Premiado em Veneza, 'Ataque dos Cães' chega à Netflix com cheirinho de Oscar

Publicado segunda-feira, 06 de dezembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 05/12/2021, 15:57 | Autor: João Gabriel Veiga*

Poucas figuras são tão emblemáticas para a cultura ocidental quanto a do caubói: um homem viril, másculo. Ele simboliza o suprassumo do ideal masculino, um modelo inalcançável que há quase um século habita o imaginário popular no mundo todo, especialmente o americano. Em Ataque dos Cães, premiado com o Leão de Prata de direção no Festival de Veneza, Jane Campion volta para os anos 1920 e olha para esse mito procurando as rachaduras e contradições desse ideal que, muitas vezes, se manifesta na masculinidade tóxica.

Entre bois e cavalos, há o complicado Phil Burbank (Benedict Cumberbatch), que se descreve como “um menino criado por lobos”. Sempre sujo, ele se recusa a tomar banho como se a lama que cobre seu corpo fosse uma armadura. Cruel e tirano, toma conta do rancho de sua família com seu irmão, o gentil porém indiferente George (Jesse Plemons), como se este fosse seu palácio – seu universo particular, onde sua presença preenche cada cômodo e intoxica a fazenda, presa entre as montanhas. Phil se julga mais forte que todos ao redor, e crê que seu papel é subjugar, castigar ou adestrar quem considera fraco.

Phil e seus empregados do rancho passam o dia cuidando dos animais, montando cavalos e rindo de brincadeiras infantis demais para sua idade. É quase uma colônia de férias, com a diferença de que, apesar de soberano, o vaqueiro não parece ser feliz lá. É então que seu reino é invadido por dois forasteiros que ameaçam o mundo bruto e rudimentar de Phil com um pouco de delicadeza e afeição.

Um desses intrusos é a viúva Rose (Kirsten Dunst), com quem George se casa subitamente. Rose é uma mulher frágil e ansiosa, em constante melancolia. Ela gravita ao redor do belo, desde sua paixão por flores e jardinagem quanto pelas artes – ela costumava tocar piano em exibições de filmes mudos. No entanto, todo caçador precisa de uma presa, e todo valentão busca um alvo fácil. Insegura, a mulher se torna vítima do completo desgosto de seu cunhado.

A dinâmica que se estabelece entre Rose e Phil é enigmática e intrigante, já que não há nenhum resquício de tensão romântica ou sexual entre eles. Rose é despedaçada por Phil, e a série de jogos mentais e tortura psicológica às quais ele a submete parecem mais uma tentativa do caubói de marcar seu território. Apesar da viúva sucumbir rapidamente à atmosfera hostil do rancho, que se torna sua prisão particular, Phil parece ameaçado e ofendido por sua feminilidade.

No entanto, quando Peter, o jovem filho de Rose, chega ao rancho para passar suas férias da faculdade, a natureza do jogo de Phil começa a se tornar mais clara. À primeira vista, Peter parece tão delicado, artístico e gentil quanto sua mãe, atraindo o desprezo imediato de Phil. Mas ao contrário de Rose, ele permanece inabalável, revelando pouco a pouco os extremos de sua força metálica, capaz de enlaçar o cavalo mais selvagem.

Rimas visuais e simbolismo

Jane Campion, que adapta o romance de 1967 de Thomas Savage, conta essa história com maestria. Seu roteiro e direção são dotados de uma inteligência e virtuosismo sem paralelos, mascarando um estudo de personagem taciturno com traços de faroeste, mistério e suspense psicológico. Ataque dos Cães é lento, porém assisti-lo é como ver um incêndio se alastrar por uma floresta: o filme queima aos poucos, mas é imensamente poderoso e assustador.

A narrativa é recheada de rimas visuais e rico simbolismo, e Campion joga com uma justaposição de símbolos fálicos e masculinos com elementos do universo feminino, com iconoclastia e profundidade emocional. Muito da dinâmica entre as personagens não é dito em voz alta, mas é perceptível em suas interações e em como o filme utiliza seus signos.

É interessante, por exemplo, como o piano de Rose é demarcado como um território feminino, em contraposição ao banjo e o assovio masculino de Phil. Enferrujada e sem prática, sua inaptidão é usada contra ela pelo cunhado, que dedilha em seu instrumento com facilidade as melodias que ela não consegue mais tocar com fluidez.

É também notável como cordas aparecem em inúmeros contextos, escondendo pistas do desenrolar da trama e do passado dos personagens.

Essa complexidade da direção de Campion dá um material rico ao elenco, que se mostra a cada segundo à altura do desafio. No papel principal, Benedict Cumberbatch encontra um equilíbrio fascinante entre a crueldade e a vulnerabilidade. Por mais abusivo que Phil seja, ele nunca é uma caricatura. Para além da fachada, Campion e Cumberbatch constroem um caubói atormentado, sexualmente reprimido e muito, muito frágil.

Do outro lado do jogo, Kirsten Dunst encarna Rose com um misto da doçura de suas colaborações com a cineasta Sofia Coppola e sua performance assombrosa em Melancholia (Lars Von Trier, 2011), um dos magnum opus da atuação moderna. Sua personagem, sempre em estado de alerta, tem um arco dramático de partir o coração, e Dunst navega por cada etapa dessa jornada com emoção crua e desoladora.

Completando o trio, está Kodi Smit-McPhee (Peter), uma revelação. Seu personagem é talvez o mais complexo de todos, com um ar sempre enigmático de esfinge. Com uma química e tensão homoerótica espetacular com Cumberbatch, o jovem ator entrega uma performance destemida, astuta e vivaz, brincando com um personagem que é, ao mesmo tempo, caça e caçador.

Ataque dos Cães é um lembrete da maestrina que é Jane Campion, uma das únicas mulheres indicadas ao Oscar de Direção por O Piano (1993). Sua forma de construir um filme é clássica e moderna, ousada e impossível de desviar o olhar. Seu retorno à realização cinematográfica é um conto trágico e sombrio sobre repressão sexual e masculinidade tóxica, se apropriando de uma iconografia tradicional para reescrever a história.

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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