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Um país marcado pela humilhação não pode fazer dela um projeto de poder

Confira o artigo da presidente das Voluntárias Sociais da Bahia, Tatiana Veloso

Tatiana Veloso*
Por Tatiana Veloso*
Tatiana Veloso
Tatiana Veloso - Foto: Arquivo Pessoal | Reprodução

Quando uma liderança política que representa a elite afirma que pretende “humilhar”, essa fala não pode ser vista apenas como uma metáfora eleitoral. No Brasil, a palavra humilhação carrega marcas profundas de uma história construída sobre a escravização, o autoritarismo e as desigualdades sociais.

Como demonstram Fernando Novais (1979), Luiz Felipe de Alencastro (2000), Caio Prado Júnior (1942) e João Fragoso e Manolo Florentino (1993), o Brasil foi estruturado por um sistema colonial que naturalizou a exploração e a humilhação como formas de dominação.

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Essa herança atravessa séculos e ainda se manifesta na política contemporânea, quando lideranças recorrem à ideia de “humilhar” adversários. Não se trata de mera retórica eleitoral, mas da reprodução de símbolos de hierarquização social que marcaram a escravização e a marginalização de povos negros, indígenas, sertanejos e das periferias das cidades.

Esses povos foram historicamente submetidos à humilhação como mecanismo de dominação: a negação da humanidade, da dignidade e do direito à existência plena. Essa lógica atravessou séculos e permanece presente nas relações de poder, na política e nas desigualdades que estruturam a sociedade brasileira.

Por isso, discursos que naturalizam a ideia de “humilhar” alguém — especialmente no campo político — precisam ser profundamente refletidos. A democracia deve ser construída a partir do debate de ideias, do respeito às diferenças e da disputa legítima de projetos para a sociedade, e não pela tentativa de desqualificar, inferiorizar ou constranger o outro.

Quando essa fala se dirige a uma liderança política que carrega em sua trajetória a representação dos povos historicamente marginalizados, incluindo as raízes dos povos originários e das populações do interior baiano, o debate ganha uma dimensão ainda mais séria.

Em um país marcado pelo racismo estrutural, pelo elitismo e pelas desigualdades históricas, determinadas narrativas e práticas políticas acabam reproduzindo símbolos de dominação e hierarquização social.

Como lembram Lélia Gonzalez (2020), Lélia Gonzalez e Hasenbalg (1982), o racismo brasileiro opera muitas vezes por meio da negação e da naturalização da inferiorização, sustentando práticas que desumanizam e silenciam populações negras e indígenas.

Nesse sentido, discursos que evocam a humilhação atualizam mecanismos históricos de exclusão e reafirmam a permanência da colonialidade nas relações de poder.

A Bahia conhece profundamente o peso das desigualdades históricas e precisa banir a lógica da humilhação como demonstração de poder.

Precisamos fortalecer uma política comprometida com a dignidade humana, com o respeito aos territórios e identidades populares e com a construção de justiça racial, social e ambiental, a partir da força da resistência popular, negra e democrática. Chega de política baseada na humilhação de seu povo!

Também é preciso responsabilidade ao comparar realidades sociais e econômicas entre os estados brasileiros. Não se pode analisar indicadores da Bahia a partir dos mesmos parâmetros de estados situados nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, sem considerar os processos históricos de concentração de riqueza, industrialização e investimentos públicos que marcaram de forma desigual o desenvolvimento regional do país.

O Nordeste brasileiro, e especialmente a Bahia, enfrentou séculos de exclusão econômica, concentração fundiária e ausência de políticas estruturantes, processos históricos que contribuíram para o êxodo rural e regional, aprofundando desigualdades sociais que até hoje impactam a vida da classe trabalhadora.

Essas marcas estão diretamente relacionadas ao racismo estrutural, à concentração de riquezas e à histórica marginalização dos povos negros, indígenas, sertanejos e das populações do campo e das periferias das cidades.

Ainda assim, o povo nordestino e baiano nunca deixou de resistir. Foi justamente dos territórios historicamente invisibilizados que emergiram culturas, conhecimentos, formas coletivas de organização, produção de riquezas e estratégias solidárias de sobrevivência que sustentam, até hoje, a força e a identidade do povo nordestino e baiano.

Comparar números sem considerar essas desigualdades históricas é ignorar o contexto social que produziu o Brasil desigual que conhecemos hoje.

O debate político precisa ser feito com seriedade, responsabilidade histórica e compromisso com a redução das desigualdades regionais e sociais.

Chega de humilhação como prática política. O que o povo baiano, nordestino e brasileiro precisam é da garantia de direitos, da promoção da equidade social e racial e da distribuição de riquezas a partir de políticas públicas estruturantes.

Precisamos construir um país, um Nordeste e uma Bahia onde todas as pessoas tenham acesso digno à educação de qualidade e contextualizada, saúde em sua plenitude, trabalho, terra, alimentos e oportunidades, sem preconceitos, discriminação, exclusão ou desigualdade.

Portanto, a crítica à humilhação como prática política só se torna completa quando reconhecemos que ela é herdeira direta das estruturas coloniais que moldaram o Brasil desigual.

Essa herança ainda se manifesta nas relações de poder e nas desigualdades sociais, mas pode ser transformada pela construção de uma democracia comprometida com a dignidade humana, a justiça social e a equidade racial.

Romper com a lógica da humilhação é também romper com séculos de desigualdades herdadas, e afirmar um projeto de país que valoriza sua diversidade, respeita seus territórios e garante direitos para todas as pessoas.

*Tatiana Veloso é engenheira agrônoma e professora-doutora em geografia e presidente das Voluntárias Sociais da Bahia

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artigo Política

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