AGRO
Agronegócio sai do campo e redesenha centros urbanos na fronteira de Matopiba
Barreiras e LEM consolidam-se como polos de saúde e educação

O avanço do agronegócio na fronteira de Matopiba não transformou apenas o campo: redesenhou o perfil das cidades do oeste da Bahia em poucas décadas.
Em municípios como Barreiras, a população chegou a quase quadruplicar desde os anos 1980, quando a expansão da agropecuária começou a se consolidar na região.
Na vizinha Luís Eduardo Magalhães, o PIB saltou cerca de 2.000% em apenas duas décadas, acompanhando a rápida urbanização impulsionada pela atividade agrícola. O resultado é uma reconfiguração da paisagem urbana, com antigos povoados se consolidando como polos regionais fortemente ligados à economia do agro.
Luís Eduardo Magalhães é um dos exemplos mais emblemáticos desse processo. Quando o então povoado de Mimoso do Oeste se desmembrou de Barreiras, não passava de um distrito de 18 mil habitantes que, às margens da BR-242, começava a sentir os efeitos da expansão agrícola.
Quatro décadas depois, a cidade ultrapassou os 107 mil moradores, segundo estimativa do IBGE para 2022, e alcançou um PIB de R$ 11,5 bilhões no ano seguinte, quase 20 vezes maior do que o registrado duas décadas antes. Hoje, é reconhecida como a capital baiana do agronegócio e um dos principais centros de serviços e tecnologia agrícola da região.
Supervisora de Disseminação de Informações do IBGE na Bahia, Mariana Viveiros destaca que LEM é a cidade que mais cresce em população no estado. Essa atratividade, segundo ela, está diretamente associada às oportunidades de trabalho e renda geradas por atividades econômicas em expansão.
“No caso dos municípios do Matopiba, o crescimento populacional tem claramente relação com a pujança do setor agropecuário e de serviços e indústria associados, o chamado agronegócio”, crava Viveiros.
“E certamente as cidades, ao crescerem populacionalmente, têm sua malha urbana expandida e se urbanizam mais, com o tempo. A economia também tende a se diversificar, levando a um crescimento de importância do setor de serviços e potencialmente de outras atividades”, complementa.
O economista Odacil Ranzi é testemunha dessa transformação desde o início. Ele trocou a contabilidade no Rio Grande do Sul pela produção agrícola no Oeste baiano em 1980. Sua memória recorda que a chamada capital do agro ainda era um cenário de sobrevivência.
“Não era uma região pronta. Eu mesmo cheguei a morar em uma barraca de lona. Estrada ruim, dificuldade de acesso à água, não tinha energia elétrica em muitas áreas. Mas havia um potencial muito grande”, relembra.

As memórias de Odacil mostram que esse potencial no campo acabou se confirmando ao longo dos anos. “Começamos com áreas menores, com arroz, depois fomos ampliando, introduzindo soja e milho”, lembra.
“No início, o custo da soja era em torno de 10 sacas por hectare e a produtividade girava em 23 sacas. Hoje, é outra realidade, com tecnologia, pesquisa e produtividade muito mais altas. A agricultura aqui evoluiu em todos os sentidos”, conta.
Os números ajudam a dimensionar o salto testemunhado pelo produtor. De acordo com o IBGE, o valor da produção agrícola de Luís Eduardo Magalhães saiu de R$ 305 milhões, em 2005, para R$ 2,4 bilhões em 2024.
Mas esse avanço no campo, segundo o próprio Odacil, não ficou restrito às lavouras. Ao longo dos anos, a transformação passou a ser sentida dentro da cidade e na vida de quem escolheu permanecer.
“O agro puxa esse desenvolvimento, mas ele não fica só dentro da porteira. Ele movimenta o comércio, os serviços, gera renda e cria oportunidades”, afirma.
No caso dele, os efeitos foram diretos: “na minha família, foi o que permitiu construir uma trajetória sólida, diversificar atividades e seguir investindo, inclusive em novas áreas, como a fruticultura e mais recentemente o ramo imobiliário”, diz.
“É fato que somos o que somos pela força do agro e por tudo que ele atrai para a cidade e para a região.” Odacil até concorda, mas a avaliação é do secretário municipal de Desenvolvimento Econômico de Luís Eduardo Magalhães, Nei Villares.
De acordo com ele, no centro urbano, esse ritmo acelerado do agronegócio se traduz principalmente nas obras e no aquecimento do comércio. Enquanto o comércio ganha força com a venda de máquinas agrícolas, veículos e a chegada de redes de supermercado atacadista, “a construção civil cresce absurdamente, principalmente por conta do aumento populacional e dos negócios que são gerados na cidade”.

Atualmente, LEM tem 25 mil empresas ativas. Só no ano passado, 7,5 mil delas foram abertas.
O ritmo de crescimento abriu espaço também para a chegada de novos empreendimentos de grande porte. Nei Villares cita a instalação da INPASA na cidade.
“É um investimento de cerca de R$ 2 bilhões, 3 mil empregos diretos e indiretos durante a montagem; vai processar cerca de 1 milhão de toneladas de grãos por ano na produção de Etanol, óleo vegetal, energia, entre outros”, detalha o secretário.
A empresa também chegou em Balsas, outra integrante da região de Matopiba, no sul do Maranhão. Destaque na produção de soja, milho e algodão, a cidade acabou se tornando referência pela eficiência logística e de mecanização do agro. E viu tudo isso se reverter em desenvolvimento urbano.
A Secretaria municipal de Desenvolvimento Econômico, Agronegócio, Turismo e Inovação, Paulo Hernando Barbosa de Sousa é direto: esse avanço no campo alterou de forma visível a escala urbana do município e impôs uma nova dinâmica de crescimento à cidade.
De acordo com ele, além de novas empresas e investimentos, os moradores vêm ganhando também novas áreas residenciais e sentindo os efeitos da valorização imobiliária. Mas não é só isso. O gestor destaca que, em um ciclo virtuoso, esse movimento infla as demandas por infraestrutura, mobilidade e serviços e equipamentos públicos.
Luís Eduardo Magalhães e Balsas podem até ser exemplos emblemáticos do desenvolvimento rompendo as fronteiras do campo, mas estão longe de serem os únicos na região de Matopiba.
Segundo o primeiro vice-presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Luiz Carlos Bergamaschi, o avanço do agronegócio tem gerado efeitos semelhantes em diferentes municípios do oeste baiano.

É o caso de municípios como São Desidério, que acumula postos seguidos de segundo maior produtor agrícola do Brasil; Formosa do Rio Preto, no topo do ranking nacional de produção de soja; e Barreiras, uma das principais exportadoras do Nordeste.
Bergamaschi sintetiza essa dinâmica que acontece em Luís Eduardo Magalhães, Balsas e outros municípios do Matopiba: o agro movimenta cadeias produtivas, gerando emprego e fortalecendo o comércio e os serviços locais. Esse encadeamento, segundo ele, tem impacto direto na organização econômica das cidades.
“O agronegócio passou a demandar, de forma crescente, uma ampla e diversificada gama de serviços nos centros urbanos, acompanhando a evolução tecnológica e o aumento da complexidade das atividades produtivas. Entre os principais, destacam-se serviços de educação e capacitação técnica, pesquisa e inovação, assistência especializada, além de suporte nas áreas de tecnologia, logística, manutenção de máquinas e equipamentos, e fornecimento de insumos”, detalha.
Aos 33 anos, o piloto de drone Ramon Souza, por exemplo, trabalha prestando serviço de geoprocessamento de imagem de satélites e geotecnologia para a agricultura.
Assim como na história de Odacil, a família dele veio de fora buscar oportunidades na agropecuária da região ainda nos anos 1980. Se instalaram em Barreiras, onde Ramon se formou em Bacharelado em Geografia.
Desde então, o geógrafo vê um crescimento nas instalações de agências bancárias, de universidades, de serviços de saúde e na infraestrutura viária. Para ele, tudo isso tem relação com o movimento de fortalecimento do agro.
“E tem também uma extrema relevância para a minha vida, porque foi através dessa implantação do sistema agrícola na região que eu pude me especializar, entrando na universidade. E pude também ingressar no mercado de trabalho, em virtude do crescimento dessa demanda por profissionais especializados em tecnologias utilizadas para dar precisão à agricultura”, revela Ramon.

A trajetória de Ramon não é isolada. Ela se conecta ao papel que Barreiras passou a desempenhar na região. O secretário municipal de Agricultura e Tecnologia de Barreiras, Joaquim Pedro Soares, destaca Barreiras justamente um centro de saúde para a região, com uma rede pública e privada desenvolvida, e um polo universitário, que soma três instituições públicas de ensino superior e ainda redes particulares.
“Sem sombra de dúvidas, o papel de Barreiras no desenvolvimento é estratégico, tanto do ponto de vista da produção agropecuária, como de um centro regional de comércio e serviços. É aqui que todo o oeste concentra-se para fazer compras, estudar e cuidar da saúde. Sem exagerar, é o maior polo comercial e de serviços de toda região do Matopiba”, afirma.
“E o setor de serviço foi o que mais cresceu nos últimos anos, porque o agro moderno requer um setor de serviço também moderno e atualizado, assim os setores de transporte e logística, consultoria agrícola, crédito rural e bancos e tecnologia foram também fortemente aquecidos diretamente pelo agronegócio”, complementa.
Mas se engana quem pensa que esse desenvolvimento ainda se traduz em uma dependência absoluta do campo. Empresário e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Barreiras, Ricardo Scartazzini destaca que, embora o agronegócio siga como principal motor da economia, o comércio local já apresenta sinais de maior autonomia. Segundo ele, a atividade, que antes era mais sensível às oscilações das safras, hoje se mostra mais dinâmica e diversificada.

“As cidades, de modo geral, que são dependentes única e exclusivamente do agro, elas têm essa preocupação grande em períodos onde a agricultura pode não ir muito bem. Mas, se a gente pega, por exemplo, a cidade de Barreiras, a gente tem um comércio que é extremamente dinâmico. Ele não é dependente exclusivamente da agricultura, mas ele é extremamente fortalecido com o desenvolvimento da agricultura", explica.
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