Ridley Scott escorrega em Casa Gucci, radiografia da queda de um ícone da alta costura italiana

Publicado quarta-feira, 01 de dezembro de 2021 às 06:08 h | Atualizado em 30/11/2021, 22:36 | Autor: João Gabriel Veiga*

Todo império há de cair um dia, e quanto maior é o topo, maior é a queda. Do Império Otomano até a rede de locadoras Blockbuster, essa é a ordem natural das coisas. E quando se mistura família com negócios, essa jornada ao precipício costuma se acelerar. Com esse argumento, o cineasta Ridley Scott entrega seu segundo filme em menos de seis meses: Casa Gucci, sobre as intrigas sangrentas por trás de uma das grifes mais luxuosas da alta costura.

O roteiro tem como base o livro de Sara Gay Forden, cujo subtítulo descreve essa saga como “uma história de assassinato, loucura, glamour e ganância”, e opta por uma decisão interessante: narrar o filme pelos olhos de Patrizia Reggiani, uma mulher calculista que conseguiu fisgar o coração do herdeiro Maurizio Gucci e, de certa forma, amou seu marido e sua marca até a morte.

Tudo começa com um “era uma vez…”, quando Patrizia e Maurizio se conhecem em uma festa, e a jovem decide investir agressivamente no tímido rapaz. Após muito tentar, as diferenças de classes sociais são deixadas de lado pela atração fatal desse casal, mesmo com a desaprovação do patriarca Rodolfo Gucci. Porém, o amor conquista tudo, e Patrizia de fato quer conquistar tudo: o coração de seu amado e os rumos da empresa. Tal qual a Lady Macbeth de Shakespeare, a garota italiana transforma seu frágil marido em um leão.

Passando-se ao longo de duas décadas e cruzando o Atlântico entre Milão e Nova York, Casa Gucci mescla o melodrama do romance tórrido e caótico de Maurizio e Patrizia com as intrigas empresariais – o que faz sentido, já que a ambição da intrusa no ninho tem um grande impacto nos negócios da família.

No entanto, por mais que seja uma decisão sensata, as metades dessa equação se misturam como água e óleo e o casamento não dá certo.

Casa Gucci parece uma mistura de dois filmes, e nenhum deles é particularmente bom. A escalada social de Patrizia tem toda a cafonice e o exagero de uma telenovela mexicana, enquanto a briga de Maurizio com o pai, o tio e seu primo pelo poder parece uma tentativa fracassada de imitar a irreverência com a qual a excelente série Succession, da HBO, trata de um tema similar. Quando esses dois mundos se chocam, é uma explosão na fábrica de perucas e figurinos.

O longa, produzido no início de 2021 quase que simultaneamente com O Último Duelo (épico medieval também assinado por Scott e lançado em outubro), tem claros sinais de algo feito às pressas. A trilha-sonora muitas vezes é dissonante com as situações, e a edição tem diversos cortes bruscos, com cenas terminando abruptamente e transições temporais inexplicáveis.

Há um momento especialmente áspero, no qual uma sequência termina com determinado personagem falando, cortando para o mesmo não apenas morto, como deitado em seu caixão, na cena seguinte – como se uma cena no meio disso tivesse desaparecido na ilha de edição.

Teto de vidro

Contudo, o principal pecado de Casa Gucci é que, ao longo de suas quase três horas de duração, toda a extravagância e os absurdos são entediantes. Eles divertem até certo ponto, mas se tornam cansativos. Isso ocorre porque Scott parece não entender o material que tem em mãos, e tenta fazer sua saga familiar se levar mais a sério do que deveria.

Isso está evidente na completa falta de interesse que o cineasta parece ter pelo universo da moda, apesar de todos os personagens serem apaixonados pelo assunto e terem visões muito específicas sobre o que a marca deve ser. Em dado momento, Maurizio declara querer que a Gucci seja como “o Vaticano da moda”, algo que nunca é traduzido para o filme.

Pelo contrário, da direção de arte e figurinos até a fotografia, Casa Gucci é um filme feio. Os poucos desfiles são breves e filmados de maneira distanciada, e o processo criativo só é mostrado na perspectiva do primo Paolo – o bobo da corte da família, desprovido de talento e elegância. Ridley Scott não consegue imprimir a sensualidade e o glamour da maneira que um Paul Verhoeven (Instinto Selvagem, 1992) ou Tom Ford (Animais Noturnos, 2016) conseguem.

Essa bagunça de tons de um diretor confuso em sua visão se reflete no desempenho do elenco, com cada membro em uma direção oposta. Enquanto Jeremy Irons e Adam Driver optam por uma composição mais séria, o grande Al Pacino se diverte completamente canastrão – e sempre acerta o tom.

No entanto, todo o peso de Casa Gucci repousa nos ombros da cantora Lady Gaga, que para o bem e para o mal, vive Patrizia com som e fúria. Sua composição caricata e histriônica é divertida, mas quando a trama começa a demandar um peso dramático maior, Gaga deixa à mostra suas limitações enquanto intérprete. Ela não consegue convencer, e sua tentativa de fazer um sotaque italiano quase convence o público de que Patrizia é, na verdade, uma espiã russa.

No tópico de sotaques e exageros, ela é superada por Jared Leto. Sua atuação como Paolo Gucci é monstruosamente ruim, com um dialeto italiano que parece uma imitação do videogame Super Mario. Completamente artificial e ridícula, sua performance se baseia em gritos e quilos de maquiagem para tornar o ator irreconhecível, e é de uma intensidade patética.

Todo império colapsa, e quando suas fundações são tão fracas quanto as de Casa Gucci, o declínio é doloroso de assistir. Com um arquiteto desinteressado em seu próprio projeto, essa casa parece grandiosa vista de longe, mas tem teto de vidro. Ridley Scott confunde o ridículo com a sátira, e o supérfluo com o glamouroso.

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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