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Mulheres: respeito tem de começar cedo

Confira artigo de Jolivaldo Freitas

Jolivaldo Freitas*
Por Jolivaldo Freitas*
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista - Foto: Divulgação

No setor de fast food de um shopping em Salvador, Bahia, Brasil, uma cena para não se esquecer nunca. A menina, de uns seis anos, brincava de colorir e um menino da mesma idade, deduzo, passou, viu e, largando a mão do pai, voltou e rasgou o papel. A garotinha ficou paralisada de susto. Os pais se viraram para o garotinho e viram quando o pai dele o pegou pelo braço e perguntou o motivo da agressão. O menino disse que não gostou da menina. Assim, do nada. De graça.

Então ocorreu o mais inesperado. O pai mandou que ele fosse pedir desculpas à menina e disse, para todos ao redor ouvirem, que ele devia saber respeitar as meninas. O menino respondeu:

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– Você também arranca as coisas da mão da mamãe!

O homem ficou sem jeito, tentou se justificar, mas, a essa altura, a mãe puxava marido e filho pelos braços, cabeça baixa e toda constrangida. Uma pessoa que devia estar na mesma mesa da menina agredida ou em outra próxima gritou:

“Respeito às mulheres tem de vir de casa e começar cedo!”

As pessoas aplaudiram.

Lembrei do caso, vez que a Lei Maria da Penha está fazendo vinte anos, e vi a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, que estima 3,7 milhões de brasileiras vítimas de algum tipo de agressão doméstica recente. “Crimes se mostram além da tragédia e não fogem da consciência social.” Esta frase não é minha, mas não lembro o especialista na área que falou e, se alguém souber, me diga que dou o crédito.

A cultura de violência contra as mulheres no Brasil oferece o terrível número revelado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, confirmando que 1.571 mulheres foram assassinadas por motivação de gênero em 2025. Monitoramento Nacional do Ministério da Justiça registrou 741 feminicídios no primeiro semestre de 2026. Claro que nem todos os homens são uns escrotos. Mas o problema é grande.

Violência contra a mulher é um rol infinito, seja o toque indesejado, a conversa atravessada de cunho sexual, a piada sexista, um beliscão, a buzinada quando se passa de carro – e já presenciei um motorista da empresa Integra baixar a velocidade do ônibus para seguir uma garota, emitindo piadas agressivas. Ela teve de mudar de passeio. Outros homens davam risada dentro do ônibus. O advento das redes sociais elevou o grau da falta de respeito para com as mulheres. Parece ser o meio certo para a difusão da misoginia, do sexismo e tal.

Eu considero a geração Millennials, de pais Game of Thrones (alfas e machões), um tanto perdida. Mas cabe também a essa geração uma nova cultura, outra consciência, para que seus filhos se tornem pessoas que saibam respeitar as meninas. Tem de começar em casa, desde cedo. Não cabe à rua, aos professores ou à internet essa iniciativa. Dizer com constância que não é por ser homem que se tem direito à dominação e ao mau comportamento social. Vontade pessoal também não é para ser imposta.

Crianças observam os pais e parentes (e veja o caso do shopping). Crianças viram uma cópia. Criança tem que ser tratada com respeito para saber respeitar. Ensine-a a ouvir sem interromper, entender que existem opiniões diferentes e divergentes. Mostre empatia e ela terá empatia. Os pais têm de estar atentos às influências externas que aparecem via TV, jogos, filmes e internet. Haja dose de violência exposta. Não é proibir. É ajudar a contextualizar.

Tudo é muito complexo e ainda tem a pornografia constante, as visões distorcidas da sexualidade, a objetificação e a humilhação compartilhadas via mídias. É preciso também dar, desde cedo, para as crianças a noção de consentimento, senão veremos muitas a se transformar em adultos invasivos. Relação é baseada em respeito mútuo.

Para a criança, a alocução do adulto é um diferencial. O exemplo dado pela família, pelos professores e vizinhos tem peso. Elas observam tudo. Os bons e maus exemplos permanecem. Depois, é difícil retificar. Ninguém pode achar que respeitar as mulheres se trata de fazer favor.

Como você educa seus meninos?

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*Romancista e jornalista. Autor da novela “Amor Roxo”.

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