ARTIGOS
Julho das Mulheres Negras: Resistência, afirmação de direitos e luta pelo bem viver
x- Secretária de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais


Há datas que nos convidam à celebração, há outras que nos colocam diante da responsabilidade. Julho é um mês de memória, resistência, mobilização e reflexão sobre o mundo erguido até aqui e sobre o futuro que queremos. Ao longo de 31 dias, vivemos o Julho das Mulheres Negras, reconhecendo o protagonismo das mulheres negras que sustentam territórios, preservam saberes ancestrais e protagonizam processos de transformação social e resistência à dureza do racismo, do machismo e da pobreza.
Neste chão onde a maioria da população é negra, reconhecer o protagonismo dessas mulheres é reconhecer a história da Bahia e sua contribuição para o fortalecimento da luta das mulheres negras na América Latina e no Caribe. Tudo que toca aqui aciona as nossas conexões afrodiaspóricas.
Tendo por marco o 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Afro-Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, este mês reafirma que as desigualdades socioeconômicas, racismo e o sexismo não atuam isolados, mas produzem desigualdades que se entrelaçam e exigem respostas articuladas. Não à toa, mesmo com os avanços sociais das últimas décadas, as mulheres negras ainda são as mais afetadas pela violência, pobreza, ausência de serviços básicos assim como excluídas do acesso pleno à justiça e aos espaços de poder e decisão.
Não é possível falar de igualdade ignorando as assimetrias produzidas por um sistema que transforma diferenças em hierarquias e sustenta desigualdades buscando sempre naturalizá-las. A interseccionalidade nos permite compreender que as vidas das mulheres negras são atravessadas por diferentes marcadores sociais como raça, gênero, identidade de gênero, classe, orientação sexual, território e geração, exigindo políticas públicas integradas.
Na Sepromi, entendemos que promover igualdade racial é criar oportunidades, ampliar direitos e garantir que essas mulheres sejam protagonistas das decisões. Leis, políticas públicas, programas, equipamentos públicos e outros não vão bastar se a consciência da sociedade não avançar.
Com esse compromisso, realizamos neste Julho das Mulheres Negras uma programação que fortalece o diálogo entre poder público e sociedade civil. São ações de formação, prevenção à violência de gênero, ao racismo e à intolerância religiosa, promoção cultural, empreendedorismo, participação política e homenagens àquelas que vieram antes de nós, como a que ocorreu na Casa da Igualdade Racial da Bahia, na sexta-feira (24), lembrando a contribuição da professora e ex-titular da Sepromi, Luiza Bairros, à luta pela igualdade e pelos direitos das mulheres.
Neste ano, com a inauguração da Casa da Igualdade Racial da Bahia em junho último, este equipamento público assume um lugar de destaque como espaço de articulação, visibilidade e fortalecimento das mulheres negras baianas. Mais do que sediar atividades, a Casa se consolida como um espaço permanente de acolhimento, formação, cooperação internacional e acadêmica além de articulação entre Estado e sociedade civil, reafirmando a importância da participação social.
Não podemos perder de vista os nossos desafios, ainda há muito o que ser feito para que a pobreza, a violência e a sub-representação política deixem de ser a tônica da existência das mulheres negras, impedindo nosso pleno desenvolvimento e também o pleno desenvolvimento da nação.
Sempre é o momento de reafirmarmos que igualdade racial e equidade de gênero devem caminhar juntas, sendo basilares de um projeto democrático comprometido com a justiça social, racial e de gênero.
É responsabilidade coletiva de governos e da sociedade liderar esse caminho em um Estado onde pulsa uma das maiores expressões da diáspora africana no mundo. Mulheres negras transformam memória em ação, reparação em política pública e resistência em esperança.
Que possamos continuar a trilhar esse caminho por uma Bahia mais justa, que reconheça nas mulheres negras a força de sua história e garanta direitos, valorização e o direito de existir.