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Do paraíso de Vinicius à quarta pior capital do Brasil
Confira o artigo de Deyvid Bacelar


O Índice de Progresso Social (IPS) 2026, divulgado no último dia 20 de maio pelos institutos Imazon, Fundación Avina e Centro de Empreendedorismo da Amazônia, cravou aquilo que o soteropolitano já sente na pele: Salvador é a quarta pior capital do Brasil em qualidade de vida. Ficamos à frente apenas de Porto Velho, Macapá e Maceió.
O número dói porque contrasta com a memória. Salvador já foi considerada um paraíso nos anos 60 e 70, quando a cidade chegou a virar um polo cultural do país. Vinicius de Moraes trocou o Rio pela Bahia e morou aqui, rendido à cidade. Escreveu a letra do “Samba da Benção” exaltando a “Terra de Caymmi e João Gilberto”.
Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia projetaram Salvador para o mundo. Tom Jobim vinha sempre pra cá. A cidade era destino de artista, de intelectual, de turista. Tinha mar, tinha história, tinha luz, tinha humanidade.
O que o IPS 2026 mede é justamente a perda dessa humanidade. O índice não olha PIB. Olha resultado na vida real. São três dimensões avaliadas: Necessidades Básicas, Bem-estar e Oportunidades. E Salvador vai mal em quase todas. Por quê? Não é preciso nenhuma genialidade para perceber algumas evidências. Senão, reparem: a situação do lixo, por exemplo. Salvador não tem coleta seletiva estruturada.
O Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos existe no papel, mas na rua o caminhão leva tudo junto. Reciclável, orgânico, rejeito, tudo tem o mesmo destino, o que nos envergonha profundamente.
O catador faz o serviço que a prefeitura não faz. Pior: os garis da limpeza urbana seguem pendurados na traseira dos caminhões compactadores, em avenidas como a Paralela e a ACM, em alta velocidade. Sem cinto, sem trava, sem segurança. A NR-12 e o Código de Trânsito proíbem, mas a cena se repete todo dia. É a vida do trabalhador valendo menos que a pressa da rota. Isso derruba a nota de Salvador em “Segurança Pessoal” e “Qualidade do Meio Ambiente”, dois componentes-chave do IPS.
Vamos também falar de BRT. O caso do BRT Lapa-Iguatemi é símbolo do que deu errado. Foram R$ 578 milhões, segundo a prefeitura, para ligar dois pontos que o metrô já ligava. Obra redundante, superfaturada e atrasada.
Para abrir caminho, a prefeitura autorizou a derrubada de centenas de árvores, muitas centenárias, nas avenidas Juracy Magalhães e ACM. Árvores que davam sombra, reduziam temperatura e contavam a história da cidade. O resultado: ilhas de calor. Salvador ferve. Estudos da UFBA já mostravam que bairros com menos arborização têm até 5°C a mais.
O IPS mede “Qualidade do Meio Ambiente”. Perdemos nota. O pedestre anda no sol a pino porque a árvore virou asfalto e ponto de ônibus sem cobertura. E o que é pior: a mobilidade não melhorou. O trânsito na região segue travado nos horários de pico.
Na dimensão “Necessidades Humanas Básicas”, o IPS cobra “Nutrição e Cuidados Médicos”. A prefeitura inaugura placa, mas obra estruturante é rara. Unidades de saúde fecham aos fins de semana. UPAs como a de São Marcos e Brotas vivem superlotadas. Falta médico, falta remédio, sobra fila. Na “Segurança Pessoal”, outro desastre.
A Guarda Civil Municipal de Salvador, que deveria ter 2.500 agentes por lei, opera com menos de 1.200. O último concurso foi em 2014. Dez anos sem repor efetivo. Enquanto outras capitais ampliam suas guardas para patrulha comunitária, Salvador encolhe. Os bairros ficam à mercê. O IPS captura isso: sensação de insegurança derruba a nota geral.
O IPS também mede “Oportunidades” e “Direitos Individuais”. Isso inclui transparência e eficiência do gasto público. Aqui, a lógica se repete: limpeza urbana, comunicação institucional, requalificação de praça, recapeamento. Os contratos rodam entre as mesmas empreiteiras de sempre, todas sempre ligadas à família de ACM Neto ou de Bruno Reis. O Portal da Transparência mostra aditivos sucessivos.
O serviço não melhora na mesma proporção. O mato cresce três meses depois da roçagem. O buraco reaparece após a primeira chuva. Mas o pagamento do contrato não atrasa. Salvador troca planejamento por emergência, servidor concursado por terceirizado, projeto de longo prazo por obra de véspera de eleição.
O relatório do IPS serve de “bússola para orientar investimentos e aperfeiçoar políticas públicas”. Ele está dizendo: Salvador, você está errando no básico. Água, saneamento, segurança, saúde, meio ambiente. Os pontos que fazem uma cidade ser habitável. A cidade que encantou Vinicius de Moraes não acabou por acaso. Ela foi desmontada por decisões políticas. Trocaram o planejamento urbano por improviso. A sumaúma centenária por corredor de ônibus vazio. E seguimos vendo o gari sem dignidade pendurado na traseira.
O guarda municipal sendo substituído pelo vigilante terceirizado. Ou seja: paraíso não cai sozinho no ranking do IPS. Ele é empurrado nesse abismo por uma gestão corrupta e desqualificada. Enquanto a prioridade for contrato e não gente, propaganda e não resultado, seguiremos no fim da lista. E cada vez mais longe da Salvador que já fez o Brasil inteiro sonhar.
*Deyvid Bacelar é sindicalista licenciado e pré-candidato a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT)