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Relaxe, os EUA não gostam de perder soldados
Confira o artigo de Jolivaldo Freitas

Por Jolivaldo Freitas*

A entrada invasiva dos Estados Unidos na Venezuela no início de janeiro, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, praticamente ligou um alerta na América Latina. No Brasil, uma pesquisa revela que 58% da população acha que Trump pode se voltar para nós. O receio manifesto depara na análise de especialistas, para quem o acontecido no país vizinho cria precedente ameaçador. Mas, por aqui, o buraco é mais embaixo.
Os EUA têm a capacidade, com seus jatos, mísseis e drones, de acabar de uma porrada só com a estrutura militar básica do Brasil, com hidrelétricas, portos, aeroportos, navios, mas e depois disso? A envergadura militar dos EUA é, de fato, avassaladora. Suas forças armadas possuem tecnologia para destruir à distância. Mas até esse poderio tem limites. Os americanos até hoje amargam a derrota na Guerra do Vietnã (1955-1975). Tinham superioridade, poder de fogo, mas isso não garantiu nada. Nem hoje garantiria uma vitória assimétrica. No Vietnã, táticas de guerrilha, conhecimento do terreno e apoio local desgastaram a vontade política e os recursos dos EUA. Tiveram de se picar. Uma vergonha eterna.
Destruir infraestrutura é uma coisa; controlar um vasto território, conquistar a população e sufocar uma insurgência prolongada é um desafio completamente diferente, especialmente em países de dimensões continentais como o Brasil. Mesmo na Venezuela – pelo menos até agora –, mostraram juízo, vez que os venezuelanos prepararam estratégias de “resistência prolongada” e sabotagem. Exército convencional não gosta de guerrilha, algo que a história mostra ser problemático.
Não sou analista, mas deduzo que, levando-se em conta o número da população, o tamanho do país, suas regiões diferenciadas umas das outras e o número de mortes que ocorreriam de ambos os lados, uma intervenção seria um inferno, e os norte-americanos não gostam de ver seus jovens morrendo em terras estranhas. Eles também não querem morrer longe de casa (mais recente teve aquela fuga chocante do Afeganistão, lembra dos aviões e carga decolando, deixando colaboradores para trás?). O cenário de uma invasão e ocupação em larga escala do Brasil pelas forças dos EUA é tido como improvável, embora Trump não seja bom do juízo. Custos políticos, econômicos e humanos pesam, ainda mais sem a certeza de um desfecho favorável.
Não é como dar cacetada em imigrantes desarmados, colocar num avião e mandar embora.
*Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista, autor do livro “Baianidade”, dentre outros.Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
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