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"Saudosa Maloca" traz às telas os sambas de Adoniran Barbosa

Longa traz o brilho de Paulo Miklos na pele do genial cantor e compositor paulistano

Publicado domingo, 24 de março de 2024 às 08:30 h | Autor: João Paulo Barreto
Paulo Miklos na pele de Adoniran Barbosa, o célebre autor de inúmeros sambas clássicos da MPB
Paulo Miklos na pele de Adoniran Barbosa, o célebre autor de inúmeros sambas clássicos da MPB -

Morar longe, lá em Jaçanã, e se esforçar para não perder o trem que sai agora às 11h por dois motivos: a mãe não dorme enquanto ele não chega e porque, se perdê-lo, só amanhã de manhã. Marcar um samba lá no Brás, na casa do coligado Arnesto. Ser alertado de levar uns embutidos e umas biritas. Chegar na hora combinada e dar de cara com a casa vazia, a porta fechada e sem o aviso do amigo colado (o vento levou). A balconista do Black Tie, o boteco do samba, Iracema, com sua beleza, talento para a arte do figurino e tragicidade futura. A derrubada do palacete abandonado, uma saudosa maloca onde viviam João, Joca e Mato Grosso, os três amigos com alergia a trabalho e afinidade por duas coisas: cachaça e samba.

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Os causos e personagens citados acima são criação de João Rubinato, o comediante e sambista que adotou para si a alcunha lendária de Adoniran Barbosa. Tais criações, agora, ilustram uma maneira poética de conhecermos quem foi tal gigante. E o nome da obra cinematográfica que batiza essa visita com liberdade poética à sua trajetória não poderia ser mais apropriado que aquele mesmo que batizava o palacete em ruínas onde viviam algumas de suas criações: Saudosa Maloca.

Dirigido por Pedro Serrano e com Paulo Miklos encarnando Adoniran Barbosa, o filme não somente traz uma dramatização da obra do artista através de seus notórios personagens, mas cria para a audiência uma reflexão sobre a dura lida do compositor e a busca por reconhecimento para sua arte.

Serrano, que já havia visitado a trajetória do ícone da música brasileira em duas ocasiões distintas (no curta metragem de 2015, Dá Licença de Contar; e com o documentário Adoniran - Meu Nome é João Rubinato, de 2018), retorna a uma proposta de narrativa poética da vida de Adoniran e entrega um resultado que prima não somente pelo cômico, mas, também, por um eficiente drama dentro da reflexão atrelada às dificuldades da figura do artista e sua vontade de viver do que produz.

“A minha primeira abordagem com o curta era essa abordagem poética sobre a sua obra", explica Pedro Serrano em entrevista ao A TARDE.

“Eu me interessava em falar dele através da obra criada por ele e não através de uma cinebiografia. Como existiu o projeto do curta como uma viagem no universo criativo dele, foi no documentário que eu tive a possibilidade de me entregar para fazer algo biográfico e documental nesse sentido de linguagem para falar de fatos da vida", pontua.

Comédia clássica

Com essa licença poética e um foco na química precisa entre os três protagonistas, o diretor encontrou a maneira de homenagear não somente Adoniran, mas toda uma época do samba paulistano. E vai além. A partir da presença de Gero Camilo no papel do folgado e preguiçoso Mato Grosso, e de Gustavo Machado como o galanteador bon-vivant e não menos preguiçoso Joca, Saudosa Maloca traz ecos de uma comédia clássica que remete a Os Três Patetas, Mazzaropi, Buster Keaton e Chaplin.

Paulo Miklos pontua essa química de seus colegas de cena. “O Pedro deixou a gente muito à vontade. A gente trabalhou isso muito detalhadamente nas cenas", relembra Miklos. "Criamos e aprofundamos essa cumplicidade. Isso além de ser de um privilégio trabalhar com o Gero e com o Gustavo. Mas esse trio dos  vagabundos, essa turma dos maloqueiros, o trio da maloca, tivemos a chance de desenvolver essa cumplicidade já nos ensaios do curta. O Pedro trabalhou com a gente cada momento daqueles. E a gente foi buscar essas brincadeiras que remetem muito ao cinema mudo, às comédias do cinema mudo. É um humor físico. É uma possibilidade de fazer essa coisa interessante da relação entre os personagens", define Miklos.

Sobre a genuína química não somente entre o trio, mas, sobretudo, entre os personagens de Gero Camilo e Gustavo Machado, Paulo Miklos relembra que, dentro da figura patriarcal de Adoniran, ele, várias vezes, apenas testemunhava a interação cômica entre seus parceiros de filme.

“Por muitos momentos, eu estava assistindo aos dois. Porque eles têm uma dinâmica tão incrível em cena. E o Adoniran dava mais bronca neles. Pareciam dois moleques, dois garotos. E o Adoniran, uma espécie de pai dando bronca. Então, se criou essa relação bacana muito próxima da gente. Isso transparece no filme e é um dos pilares da história", comemora o eterno Titã.

Sobrevivência pela arte

A citada reflexão que o filme traz relacionada à realidade dura da tentativa do compositor popular alçar ao sucesso dentro de sua arte, algo que remete ao clássico Rio, Zona Norte, de Nelson Pereira do Santos, também é abordada pelo diretor e por seu protagonista.

“Essa luta do compositor foi a luta do Adoniran. Apesar do filme não ser biográfico, é uma coisa que está presente na alma, nas criações dele. Essa luta do trabalhador para sobreviver, que ele tanto retrata na crônica social, é um pouco a luta dele", crava Pedro Serrano. "Adoniran não morreu consagrado, rico, morando numa mansão. O cara estava até o fim da vida tendo que se provar, achando que não tinha reconhecimento suficiente. Ele ficou no ostracismo um tempo, depois retornou, depois caiu no esquecimento de novo, depois voltou. Então, tem tudo a ver com o próprio personagem, né? E aí acho que quando a gente vai falar também do reconhecimento de arte, do viver da arte, e como é um clássico do clichê achar que isso é vagabundagem perto, justamente, da oposição ao progresso que é essa coisa cartesiana que vem trazer a lógica do capitalismo", aprofunda o cineasta.

Paulo Miklos destaca uma cena chave do filme para exemplificar essa luta. "Eu fiquei muito feliz com aquela nossa cena do rádio. Porque aquilo é uma realidade. Inclusive que ele tenta colocar o samba dele, mostrar o samba dele, e a sugestão que vem é: 'Olha, esse seu samba, melhor, não. Melhor se você cantar um samba de verdade'. E aí ele vai lá e canta um do Noel Rosa (risos). Mesmo assim não funciona. E o sujeito ainda o destrata. E ele volta para casa abatido porque não conseguiu", descreve o ator.

“Então, tem essa realidade retratada no filme. Mas, a gente sabe que o Adoniran, ele mesmo, tem grandes feitos na carreira. Picos de sucesso como compositor, como Trem das Onze, por exemplo. Então, tem as duas coisas. Tem a felicidade, tem o momento do sucesso, e tem o drama, também. Assim como nas canções. O filme tem essa coisa bacana de emocionar, de trazer o drama das canções do Adoniran. De nos colocar na pele dos personagens, na pele do compositor, também”, conclui Paulo Miklos.  

Saudosa Maloca / Dir.: Pedro Serrano / Com Paulo Miklos, Gero Camilo, Gustavo Machado, Leilah Moreno, Sidney Santiago Kuanza, Paulo Tiefenthaler, Carlos Gimenez, Izak Dahora, Zemanuel Piñero / Salas e horários: cinema.atarde.com.br

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