O renascimento do criador de mitos em O Peso do Talento

Nicolas Cage brinca com sua vida e carreira em filme que estreia nesta quinta

Publicado quinta-feira, 12 de maio de 2022 às 14:34 h | Atualizado em 12/05/2022, 14:34 | Autor: Renata Ramos
Nicolas Cage vive Nicolas Cage em O Peso do Talento
Nicolas Cage vive Nicolas Cage em O Peso do Talento -

Por muitos anos, Nicolas Cage permeia o imaginário coletivo não somente pela sua carreira, marcada por altos e baixos, mas por sua excentricidade fora das telas e escolhas duvidosas que beiram o absurdo.

A personificação de um mito deturpado criou ao longo dos anos uma persona tão específica que acaba por construir para si um gênero único na indústria cinematográfica. Em O Peso do Talento (The Unbearable Weight of Massive Talent, 2022), temos a oportunidade de vislumbrar através da ficção esse universo peculiar e muito interessante.

 No filme do diretor Tom Gormican, com produção executiva de Kevin Etten, encontramos a história de Nicolas Cage (sim, o personagem), um ator que após ser rejeitado pelo diretor Quentin Tarantino para um filme percebe sua carreira em completa decadência. Prestes a declarar falência, se vê sem saída e acaba aceitando a oportunidade de ganhar US$1 milhão em troca de uma aparição na festa de aniversário de Javi (Pedro Pascal), um fã milionário envolvido com atividades duvidosas.

O fanatismo de Ravi por Nicolas é exposto progressivamente, o que acaba por criar um vínculo de amizade e compreensão entre ambos. As coisas começam a ficar mais esquisitas quando uma agente da CIA, interpretada por Tiffany Haddish, requisita os serviços investigativos do ator. Cage precisa trabalhar como um agente duplo, dividido entre manter limpa a relação com o recém amigo que alimenta o seu ego megalomaníaco e uma investigação criminosa de escala internacional.

O Peso do Talento
O Peso do Talento |  Foto: Divulgação
 

Na tentativa de não abrir mão de nenhum dos dois mundos, Cage se sente preso em uma dupla personalidade que o atormenta ao ponto de enxergar uma outra versão mais jovem e desequilibrada de si mesmo produzida em CGI, uma referência ao seu comportamento absurdo em uma entrevista apresentada por Terry Wogan, onde Nicolas promovia o filme Coração Selvagem (1990).

Com um início de filme promissor, Tom Gormican consegue dosar com muita inteligência as auto referências de forma cômica, o suficiente para cativar toda atenção de quem assiste, mas essa necessidade de demonstrar uma contínua consciência sobre seu ator/personagem o faz derivar entre altos e baixos, já que o diretor sente a constante necessidade de relembrar ao público de que aquele filme conhece as piadas mais internas sobre a vida do ator.

No terceiro ato, o filme tem mudanças abruptas de atmosferas que vão de suspense, investigações, muitas cenas de ação com perseguição. Apesar de caminhar para um final previsível, não decepciona ao entregar exatamente o que se propõe desde o início. 

Morte e renascimento do criador de mitos

O Peso do Talento
O Peso do Talento |  Foto: Divulgação
 

Ouroboros é um conceito simbolizado por uma serpente mordendo a própria cauda, o que representa o eterno retorno espiral da evolução, uma dança de morte e renascimento. Nada define melhor a vida de Nicolas Cage. Também conhecido como “James Stewart marciano” – onde o crítico Roger Ebert afirma ter duas únicas velocidades, intensa e mais intensa – observamos uma vida repleta de instabilidade e situações das mais absurdas possíveis.

Com um Oscar de melhor atuação na estante pelo filme Despedida em Las Vegas (1995),  Nicolas cage conseguiu a façanha de  estabilizar uma presença cinematográfica que perdurou ao longo de quatro décadas onde encabeçou diversos gêneros, incluindo “filmes B” que se tornaram clássicos cult; O Beijo do Vampiro (1988), e também blockbusters de ação; um vilão excêntrico em A Outra Face (1997), A Rocha (1996)  e Con Air - A Rota de Fuga (1997) e comédias românticas; Feitiço da Lua (1987) onde foi par romântico de Cher.

É limitada a lista de atores que possuem uma filmografia tão eclética. Rejeitando o sobrenome Coppola, Cage decide de forma ousada construir um caminho próprio em sua carreira cinematográfica, atuando em filmes de grandes diretores como David Lynch, Brian De Palma, Michael Bay e Martin Scorsese. Nesse ponto suas habilidades de atuação não são questionadas, assim como seu comprometimento com cada papel interpretado onde deposita sua alma em qualquer filme que se propõe a fazer.

Já no final dos anos 2000 a vida de Cage começa a ter um declínio veloz. O ator perde toda fortuna acumulada com anos atuando em blockbusters de ação, seus gastos oscilam entre cuidados com a mãe que sofre de esquizofrenia e ostentações excêntricas; uma caveira de tarbossauro, mansões e castelos, 22 carros de luxo, o primeiro exemplar original de Superman, jatos e até uma ilha no Caribe. Uma investigação fiscal apontava uma dívida de 8,45 milhões de dólares ao Tesouro dos Estados Unidos, o ator continuou acumulando dívidas que chegaram ao valor de 12,74 milhões de dólares.

 Após declarar falência e vender alguns bens para estabilizar sua vida financeira, Nicolas Cage decide aceitar todo tipo de papel para manter o fluxo de dinheiro ativo, o que acaba o levando diretamente o universo do cinema independente, participou de filmes como Mandy - Sede de Vingança (2018), A Cor que Caiu do Espaço (2019) e Pig (2021). Nesse ponto Cage já conseguiu construir uma legião de fãs fiéis ao seu trabalho, algo tão forte que consegue ultrapassar qualquer barreira limitadora aos filmes de gênero, o que dá espaço para a reafirmação de uma marca mítica.

Nesse terreno de versatilidade e um vasto número de personagens que partilhavam parte de sua essência pessoal, encontramos Nicolas vagando pela linha tênue entre um astro premiado original com atuações extravagantes e um ator fadado aos filmes de plataformas digitais nunca lançados em uma tela de cinema. A dualidade que sempre gerou um conflito interno muito forte na vida do ator, serviu como entretenimento em formato de “memes” por todos que acompanham sua trajetória.

O Peso do Talento
O Peso do Talento |  Foto: Divulgação
 

A memeficação de Cage por si só estimulou e concretizou a existência desse mito como canônico na cultura pop, e esse é o alicerce que sustenta O Peso do Talento. Por se tratar de uma base tão rica e atrativa, o filme consegue estimular um interesse genuíno naqueles que assistem. Funciona como um divisor de águas em sua carreira, algo que o próprio ator em entrevistas admitiu receio por se tratar de um projeto tão caricato. Nicolas Cage confronta seu passado glorioso, seu fracasso fruto de péssimas escolhas e sua crença mais íntima acerca do próprio talento.

Da morte ao renascimento, Nicolas se mostra seu pior inimigo e maior aliado. Sua carreira bem como aspirações íntimas com o universo cinematográfico permanece uma incógnita, mas agora que toda essa trajetória de altos e baixos foi colocada em discussão podemos esperar finalmente uma reconstrução promissora pro ator, ainda que posteriormente tudo venha a ruir novamente, uma coisa podemos ter certeza: Nicolas Cage consegue a façanha de renascer e se reinventar como poucos. O filme chega às telas de cinema dia 12 de maio

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