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MEMÓRIA

Summer of Soul resgata registro do Festival Cultural do Harlem

São imagens impressionantes de festividade, do poder da música negra, além do momento social

Rafael Carvalho | Crítico de cinema

Por Rafael Carvalho | Crítico de cinema

27/01/2022 - 7:15 h

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O ano é 1969. Poucas semanas antes do mítico festival de Woodstock, um outro evento musical teve espaço no mesmo verão nova-iorquino. O Festival Cultural do Harlem, realizado nas imediações do bairro novaiorquino de maioria negra, reuniu grandes nomes da música black dos Estados Unidos naquela época, era gente do nível de Nina Simone, Stevie Wonder, B.B. King, Sly and the Family Stone e outros.

Os registros do evento foram dados como perdidos por muito tempo, mas recentemente encontrados num porão. São imagens impressionantes de festividade, do poder da música e da cultura negra, que refletem também o momento político e social que marca a efervescência do fim dos anos 1960 e a mobilização da população negra em busca de visibilidade e igualdade de direitos.

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Tudo isso está no filme Summer of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada), documentário energizante concebido por Ahmir “Questlove” Thompson, que antes já estava disponível online no Telecine Play, e chega agora aos cinemas brasileiros (aqui através do Cine Metha Glauber Rocha, reforçando a relevância de um filme como esse ser exibido numa cidade como Salvador). O filme venceu os prêmios de público e o Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance e, hoje, é um dos favoritos para ganhar o Oscar de melhor documentário.

Além de músico, membro da banda The Roots, Questlove é produtor musical, jornalista cultural e ator; agora se arvora na ocupação de diretor, sendo este seu primeiro longa-metragem. Mas mais do que apenas uma reunião de registros de arquivo, o filme conta com entrevistas de músicos que participaram do evento, além de pessoas que estiveram lá como público.

Com imagens impressionantes das apresentações e do público majoritariamente negro podendo desfrutar do evento – foram mais de 40 horas registradas dos dias de festival –, o filme consegue ainda construir uma narrativa que alia a cultura negra com a efervescência sócio-política do fim dos anos 1960 de forma muito orgânica. Isso faz de Summer of Soul um produto ao mesmo tempo vibrante e importante politicamente, quase como um resumo das manifestações do povo negro naquele momento.

Música e política

Summer of Soul possui um subtítulo bem sugestivo: (... Ou Quando a Revolução Não Pode Ser Televisionada), destacando o poder dos registros imagéticos como prova da existência das coisas – o século passado e, pior ainda, este em que vivemos é, sobretudo, do reino da imagem.

Mais ainda, o filme denuncia o apagamento que as imagens e o imaginário produzidos com e por pessoas negras sofrem no percurso histórico.

É realmente impressionante notar como um evento que reuniu cerca de 300 mil pessoas ficou por tanto tempo esquecido e pouco citado na história cultural dos Estados Unidos e do povo negro. Com isso, o filme chama atenção para a importância da mídia e da força dos registros como modo de produzir e conservar a memória, ainda que ela seja carregada nos indivíduos que participaram ativamente do evento.

Foi essa faísca que manteve a curiosidade de muitos, inclusive de Questlove, sobre a existência do festival e da força política que ele carregava. Há algo de muito potente na reunião de pessoas negras, vindas de um bairro periférico e notadamente tratado como um gueto dentro da cidade de Nova York, podendo desfrutar e se divertir com música de qualidade feita por outras pessoas negras.

O clima de diversão e descontração, no entanto, é sempre balanceado com a realidade latente que aquelas pessoas viviam. Martin Luther King havia sido assassinado no ano anterior; Malcolm X foi morto em 1965, ambos nomes fundamentais para o movimento negro. O presidente John Kennedy fora assassinado em 1963; seu irmão, o senador Bobby Kennedy, também foi morto em 1965.

Os Estados Unidos eram um caldeirão de pólvora. No âmbito local, o bairro do Harlem vivia sob o estigma da exclusão social, da violência policial e do surto de vício em heroína. Apesar disso, os moradores buscavam viver com dignidade e se reconheceram como grupo social disposto a batalhar por dias melhores, também dividindo espaço com imigrantes latinos, especialmente porto-riquenhos. A música era um denominador comum.

O homem que popularizou o blues para o público branco: B.B. King e sua guitarra Lucille
O homem que popularizou o blues para o público branco: B.B. King e sua guitarra Lucille | Foto: Courtesy of Searchlight Pictures | Divulgação

O poder do Soul

O grande espetáculo do filme, porém, são as apresentações musicais feitas num palco pequeno, com a plateia se espremendo à frente no curto espaço, mas todos extremamente efusivos – músicos e público. O jovem Stevie Wonder aparece radiante e brincalhão no palco – há uma cena pós-crédito com ele –, assim como efusivos estão os membros do The 5th Dimension, que trazem o espírito hippie com a música Aquarius que fazia sucesso no musical da Broadway Hair.

Edwin Hawkins, mestre do R&B, aparece com o famoso hit Oh Happy Day, trazendo um coral gospel para o palco – aliás, a música gospel também ganha certo destaque no festival, marca importante da música negra nos EUA.

O som pop marca presença com a contribuição de David Ruffin e seu hit My Girl (originalmente do grupo vocal The Temptations). O festival acabou apresentando um punhado variado de ritmos e sons que arregimentam a alma da música negra.

Nina Simone é um espetáculo à parte. Ali ela mantém a mesma postura rígida e compenetrada quando está tocando e cantando ao piano. Mas, ativista arraigada, não deixa de dar os seus recados e aparece muito solta cantando para aquele público. A canção To Be Young, Gifted and Black não poderia ser menos representativa do poder de aceitação e da beleza do povo negro, mensagem dirigida especialmente às crianças negras.

Apesar daquela ter sido a terceira edição do festival, a de 1969 é um marco por esse ser apontado como um ano de mudanças no pensamento do povo negro em termos de reconhecimento e autoaceitação, o que ultrapassa a questão musical. Summer of Soul radiografa todos esses e muitos detalhes que compõem a cultura negra e faz isso através da música, ou o oposto. De qualquer forma, a celebração é uma só.


Serviço

O quê: Summer of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada) / Dir.: Questlove / Com Stevie Wonder, Nina Simone, B.B. King, Mahalia Jackson, Sly Stone

Onde assistir: Em cartaz no Cine Metha Glauber Rocha

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