
Por Rafael Tiago
O último domingo, 25, no Barradão não foi apenas mais um capítulo da centenária história do futebol baiano; foi a evidência física de uma mudança de era. O triunfo do Bahia por 1 a 0, em pleno reduto rival, carregou um simbolismo que dói mais no torcedor rubro-negro do que a perda dos três pontos: o Esquadrão venceu utilizando um time reserva, tratando o maior clássico do Nordeste como um laboratório de luxo.
O nome do jogo foi Dell, o jovem atacante de apenas 17 anos apelidado de 'Haaland do Sertão'. Ao balançar as redes, Dell não apenas garantiu o triunfo, mas lembrou ao mercado que o Bahia agora habita outra galáxia financeira. Com uma multa rescisória que ultrapassa os R$ 600 milhões, o garoto é o rosto de um projeto que transforma promessas em ativos globais, algo hoje impensável para o orçamento do Leão.
Ilusão do volume de jogo contra a eficiência
Em campo, a disparidade técnica ficou latente na forma como o jogo se desenrolou. Embora o Vitória tenha apresentado maior volume de jogo em determinados momentos, empurrado por sua torcida, o domínio foi estéril. O Bahia, mesmo com sua formação "B", pouco sofreu. A solidez defensiva foi tamanha que o goleiro Ronaldo foi acionado para uma única defesa difícil em toda a partida, assistindo de camarote à impotência ofensiva do rival.
O que mais impressiona não é apenas o placar, mas a postura estratégica do Tricolor. Sob a chancela do Grupo City, o Bahia deu-se ao luxo de poupar seus principais titulares para a estreia no Campeonato Brasileiro, contra o Corinthians, nesta quarta-feira, 28. Para o Esquadrão, o Ba-Vi deixou de ser a "final da vida" para se tornar um compromisso de calendário, uma etapa preparatória para voos mais altos na elite nacional.
Espelho europeu: quando a disparidade econômica mata o equilíbrio dos clássicos
Essa metamorfose do clássico baiano encontra ecos claros no futebol europeu. Guardadas as proporções, o Ba-Vi começa a mimetizar o que ocorre em Barcelona, onde o Barça enxerga o clássico contra o Espanyol como um jogo comum, enquanto o rival, estagnado financeiramente, mantém uma voltagem de rivalidade que já não encontra reciprocidade técnica. Na Itália, o clássico de Turim entre Juventus e Torino segue o mesmo roteiro de desigualdade.
A realidade é que o Grupo City impôs uma barreira competitiva que o modelo associativo tradicional dificilmente conseguirá transpor. Enquanto o Bahia opera com processos globais e capital estrangeiro, o Vitória luta para equilibrar as contas com receitas locais. O abismo financeiro, que já era nítido nos balanços, agora está escancarado na tabela de classificação e no nível de competitividade dentro das quatro linhas.
Caminho da SAF ou a irrelevância competitiva
Se o Vitória não acelerar seu processo de transformação em SAF, o destino do clássico é a irrelevância competitiva. Um derby onde apenas um lado entra "pilhado" e o outro entra para cumprir tabela é um derby ferido em sua essência. O risco é real: o Ba-Vi pode estar se tornando um confronto onde o Bahia apenas decide como quer ganhar, enquanto o rival celebra o simples fato de ter "competido".
O futebol baiano vive um monólogo financeiro. O domingo mostrou que o abismo não está apenas nos cofres, mas na mentalidade. Para o Bahia, o foco é o topo da tabela do Brasileirão; para o Vitória, resta entender que, sem uma mudança estrutural profunda, os clássicos do futuro serão apenas sombras do que um dia foram.
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