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Da terra inóspita ao império dos grãos: os pioneiros que transformaram o Cerrado baiano

Veja a história de famílias tradicionais no agronegócio baiano

Miriam Hermes
Por Miriam Hermes
Família de Odacil e Ediana Ranzi, pioneiros do cerrado baiano
Família de Odacil e Ediana Ranzi, pioneiros do cerrado baiano - Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

Até a década de 1970 a região Oeste da Bahia conhecia apenas atividades agrícolas desenvolvidas nas regiões dos vales, pois a ocupação regional começou a partir dos rios. Dizia-se que as terras arenosas do Cerrado, nas partes planas no alto dos chapadões, serviam apenas para soltar o gado ou extração de frutas nativas e madeiras.O chão do ‘Gerais’ era considerado inóspito. Naturalmente é fraco em nutrientes requeridos para a produção agrícola das commodities e por isso tinha baixa ocupação populacional e desempenho econômico ínfimo.

Mas, a partir desta década as coisas começaram a mudar por uma junção de fatores como o asfaltamento das BRs 242 e 020 que cortam a região produtora. Com impacto direto na agricultura o

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Já o desenvolvimento de pesquisas capitaneadas pela Embrapa impacto direto na agricultura, pois chegaram a fórmulas eficazes de minerais e fertilizantes para fazer a correção do solo ácido e permitir sua utilização para as lavouras em larga escala.

No entanto, foram poucos os produtores de famílias sulistas que chegaram antes da década de 1980. Desde então o cerrado nativo foi dando lugar às cada vez mais extensas áreas cultivadas com soja, algodão e milho, dentre outras culturas.

Com a força de trabalho e muito suor foram abrindo estradas, construindo pontes e investindo em capacitação humana e tecnologia.

Como parte desta história a família Zuttion adquiriu as primeiras terras em 1980, no hoje distrito Roda Velha, em São Desidério, nas áreas valorizadas na margem da BR 020, estrada que liga Brasília ao Nordeste brasileiro. Mas, no início só vieram os homens adultos, entre eles Nabor e Célio, ambos já falecidos.

Eles começaram abrir o Cerrado em 1982 para dar início nas lavouras, ampliadas e cultivadas até hoje. Em 1984 chegou a família de Nabor. A esposa Zulma Manfroi Zuttion ficou morando em Barreiras com os filhos Bruno, Marizete e Luciana, como era comum, considerando a distância entre as fazendas e as cidades.

Onde existia apenas o Cerrado cortado pela linha da rodovia, atualmente tem um povoado pujante com sub-prefeitura, agroindústrias, comércio e serviços variados, que atendem a população local, bem como as fazendas do entorno. Para se tornar um distrito a comunidade contou com a liderança e apoio da família em todas as etapas.

Desde os primeiros anos na Bahia os irmãos Zuttion fizeram parte da diretoria da, hoje extinta, Cooperativa dos Produtores de Grãos dos Gerais (Copergel), fundada em 1981. Participaram também de outras agremiações criadas para congregar produtores que naquele tempo começavam a chegar vindos principalmente dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

“Naquela época não tinham máquinas e outros insumos para vender na região. Eles tinham que buscar tudo fora”, pontuou a engenheira agrônoma Marizete Zuttion, que chegou na Bahia ainda muito jovem. Ela lembrou que na época as peças mais próximas para eles ficavam em Rio Verde (GO) e o calcário vinha de São Domingos (GO) e Unai (MG).

“Era extremamente difícil, porque se quebrasse uma máquina eles precisavam fazer viagens longas para reposição das peças”, afirmou. Com o tempo Barreiras começou a receber empreendimentos que vieram a suprir estas necessidades primárias das fazendas.

Outras opções de mineradoras calcárias foram surgindo mais próximas das propriedades rurais, chegaram revendedoras de maquinários e insumos instaladas a princípio na cidade polo, Barreiras.

Já nos primeiros anos da década de 1980 começava a surgir a localidade Mimoso do Oeste, hoje município de Luís Eduardo Magalhães, desmembrado de Barreiras em 2000.

Uma das problemáticas daqueles primeiros tempos eram os implementos que não estavam adaptados para os solos do Cerrado, assim como não existiam variedades de soja desenvolvidas para as características edafoclimáticas regionais.

“Tinham todas estas dificuldades técnicas. Foi muito difícil nos primeiros anos”, desabafou Marizete, recordando que naqueles primeiros anos os produtores também não conseguiam financiamentos dos bancos oficiais para o cultivo destas terras.

“Só ficaram os perseverantes, porque foi muito sofrimento. Meus pais perderam muito sono”, lembrou a engenheira agrônoma, salientando que trabalharam e pensaram muito para resolver os problemas. Com dedicação conseguiram superar aqueles desafios. “Foi incrível o que aconteceu”, relatou, destacando o resultado do trabalho desenvolvido na região produtora como reflexo da dedicação dos agricultores, “para chegar no grau de estabilidade que tem hoje a região oeste”.

Assim como os demais produtores que chegaram naquele tempo, a família Zuttion começou plantando arroz, depois soja, milho e algodão. Em 2023 o patriarca Nabor faleceu, mas a família permaneceu com a produção rural, pois o filho Bruno continua plantando, enquanto Marizete e Luciana arrendaram suas terras.

Família de Nabor (em memória) e Zulma Zuttion, pioneiros da produção no Cerrado da Bahia
Família de Nabor (em memória) e Zulma Zuttion, pioneiros da produção no Cerrado da Bahia - Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

Na terceira geração, dois netos de Nador e Zulma também seguiram Engenharia Agronômica e uma neta cursou Medicina, mas deixou a carreira para tocar o escritório da fazenda.

“Nossas terras são nosso maior tesouro, deixado como legado por nosso pai, que não temos interesse em desfazer”, revelou Marizete que tem boa parte da vida dedicada às causas sociais desenvolvidas pelo Rotary Club Rio de Ondas, de Barreiras. Atualmente ela é presidente do Instituto do Câncer do Oeste da Bahia (Icob), que desenvolve campanhas com a comunidade regional para a construção do Hospital do Câncer do Oeste baiano.

Fé no Oeste

Hoje Cidadão Baiano com título recebido há pouco mais de um ano da Assembleia Legislativa do estado, o produtor rural Odacil Ranzi deixou Passo Fundo (RS) com destino às planas terras do Cerrado baiano em julho 1980.

“Compramos a primeira fazenda onde é hoje a comunidade de Placas no município de Barreiras, a 160 km da sede municipal”, afirmou, destacando que chegou com 26 anos “e com um sonho que era ser um empresário do agro. A Bahia me proporcionou tudo ou mais do que eu imaginei no início”, sentenciou.

No começo, relembrou Ranzi, foi um trabalho muito difícil, morando em barraco de lona. “Tinha que ir buscar água a 25 km de distância, energia elétrica e asfalto eram sonhos distantes”, relembrou, pontuando que “carona era uma raridade, mas a fé e a coragem, com o apoio da família e as bênçãos de Deus, nos impulsionaram para a sonhada conquista de um espaço no Oeste baiano”.

Casado com Ediana, tem nela uma companheira da vida, com quem teve as filhas Ana Carolina, Vanessa e Lívia. Hoje o casal tem cinco netos e, orgulhoso da família constituída, o produtor disse que o grupo já tem a sucessão bem estruturada, cujo processo foi iniciado em 2012 com a criação de uma holding familiar. “Hoje temos seis sucessores trabalhando dentro do nosso negócio, perpetuando nossos investimentos”, asseverou.

Família de Odacil e Ediana Ranzi, pioneiros do cerrado baiano
Família de Odacil e Ediana Ranzi, pioneiros do cerrado baiano - Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

Atualmente Ranzi trabalha apenas com a produção de grãos, como soja, milho, sorgo, milheto e feijão gorutuba. No entanto, por mais de 20 anos dividiu os afazeres da propriedade rural com a administração de uma empresa de distribuição de bebidas para toda a região oeste, período que participou também de agremiações voltadas às atividades comerciais.

Ex-presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) por dois mandatos, ele presidiu a Bahia Farm Show de 2022 a 2024. Hoje participa dos Conselhos Consultivos da Aiba e da Cooperfarms e também é vice-presidente da CCAB Participações com sede em Cuiabá-MT.

“O grande desafio hoje é a energia elétrica que ainda é insuficiente apesar de todos os investimentos da concessionária. Melhoramos muito a logística regional com asfalto e pontes com investimentos do produtor rural, a Patrulha Mecanizada da Abapa e o fundo Prodeagro administrado pela Aiba”, enfatizou.

Para ele, o oeste baiano é uma surpresa positiva todos os dias. “Hoje temos grandes investimentos na agroindustrialização da nossa produção”, disse, salientando que a virada da chave vai acontecer “quando tivermos a primeira tecelagem, aproveitando o algodão de alta qualidade produzido nas fazendas da região”

Por enquanto a primeira etapa da agroindustrialização do algodão já acontece com as beneficiadoras que separam as fibras das sementes. A partir da futura fiação e tecelagem, “será desencadeada a produção de roupas, gerando emprego e renda na cidade,” projetou, enfatizando que o Oeste baiano oferece muitas oportunidades para as empresas se estabelecerem, “por aqui, é ter criatividade e investimentos, que o sucesso é garantido”, disse animado.

Cidade mãe

Como resultado do movimento que a cada ano crescia nas terras dos Cerrados, a cidade de Barreiras passou de uma população de pouco mais de 30 mil habitantes, segundo o Censo Demográfico do IBGE em 1980, para mais de 150 mil em 2020. Atualmente a estimativa é de população superior a 170 mil.

“Lembro que grande parte dos produtores vieram pra cá depois de terem as suas terras desapropriadas pela usina de Itaipu (inaugurada em 1984). De lá para cá muita coisa mudou para melhor, mas precisa melhorar mais”, afirmou a pedagoga e escritora Ignez Pitta de Almeida, 83 anos.

Escritora e historiadora Ignez Pitta de Almeida
Escritora e historiadora Ignez Pitta de Almeida - Foto: Arquivo Pessoal/divulgação

Ela foi vereadora de oposição entre 1983 e 1988, é membro fundadora da Academia Barreirense de Letras (ABL) e como cronista em jornais impressos da cidade, escreveu diversos artigos como testemunha da história de ocupação do cerrado.

Filha de imigrantes, pois seus pais vieram de Casa Nova no norte da Bahia, desde a infância tem sua trajetória marcada pela atividade rural implantada naqueles tempos nas terras dos vales da região. O pai foi administrador de fazendas e fazendeiro. O marido Luiz Carlos é pecuarista e um dos filhos é engenheiro agrônomo, professor de Mecanização Agrícola, Pecuária e Agricultura.

Ao longo da vida ela dedicou-se a pesquisas sobre a história de Barreiras e região, com bibliografia voltada para esta área e participação decisiva na criação do Museu Municipal Napoleão Macedo. Ela pontuou que as mudanças mais profundas percebidas com as atividades agropecuárias, estão principalmente nas áreas de Saúde, Educação e Infraestrutura.

“Para a saúde já evoluímos muito, mas precisamos de mais atendimentos oncológicos e mais hospitais nas micro regiões”, resumiu. Na educação comentou sobre a necessidade de mais formação na área agropecuária, justamente para preparar os trabalhadores que são demandados para laborar nas propriedades rurais.

“Quando começaram a cultivar nas terras do Cerrado não tinha infraestrutura de transporte para aquelas fazendas”, disse, destacando que com empenho dos proprietários rurais as melhorias foram implementadas e foram facilitando a chegada dos insumos e maquinário bem como o escoamento da produção.

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