A TARDE AGRO
Luís Eduardo Magalhães, sede da Bahia Farm Show, cresce com o agronegócio
Município está entre os mais jovens e de maior expansão na Bahia
Luís Eduardo Magalhães é fruto direto da expansão do agronegócio baiano e uma das cidades mais jovens e de crescimento mais acelerado do estado. Até os anos 1970, a área era pouco ocupada e conhecida apenas como parte do interior de Barreiras.
A transformação ganhou fôlego nos anos 1980, quando produtores rurais vindos principalmente do Sul do Brasil migraram para o Oeste atraídos pelas terras planas, baratas e favoráveis ao cultivo mecanizado de soja, milho e algodão.
O núcleo urbano surgiu às margens da BR-242, inicialmente como um pequeno povoado chamado Mimoso do Oeste, que em 1997 se tornou distrito de Barreiras.
Três anos depois, em 2000, conquistou a emancipação política e recebeu o nome de Luís Eduardo Magalhães, em homenagem ao deputado federal e filho do ex-governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães.
Com o crescimento, a cidade se consolidou como símbolo da força econômica do MATOPIBA e referência nacional em produção de grãos, tecnologia agrícola e agroindústria, além de sediar a Bahia Farm Show, uma das maiores feiras do agronegócio do Brasil.
Crescimento acelerado em números
Segundo estimativa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para 2025, Luís Eduardo Magalhães conta com 118.382 habitantes. O PIB (Produto Interno Bruto) alcançou R$ 8,8 bilhões em 2023, posicionando o município na 5ª colocação entre os 417 municípios baianos.
Já o PIB per capita saltou de R$ 31,5 mil em 2010 para 107,1 em 2023, aumento de quase 240%. Dados do IBGE apontam que o IDHM (índice de Desenvolvimento Humano Municipal) evoluiu de 0,547 em 2000 (nível baixo) para 0,716 (alto) em 2010 – dados mais atuais.
Registros de 2025 do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que o emprego em Luís Eduardo Magalhães é puxado principalmente pelo setor de serviços, sustentado pela força do agronegócio, da construção civil e da indústria.
Ano passado, o município registrou 32.154 admissões e 29.632 desligamentos, resultando em saldo positivo de 2.522 empregos formais. O setor de serviços liderou a geração de empregos, com saldo de 1.527 vagas, seguido pela indústria, com 538, e pela construção civil, com 330 novos postos formais.
A agropecuária também apresentou saldo positivo, com 204 vagas criadas, demonstrando que, embora o campo seja o motor histórico da economia local, o crescimento se espalha para outras áreas da atividade econômica.
O comércio foi o único segmento com saldo negativo no período, com fechamento de 77 vagas. Outro dado que chama atenção é o estoque de empregos formais, que alcançou 36.779 vínculos ativos, além do tempo médio de permanência no emprego, de 11,8 meses.
Na avaliação do secretário de Desenvolvimento Econômico de Luís Eduardo Magalhães, Nei Vilares, a cidade é um dos maiores exemplos do Brasil de como o agronegócio pode impulsionar o desenvolvimento urbano.
“Luís Eduardo Magalhães é, na prática, um dos maiores exemplos do Brasil de como o agronegócio pode impulsionar o desenvolvimento de uma cidade. O crescimento do município e a força do agro no Oeste baiano são processos totalmente interligados. Foi o agro que atraiu investimentos, gerou empregos e trouxe milhares de pessoas para a região", afirma.
Desafios de uma cidade que cresceu rápido demais
Acompanhar esse ritmo de crescimento, no entanto, tem sido o principal desafio do poder público. Vilares lista as áreas que mais demandaram atenção.
"O principal desafio foi acompanhar a velocidade do crescimento. Luís Eduardo Magalhães se desenvolveu em um ritmo muito acima da média, e isso exige do poder público planejamento constante e capacidade de resposta rápida", afirma Nei Vilares.
Entre as frentes de atuação, ele destaca a expansão da infraestrutura urbana, como mobilidade, saneamento e habitação, além da ampliação de serviços essenciais.
Na saúde, a gestão municipal investiu na construção do Hospital Mirian Borges, na ampliação da UPA e na implantação de cinco Unidades Básicas de Saúde com funcionamento até às 22h.
Na educação, foram construídas novas escolas, incluindo unidades bilíngues de tempo integral. Na segurança, a cidade se transformou em uma das mais seguras da Bahia, com guarda municipal preparada e armada, novas viaturas e concursos públicos.
O dilema da mão de obra e os 32 mil beneficiários do Bolsa Família
Um dos gargalos mais sensíveis do desenvolvimento local, na visão do secretário municipal de Agricultura, Jaime Capellesco, é a formação de mão de obra.
Embora a prefeitura tenha trazido para a cidade entidades do Sistema S, como Senar e Sesi), além de Sebrae e Sesc, para oferecer cursos e qualificação profissional, ele aponta um problema estrutural que dificulta o preenchimento das vagas disponíveis.
"Hoje um dos grandes problemas é que o nosso país não está voltado à mão de obra. Ele está voltado, por exemplo, aos incentivos que são dados a muitas pessoas através de Bolsa Família, vale-gás e outras ajudas. Eu não sou contra isso. Só que eu acho que deveria ser feito de forma diferente, porque hoje acontece de famílias que recebem esses benefícios se acomodarem", afirma.
Segundo ele, a lógica do benefício acaba gerando um efeito colateral perverso. "A pessoa pensa: 'eu não posso trabalhar porque eles exigem registro, e esse registro faz com que eu perca o benefício'. Então, a pessoa prefere ficar fazendo um bico aqui, outro ali, ganhando uma diária sem registro nenhum. Isso está travando a mão de obra do nosso país. Isso está errado."
Os números do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome para maio de 2026 mostram que Luís Eduardo Magalhães registrou 12.241 famílias atendidas pelo Programa Bolsa Família, totalizando 32.170 pessoas beneficiadas, sendo o investimento de R$ 8.385.229,00 e o benefício médio de R$ 685,96.
"É um absurdo numa cidade rica como a nossa ter tudo isso de Bolsa Família. É esse o caminho? Na minha concepção, não. Eu acho que a ajuda é válida, mas a forma precisa ser reestudada", afirma o secretário de Agricultura.
Mercado imobiliário se expande e cidade terá shopping
O avanço do agronegócio em Luís Eduardo Magalhães também provocou uma transformação no mercado imobiliário e na estrutura urbana da cidade. A expansão da rede hoteleira é um dos reflexos mais visíveis desse processo.
Segundo o presidente do Sintraoeste (Sindicato Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade da região Oeste da Bahia), Paulo Henrique Brito e Silva, a Bahia Farm Show se tornou um dos principais motores do setor de hospedagem no Oeste baiano.
Atualmente, a cidade possui cerca de 40 hotéis, mais que o dobro do registrado há dez anos, quando havia aproximadamente 18 estabelecimentos. “O impacto econômico que a rede hoteleira sofre com a Bahia Farm Show deve girar em torno de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões somente no ramo hoteleiro”, afirma.
De acordo com Silva, a ocupação dos hotéis durante o evento se aproxima da capacidade máxima, exigindo contratação de trabalhadores temporários e ampliação da estrutura de atendimento.
O crescimento do turismo de negócios ligado ao agronegócio também provoca efeitos em cidades vizinhas. “Além de Luís Eduardo estar com os hotéis cheios, Barreiras, que fica a cerca de 100 quilômetros, também atinge lotação máxima em muitos períodos da feira”, diz.
A necessidade de atender empresários, investidores, representantes políticos e visitantes internacionais fez com que a rede hoteleira local passasse por um processo de profissionalização e modernização.
“Os hotéis precisaram melhorar suas estruturas, ampliar leitos e qualificar os colaboradores para atender públicos de diferentes segmentos”, afirma o dirigente sindical.
O fortalecimento da economia também acelerou a valorização imobiliária. Dados da Solare Construtora mostram que, em alguns bairros, o valor médio do metro quadrado saiu de R$ 4.227 há cerca de 5 anos para aproximadamente R$ 9.090 atualmente, mais do que dobrando no período.
Segundo a empresa, o perfil dos novos moradores acompanha a própria dinâmica econômica do município. A cidade atrai desde famílias ligadas ao agronegócio até trabalhadores da construção civil, logística, comércio e prestação de serviços.
De acordo com a Prefeitura de Luís Eduardo Magalhães, também cresce o número de investidores de fora da região interessados no mercado imobiliário local, especialmente em imóveis voltados para locação.
A procura por hospedagem temporária e aluguel de curta duração aumentou principalmente durante eventos como a Bahia Farm Show, mas a gestão municipal afirma que a demanda se mantém aquecida durante todo o ano devido ao dinamismo permanente do agronegócio.
Esse cenário tem impulsionado a expansão horizontal da cidade, com a criação de bairros planejados, condomínios fechados e empreendimentos de médio e alto padrão, enquanto edifícios residenciais começam a ganhar espaço em regiões mais centrais.
Shopping
Entre os empreendimentos anunciados está o Shopping Parque Oeste, considerado um dos maiores investimentos privados recentes do município.
Com investimento estimado em R$ 120 milhões, o shopping deve ser inaugurado em setembro de 2026, com 140 lojas, cinema e praça de alimentação. A expectativa é de geração de cerca de 1,2 mil empregos diretos e indiretos e movimentação anual próxima de R$ 200 milhões.
Para Ulisses Silva, diretor da NIAD Shopping Centers, responsável pelo projeto, Luís Eduardo Magalhães já se consolidou como polo regional de comércio e serviços. “A cidade lidera as exportações do agronegócio no estado da Bahia, ocupa a quinta posição no PIB estadual e possui uma área de influência regional superior a 500 mil pessoas”, afirma.
Segundo ele, o empreendimento surge para atender uma demanda criada pelo próprio crescimento econômico e urbano da cidade. “O Shopping Parque Oeste nasce para funcionar como um hub regional de consumo, lazer, serviços e convivência”, diz.
Além do shopping, o município também recebeu lançamentos residenciais de alto padrão, como o Biosphere Horizon, empreendimento vertical com investimento estimado em R$ 65 milhões. O movimento reforça uma tendência de interiorização dos investimentos imobiliários no estado, impulsionada pela força econômica do Oeste baiano.