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Hipocrisia seletiva

Confira o artigo de José Medrado

José Medrado*
Por José Medrado*
Imagem ilustrativa da imagem Hipocrisia seletiva
Foto: Reprodução | Instagram

Vivemos em uma espécie de coliseu digital permanente. Um tribunal ruidoso, que vocifera a qualquer situação que lhe seja palatável ao ataque. A arena não é para contemplar a arte ou a trajetória de quem está no palco, mas para lançar pedras veladas sob o pretexto da “moral”. A recente polêmica sobre os figurinos de Xuxa Meneghel é o retrato perfeito desse espetáculo de projeções. O que se ataca na tela não é a peça de pano, o corte da roupa ou a cavatura de um maiô; o que se apedreja é a audácia de uma mulher que continua dona de si, de suas posições e da sua arte. Fez um show para adultos, em uma espécie de viagem nostálgica para os com mais de 35 anos.

A virulência dos comentários, no entanto, expõe uma hipocrisia seletiva que opera em três camadas profundas, ao meu pensar: 1. A conta cobrada pelo posicionamento político. Quando uma figura de alcance nacional decide não se omitir, manifesta suas opiniões e confronta pautas, ganha um alvo nas costas. A patrulha que hoje se diz “chocada” com a indumentária da artista é, em grande parte, a mesma que busca puni-la por suas posições políticas. A roupa torna-se apenas o pretexto conveniente; 2. O espelho das frustrações e dos recalques – Há algo de profundamente psicanalítico no ódio destilado nas redes. A visão de alguém plenamente resolvido com o próprio corpo, que celebra a própria história sem pedir licença, atua como um espelho incômodo para quem vive enclausurado em suas próprias limitações. O incômodo com a exposição alheia quase sempre nasce da incapacidade de lidar com a própria liberdade reprimida. 3. O etarismo e a punição pelo tempo – Talvez a camada mais perversa seja o etarismo indisfarçável. A sociedade tolera – e incentiva – figurinos ousados em corpos jovens, rotulando-os como empoderamento. Contudo, quando uma mulher ultrapassa os 60 anos e reivindica o mesmo direito de vestir sua identidade, a régua muda. Cobra-se dela o recato, o apagamento e o recolhimento ao papel de “senhora reservada”. Critica-se a roupa porque não se aceita que o envelhecer possa vir acompanhado de altivez, sensualidade e presença cênica. Xuxa se fez sob muito epítetos, inclusive de sexualização de crianças antecipadamente, lembro-me bem desses comentários.

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No fim das contas, as roupas icônicas de Xuxa continuam sendo o que sempre foram: a extensão de sua persona artística. O que mudou não foi o espetáculo, mas a amargura de uma plateia virtual que prefere julgar a roupa alheia a encarar as próprias sombras, em evidente demonstração de que os meus desassossegos de alma sempre refletirão em quem os enfrentou em suas vidas pessoais. Não tenho dúvida que esta hipocrisia seletiva embala, nessas mesmas pessoas, o desconforto do que sentem.

*Mestre em família pela Ucsal e fundador da Cidade da Luz
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