ARTIGOS
Crueldade
Confira o Editorial deste sábado


O surto de ebola na África não tem potencial de alastrar-se, portanto, é só uma questão de enfermidade limitada a populações periféricas da República do Congo e de Uganda.
Esta é a interpretação possível de narrativas circulantes nos salões da Organização das Nações Unidas, ecoadas pelas agências internacionais de notícia sediadas no Ocidente.
Como o risco epidêmico global é baixíssimo, não se espera mobilização maior, afinal, ao que parece mil africanos a mais ou a menos nada repercutem como problema humanitário.
Os impérios da Europa, viciados no aditivo da sucção das riquezas, preservam o olhar mercantilista de quem se importa apenas em calcular toneladas extraídas e nada mais.
Ora, se nem as vírgulas alteram na retórica, mansão onde habita o poder simbólico, não esperem os adoecidos exceto a caridade de curativos para fins de divulgação.
Para piorar, a velocidade e a instantaneidade da internet atualizaram esquemas ideológicos entrosados desde as invasões francesas nas terras onde hoje é a Argélia.
Assim, os péssimos exemplos de indiferença e iniquidade – prazer de ser cruel -, são disfarçados de civilizados, trocando-se de lugar o europeu e o selvagem.
Os efeitos da nova cepa do ebola expõem, para quem preserva seus olhos, a imoralidade de empresas multi e transnacionais exploradoras de cobalto, cobre, ouro e lítio.
O mínimo a fazer agora seria devolver pequena fração do furto incessante com fins de descoberta da vacina, mas enriquecer é insuficiente quando se pode apreciar a dor alheia.
Ademais, o investimento não fecharia o balanço de custo-benefício, pois teriam os estrangeiros de tirar dinheiro das ações de extração predatória e expulsão de comunidades.