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Que dó!
Confira o artigo de José Medrado


O dia 24 de junho guarda em minha alma um significado muito grande, dentro de um contexto de família: minha mãe aniversariava neste dia, ela se casou neste dia e fez questão de que os seus três filhos fossem batizados neste dia, naturalmente, cada um no ano em que nasceu. Assim, atrelo as minhas memórias à sanfona, à zabumba e ao triângulo, como um perfume que lembra um momento, uma situação que gera um déjà-vu. Infelizmente esta sensação, dei-me conta nesses dias, está se esmaecendo em meus recônditos de afeto. Ao me dar conta, cheguei até a me censurar: como posso me esquecer desse aroma da saudade?
Constatei, no entanto, que não eram só os instrumentos que faltavam em meus sinais de conexão. Não. Eram símbolos de uma identidade construída no chão do nordestino, do suor da roça, na seca vencida pela esperança, no crepitar de um fogo, mesmo nos arredores de Salvador, em uma fogueira mal-amanhada. Sim, claro as quadrilhas de raiz. O forró virou tec, virou sertanejo. Claro que sei que a cultura é dinâmica e vai se moldando, reestruturando-se, sim. O problema começa, sinto, quando essa dinâmica deixa de ser orgânica e passa a ser dirigida pelo mercado, pelo moedor do dinheiro, a fama, do conveniente.
Por isso, entendo Flávio José, quando a sua participação no São João da Bahia foi cancelada. O impasse ocorreu após uma recomendação do Ministério Público da Bahia (MP-BA) para a redução de gastos públicos e valores de cachês. O artista decidiu não se apresentar em 16 cidades baianas, afirmando que se sentiu desvalorizado, e questionou o fato de que artistas de outros gêneros, sem ligação com a cultura nordestina, continuam recebendo cachês muito maiores em eventos públicos. Essa é daquelas histórias onde os dois lados têm razão. No entanto, o fato, salvo maior juízo: a fama das estrelas, não importando de que constelação, brilhou mais uma vez se impondo — o asfalto sobre o chão batido.
E olhe eu lembrando: "Luí, respeita Januário; Luí, respeita Januário; Luí, cê pode ser famoso; Mas teu pai é mais tinhoso; E com ele ninguém vai, Luí, Luí, respeita os oito baixos do teu pai". Penso que está faltando esta admoestação aos senhores gestores públicos. O que realmente estamos assistindo são muitas cidades em uma espécie de colonização sonora do São João. Ritmos completamente desconectados de sua matriz — muitas vezes importados pela lógica do consumo massivo — ocupam o espaço central da festa.
E isso não ocorre por escolha cultural espontânea, mas pela força do poder econômico: grandes produtoras, interesses políticos, patrocínios e algoritmos de popularidade empurram determinados artistas e estilos para o palco principal. A consequência é séria: o forró deixa de ser protagonista em sua própria casa.
*Mestre em família pela Ucsal e fundador da Cidade da [email protected]