ARTIGOS
Três olhares sobre a condição humana
Confira o artigo de Jolivaldo Freitas


Permanência. É isso que a literatura possui como precioso privilégio. Transforma o tempo. Há livros que ultrapassam o simples ato de narrar uma história e se tornam testemunhos da alma humana, da memória coletiva e dos dilemas que moldam sociedades. Posso afirmar que no especial universo se encontram “Os Varões Assinalados”, de Tabajara Ruas, “Rio Salgado”, de José Armando Nogueira, e Bel-Ami, um dos clássicos de Guy de Maupassant. Obras marcadas em estilo, época e cenário, mas unidas pela extraordinária capacidade de envolver o leitor e provocar reflexão.
Em Os Varões Assinalados, Tabajara Ruas reafirma sua posição dentre os grandes romancistas brasileiros contemporâneos. Com uma narrativa vigorosa e de grande fôlego, o escritor gaúcho revisita personagens e acontecimentos que dialogam com a formação histórica do Rio Grande do Sul e do Brasil. Seu texto alia rigor histórico e refinamento literário numa tecitura caracterizada por conflitos, ideais, paixões e pela eterna busca do homem por identidade e liberdade. A escrita de Ruas é de muita emoção. Com certeza é o melhor livro sobre a Guerra dos Farrapos que já li. E lá estão Bento Gonçalves, Garibaldi e outros heróis ou anti-heróis, a depender do ponto de vista da história e do leitor.
Rio Salgado
Igualmente encantador é a prosa de José Armando Nogueira, e seu livro com suaves hipérboles – se pode isso acontecer - revela um escritor de rara sensibilidade. Publicitário por formação, Zé Armando evidencia domínio absoluto da palavra literária ao construir um romance de locução fluida, poética e intensamente humana. A narrativa se desenvolve como o rio em curso natural, conduzindo o leitor por paisagens, lembranças, afetos e dramas existenciais. Em cada página uma pintura; beleza não apenas pela qualidade estética da escrita, mas pela delicadeza do autor ao tratar sentimentos universais como o amor, a perda, a esperança e a memória. Rio Salgado é daqueles livros que se perpetuam vivos tempo depois da última página.
Bel-Ami
Clássico universal como poucos romances essa conserva atualidade. Bel-Ami, de Guy de Maupassant que li nos anos 1980 e voltei a ler agora no século XX! Foi publicado no século XIX. Permanece espantoso pela forma como desveste os mecanismos do poder, da ambição e das relações sociais. O personagem Georges Duroy seria um crápula ou uma espécie tão comum no tempo atual? Galga a escada social utilizando inteligência, sua beleza e pegando a não as oportunidades. Um daguerreótipo atemporal das estratégias humanas. Maupassant escreve com precisão. Sua narrativa é atual vez eu mostra que, apesar das mudanças históricas, certas paixões e fraquezas humanas continuam essencialmente as mesmas.
Livro por livro os três citados são gostosos de ler e se um oferece vigor épico (Tabajara) outro emociona pela delicadeza e pela beleza (José Armando). E Guy de Maupassant eterniza a crônica social. São geografias diferentes. São transformadores.
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista autor do romance “A Peleja dos Zuavos Baianos Contra Dom Pedro, os Gaúchos e o Satanás” (edição Fundação Pedro Calmon)