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Quem são as mulheres que comandam o agro do Oeste baiano

Hoje a presença feminina é mais constante nas propriedades rurais

Miriam Hermes
Por Miriam Hermes
Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Barreiras, Rosi Cerato
Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Barreiras, Rosi Cerato - Foto: Arquivo Pessoal

No início da década de 1980, enquanto cursava Letras no então departamento da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), em Barreiras, a paranaense Jusmari de Souza Oliveira também dirigia os tratores da família, quando as primeiras fazendas começavam a ocupar as terras do Cerrado da Bahia.

Naquele tempo as mulheres ainda eram franca minoria nas lavouras e, embora ela tenha seguido pela vida política onde ingressou em 1988, continua produtora rural e praticamente toda família permanece ligada à atividade agropecuária.

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Pioneira entre as mulheres que labutam diretamente nas propriedades dos Gerais, a destemida jovem, filha de Lídia e Constantino, já foi vereadora e prefeita de Barreiras, deputada estadual (cargo ocupa atualmente) e federal, além de secretária estadual de Desenvolvimento Urbano.

Se hoje a presença feminina é mais constante nas propriedades rurais e todos outros negócios relacionados ao agronegócio, também nos postos de liderança nas organizações da classe produtora elas estão despontando, embora aí também ainda sejam minoria.

CADERNO ESPECIAL - ADEMI-BA 50 ANOS Comemorações dos 50 anos da ADEMI-BA Na foto: Jusmari Terezinha de Souza Oliveira, Secretária de Desenvolvimento Urbano da Bahia Foto: Olga Leiria / Ag. A TARDE Data: 14/08/2025
CADERNO ESPECIAL - ADEMI-BA 50 ANOS Comemorações dos 50 anos da ADEMI-BA Na foto: Jusmari Terezinha de Souza Oliveira, Secretária de Desenvolvimento Urbano da Bahia Foto: Olga Leiria / Ag. A TARDE Data: 14/08/2025 - Foto: Olga Leiria / Ag. A TARDE

Conforme o último Censo Agropecuário/IBGE, de 2017, no período 947 mil mulheres estavam responsáveis pela gestão de propriedades rurais, de um universo de 5,07 milhões, a maioria na região Nordeste (57%). A pesquisa apontou que juntas, elas administravam cerca de 30 milhões de hectares, o que correspondia apenas a 8,5% da área total ocupada pelos estabelecimentos rurais no país.

CARMINHA

Neste ambiente majoritariamente masculino, a agricultora e bacharel em Direito, Carminha Gatto Missio, foi a primeira mulher a assumir o cargo de presidente de organização do agro na região, em maio de 2015, no Sindicato dos Produtores Rurais de LEM. Já em 2018 foi empossada também vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (FAEB), cargo que ocupa atualmente.

Com seu nome na lista das 100 Mulheres Influentes do Agro da Forbes Brasil, a riograndense do sul preside o Instituto Agropecuário (Iagro), é conselheira Administrativa da Sementes Oilema, presidente da Comissão Estadual Faeb Mulher e integrante da Comissão Nacional das Mulheres do Agro da CNA.

Ao ser a primeira mulher a ocupar a vice-presidência de uma Federação no Brasil ela disse que espera “ter aberto portas para que outras sigam o mesmo caminho”, disse, pontuando que o protagonismo feminino acompanha a evolução do agro brasileiro. Ela pontuou que o setor do agronegócio “se modernizou, incorporou tecnologia, gestão e inovação, e hoje entende que competência não tem gênero. O que importa é preparo, dedicação e compromisso”.

Para Carminha, ainda existem desafios, notadamente relacionados à ocupação de espaços de liderança, “mas os avanços são muito claros. E quanto mais mulheres participam ativamente do setor, mais o agro ganha em diversidade, sensibilidade, eficiência e desenvolvimento humano”, sentenciou.

Engajada com as causas do agro, ela tem três filhos e duas netas e, embora eles tenham seguido por outros caminhos profissionais, participam dos negócios da família e estão sendo preparados para tomar decisões no processo de sucessão familiar implantado no empreendimento.

Carminha Gatto Missio
Carminha Gatto Missio - Foto: Divulgação/ FAEB

Quando começou sua atuação institucional, recordou, “ainda éramos poucas mulheres ocupando cargos de liderança. Existia mais resistência e precisávamos provar constantemente nossa capacidade”. Entretanto, afirmou que “felizmente, esse cenário vem mudando. As mulheres estão cada vez mais preparadas, qualificadas e participativas, contribuindo de maneira muito profissional para o desenvolvimento do setor”.

Ela enfatizou que a presença feminina tem grande relevância para o desenvolvimento do Oeste e fortalecimento do setor. “As mulheres trazem um olhar diferenciado para a gestão, as relações humanas, responsabilidade social, sucessão familiar e sustentabilidade”, afirmou, acrescentando que essa presença “reflete em propriedades mais organizadas, empresas mais estruturadas e instituições mais conectadas com as necessidades da sociedade”.

GREICE

Presidente atual do Sindicato dos Produtores Rurais de LEM, a produtora rural, corretora de imóveis, administradora e advogada Greice Fontana Klein está no segundo mandato consecutivo. Seus pais chegaram no Oeste da Bahia em 1980, vindos do Rio Grande do Sul e adquiriram terras na localidade de Bela Vista, zona rural de LEM. Ela chegou recém casada alguns anos depois e na Bahia formou sua família.

Uma das fundadoras do grupo Agroparceiras/LEM, atua como coordenadora Regional do Oeste da Bahia no FAEB Mulher, é diretora do Conselho Comunitário de Segurança/LEM, membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Grande, dentre outras atividades institucionais. “A participação comunitária sempre esteve presente em minha trajetória familiar e tornou-se um valor essencial em minha formação pessoal e profissional que procuro passar às minhas filhas (Rafaella e Gabriella)”, justificou.

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Para ela, “o papel da mulher no campo deixou de ser figurativo ou de suporte silencioso” e hoje se consolida nas áreas da gestão, da operação e das tomadas de decisão dentro das propriedades. Como líder sindical a produtora defendeu que o ideal para o agronegócio é uma “parceria legítima e igualitária entre homens e mulheres”, acrescentando que a visão feminina agrega valor ao tradicional trabalho masculino, por se caracterizar “pela sensibilidade estratégica, pelo foco na inovação, na sustentabilidade e na condução da sucessão familiar”.

Com a visão projetada para o futuro, Greice enfatizou que a qualificação das mulheres é fator determinante para alcançar “posição estratégica de decisão e por isso deve ser incentivada pela sociedade e protegida por políticas públicas”, disse, ressaltando que as mudanças não ocorrem por acaso, mas refletem a busca por capacitação técnica que potencializa a competência das produtoras, transformando “a presença feminina em sinônimo de eficiência, detalhismo e profissionalismo no meio rural”.

No entanto, ela lamentou que a representatividade feminina em cargos de liderança ainda é tímida e, para impulsionar o espírito de liderança entre as mulheres, o sindicato criou o grupo Agroparceiras. Através dele, estimulam a capacitação, fomentam a conexão entre mulheres e ampliam o espaço de decisão delas “no cenário político-setorial que é o grande desafio atual”, asseverou.

Preocupada com a formação não apenas das mulheres, também as gerações mais jovens, de produtores, colaboradores e da comunidade local, como presidente do sindicato tem direcionado esforços para a capacitação dos diferentes públicos através do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).

Dentro de casa ela e o marido Roni tem na sucessão do empreendimento rural o propósito de transmitir valores, conhecimento e responsabilidade, “permitindo que elas (as filhas) compreendam a relevância do agro e assim possam fazer suas escolhas para o futuro de forma consciente”. Satisfeita revelou que a filha mais velha está concluindo Agronomia e a mais nova tem forte ligação com a lida na fazenda. “Afinal, o amor, a felicidade, o saber e o respeito estão interligados. São sementes silenciosas que geram colheita bendita”, ressaltou.

ROSI

Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Barreiras, Rosicleia (Rosi) do Rocio Flizicoski Cerrato é bacharel em Direito com especialização em Direito Ambiental. Durante oito anos foi assessora da presidência da Aiba, período em que respondeu pela coordenação da feira tecnológica Bahia Farm Show, cargo nunca ocupado antes por uma mulher.

Neta de agropecuarista do estado do Paraná e casada com o engenheiro agrônomo Celmo Cerrato, produtor rural há mais de 20 anos com propriedades no Cerrado baiano, ela chegou na região Oeste recém casada em 1994. “Trouxemos na bagagem muita força, coragem e amor pela terra. Aqui iniciamos nossa trajetória e a construção de nossa família”, disse acrescentando que hoje eles têm no negócio familiar os dois filhos trabalhando juntos com o pai.

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João Victor, que mora na fazenda com a mulher e dois filhos, e Lucas, que está concluindo este ano o curso de agronomia, atua no escritório da fazenda, principalmente na gestão da pecuária e em projetos junto as instituições financeiras. Orgulhosa enfatizou que já tem dois netos.

Para chegar aos cargos de diretoria e presidência de instituições que agregam produtores rurais, ela se preparou para além das salas de aula das universidades. Fez vários cursos de gestão de pessoas e setor financeiro, entre eles o Empretec/Sebrae.

Junto com outras produtoras rurais faz parte do Núcleo das Mulheres do Agro de Luiz Eduardo Magalhães e é integrante da Academia de Liderança para Mulheres do Agronegócio (Alma) da Corteva Agriscience, ABAG e FIA Business School, dedicada à formação continuada das agropecuaristas de todo o Brasil.

Embora ela tenha trabalhado por um período no ramo do comércio “como tenho raízes no agro após minha formação acadêmica, fui convidada a fazer parte da AIBA como produtora voluntária”, revelou, destacando que em pouco tempo se tornou assessora da presidência.

Sobre ser a primeira mulher a coordenar a Bahia Farm Show, Rosi Cerrato salientou em 2012 o ambiente era majoritariamente voltado aos homens naquela época e que foram muitos desafios e quebras de paradigma.

“Vejo com bons olhos o quanto as mulheres vêm crescendo no agronegócio”, apontou, ressaltando que muitas estão atuando na liderança de cargos dentro das instituições, como tomadoras de decisões nos grupos familiares de produtores, bem como nas formações de cursos como agronomia e técnicos em agropecuária, “isto mostra a evolução, o que me deixa muito feliz”.

Para ela, ainda tem muito pela frente para que mais mulheres cheguem na liderança nas atividades relacionadas às atividades do campo. “O agro ainda tem o peso masculino, muitas demandas, muito preconceito que vem de várias gerações”, disse, frisando que a mulher “com sua sabedoria vem transformar este cenário”.

No entanto não estimula a competição entre as forças feminina e masculina. “O que devemos fazer sempre é unir as polaridades e absorver o que cada ser humano tem para contribuir com o desenvolvimento de nossa região e do agronegócio, que é pujante”, recomendou.

ALESSANDRA

Filha de pais paranaenses que chegaram na Bahia em 1981, Alessandra Zanotto Costa nasceu em Barreiras e tem ocupado diferentes cargos de liderança no agronegócio brasileiro. Iniciou um curso de Arquitetura, mas se sentiu mais atraída a atuar com o pai no Grupo Zanotto, com produção de soja e algodão onde é sócia-diretora.

É presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) desde o ano passado, mas antes já passou pela vice-presidência dentre outros cargos na instituição. Em 2025 assumiu também a presidência do Fundeagro, além de participar do conselho da Abrapa como convidada, função que exerceu oficialmente na gestão anterior, quando foi a primeira mulher a ocupar a posição de 1ª conselheira fiscal da entidade.

Para ela, embora tenha crescido a participação feminina no agronegócio, “ainda é sub-representada nos postos de decisão”, principalmente nas instituições, pontuou destacando que as mulheres já estão há muito tempo no campo operacional e técnico. “O que ainda é raro é a presença feminina nas mesas onde as regras do jogo são definidas. Não vejo isso como uma questão de justiça simbólica. Vejo como uma ineficiência” argumentou.

Alessandra Zanotto, presidente da ABAPA
Alessandra Zanotto, presidente da ABAPA - Foto: Uendel Galter/Ag. A TARDE

Ao afirmar que o agronegócio “não é só uma atividade econômica, é a infraestrutura que sustenta cidades inteiras”, Alessandra chama a atenção para o fato de “decisões tomadas nesse setor têm impacto direto na vida de pessoas que nunca pisaram numa lavoura” e refletem na logística, saúde, educação e geração de renda para dezenas de milhares de famílias.

Ela defende que a mulher tem uma posição diferenciada ao tomar estas decisões, “não porque sejam naturalmente mais sensíveis ou colaborativas. Esse é um estereótipo que não ajuda ninguém. Mas porque diversidade de trajetória produz diversidade de decisão. E decisão melhor gera resultado melhor”, enfatizou.

Alessandra salientou que o debate sobre a presença feminina no agro vai avançar com mais celeridade “quando deixar de ser tratada como pauta de inclusão e passar a ser tratada como pauta de desempenho”. Afirmou também que as novas gerações estão chegando formadas, capitalizadas e com acesso à informação. “Elas não precisam de condescendência, precisam de espaço para decidir e de critérios transparentes para ocupar posições de liderança”.

Por fim sentenciou que o que ainda falta, em muitos ambientes, é que os processos de governança avaliem capacidade, não perfil. “Quando isso acontecer, a presença feminina vai crescer não porque foi incentivada, mas porque será a consequência natural de critérios bem aplicados”, asseverou.

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