ARTIGOS
Fofoca e resolução de ano novo
Confira o artigo de Jolivaldo Freitas

Por Jolivaldo Freitas

Estava falando lá na Rádio Metrópole, onde arrisco uns comentários meio capengas e mais longo do que o usual e morro de vergonha, mas só saco depois; fala mal armada e cheia de coisas sobre nosso sagrado solo, que, desde meados do século passado, o ritual por aqui é bíblico: na última sexta-feira do mês, a Ladeira do Bonfim vira praticamente um carnaval fora de época. Parece festa de largo, todo mundo de branco, suor escorrendo ou se for o caso, todo respingado de chuva, e haja fé para agradecer ao Senhor do Bonfim pelas graças alcançadas. Uns vão se queixar que nada conseguiram, mas vá saber o grau de pecado e desmerecimento que esse povo carregou nas costas.
No entanto, o auge do esforço divino vem logo na primeira sexta-feira do ano. Aí não é agradecimento, não. É plantão de emergência no céu. O povo sobe a ladeira para dar trabalho ao santo: pedir milagre para pagar cartão de crédito atrasado, conseguir um crush. É como uma procissão que tivesse um boleto no andor.
Minha querida amiga SC, jornalista das boas dessa pegada atual de redes sociais, solicitou com fervor ao santinho que arrumasse profissão para o marido. Segundo ela, assim que ele o milagre acontecer coloca a mala dele na calçada e manda que se escafeda. Ela já tem até boi na linha, tenho certeza. Tá mais magra e a pele boa.
Ela, essa mesmo que estou falando e vai ligar chiando por minha boca grande e maledicência, assim como você que está lendo as traçadas linhas, como muita gente, trata o réveillon como se fosse uma fronteira mágica do tempo. Acredita piamente que um novo calendário decompõe preguiça e transmuta em disciplina, gula em dieta e boleto em prosperidade. No réveillon pula logo sete ondas para garantir, mas no sábado seguinte esqueceu das resoluções de ano novo.
Essas são sempre épicas. “Vou acordar às cinco da manhã”, promete alguém que não acordava às sete nem quando tinha prova de matemática. “Vou ler um livro por semana”, garante quem passou o ano inteiro usando livro apenas como apoio para o ventilador. E a campeã absoluta: “Este ano eu emagreço”. Mas só vai lembrar quando dezembro de novo chegar.
Janeiro é o mês da esperança. A academia fica lotada, cheia de gente empolgada, roupa nova, tênis branco e garrafinha estilosa. Em fevereiro, sobra só a garrafinha. Em março, nem ela. O treinador já chama de “sumido” ou “sumida” sem sequer lembrar seu nome.
Com certeza na virada do ano também fez a velha promessa – minha amiga e colega faz isso há uns quarenta nos (para que fui falar da idade? Podia ficar quieto) - de fazer um pé de meia. Até começa bem. Aí surge uma black fraude fora de época, bate uma vontade incontrolável de ir para a Ilha, e lá se vão as economias via Ferry Boat.
E assim segue em todos os gorando um pouquinho, mas tentando. A sorte é que para os baianos sempre é tempo de contar – para quem tem fé - uma primeira sexta-feira do ano para ficar frente a frente com o Senhor do Bonfim, que eu não sei de onde ele tira tanta paciência e força para ajudar até quem não ajuda a si mesmo. Decidi que este ano minha resolução é emagrecer e economizar. Nem zap vou passar. Emprestar dinheiro a parente, nem pensar. E já prevejo que vou precisar de um milagre dos bons para reatar a minha amizade com a colega. Ela quando ler vai odiar. Pior é que também sei que até milagre tem limite.
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista, autor do livro “Baianidade”, dentre outros.
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