada novo dia.

No entanto, o tratamento tão próximo e intimista que o filme assume acaba reforçando dois aspectos que se elevam ao nível do questionável: o tom excessivamente amoroso, abusando da trilha sonora melosa, o que aproxima o filme de um melodrama do tipo documental; e também a exploração da doença vista com comiseração excessiva pelo filme, beirando a exploração da dor e do sofrimento diante da degeneração cerebral de Augusto.

É certo que a diretora conta com a cumplicidade de Paulina – a atriz esteve presente na sessão da Mostra para apresentar o filme ao público – para adentrar aquela intimidade e até mesmo para registrar certos momentos, mas “A Memória Infinita”, ao mesmo tempo que transborda o amor entre aqueles dois indivíduos, também causa desconforto pela indulgência com que retrata aquela situação. Ainda assim, a memória torna-se o tema do filme, pessoal e coletiva, na medida em que ambas se confundam na vida dos dois.

*O jornalista viajou a São Paulo com apoio da organização do evento.

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