ARTIGOS
Mentira necessária?
Confira a coluna de Medrado

Por José Medrado | [email protected]

Pessoa alguma vai contestar que nunca tivemos acesso a tanta informação. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil distinguir o que é verdadeiro, relevante e responsável. Todavia, a cada dia que passa, reforça-se a certeza de que a internet não é uma terra onde possamos confiar cegamente. Ela é fértil, veloz, pode até ser democrática – mas também caótica, rasa e, muitas vezes, deliberadamente enganosa, mentirosa. Nesse cenário, o pensamento crítico, ou seja, avaliar, confrontar, não aceitar de pronto, deixa de ser atenção com o conteúdo e passa a ser uma necessidade social. Não se trata de desconfiar de tudo, mas de aprender a escolher. Escolher fontes, veículos, jornais, instituições... que tratem a informação com seriedade, método e compromisso público. Informação não é opinião travestida de fato, nem boato embalado em manchete chamativa.
O que vemos com frequência é a circulação de notícias sem verificação, recortes fora de contexto, narrativas moldadas para provocar indignação imediata e engajamento fácil. A lógica do clique substitui a lógica da responsabilidade. E quem paga o preço é o debate público, empobrecido por certezas apressadas e posições extremadas. Immanuel Kant já alertava, no século XVIII, que o esclarecimento começa quando o indivíduo tem coragem de usar o próprio entendimento. Pensar criticamente é justamente isso: não terceirizar o juízo, não aceitar como verdade aquilo que apenas confirma nossas crenças ou emoções. É perguntar “quem disse?”, “com que interesse?”, “com base em quais fatos?”.
Em um tempo em que a mentira viaja mais rápido que a verdade, o pensamento crítico é um freio necessário. Ele exige tempo, leitura, comparação e, sobretudo, humildade intelectual. Não é confortável, mas é indispensável. Defender o pensamento crítico hoje é defender a democracia, o jornalismo responsável e a própria convivência social. Porque sem critério, tudo parece verdade – e quando tudo parece verdade, nada mais é confiável. Nesse ambiente digital que premia o engajamento rápido e a indignação instantânea, o pensamento crítico funciona como um ato de resistência. Ele exige pausa, leitura atenta, comparação de fontes e discernimento. Exige também responsabilidade do leitor, que não pode mais se colocar apenas como consumidor passivo de informações. Sem ele, qualquer versão parece válida, qualquer mentira ganha espaço e a verdade se dissolve em meio ao ruído. Pensar criticamente não é desconfiar de tudo – é, justamente, aprender a confiar melhor. Não se trata de ideologia, de sedimentar o que já se tem como base de escolha, mas fazer a avaliação sobre fatos reais. A mentira se tornou mais que aceitável. Para muitos: necessária.
*José Medrado
Mestre em família pela Ucsal e fundador da Cidade da Luz
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