OPINIÃO
Vamos! Tenham coragem para novos circuitos no Carnaval de Salvador
Após o trio de Ivete Sangalo reativar a Rua Carlos Gomes, o jornalista Jolivaldo Freitas clama por coragem política para descentralizar a festa

Bastou o trio de Ivete Sangalo ganhar vida própria e fazer o que ninguém fazia há tempos — sair da Praça Castro Alves em direção ao Campo Grande pela Rua Carlos Gomes — para eclodir um novo momento de euforia coletiva. Sem querer, ela deu um recado que merece ser ouvido com atenção pelas autoridades que planejam o futuro da maior festa popular do planeta.
Quando Ivete caçoou, dizendo que estaria inaugurando um circuito com seu nome, uma luz verde se acendeu. Quem acompanha a história da folia sabe de uma verdade incômoda: desde a gestão de ACM Neto, a Carlos Gomes deixou de ser rota de trios para virar área de passagem e ponto de urina.
A folia de Momo, que continuamente se reinventa, acomodou-se em dois únicos trechos grandes (Barra-Ondina e Campo Grande-Castro Alves). É interessante notar que circuitos como o do Santo Antônio Além do Carmo e o da Preguiça surgiram do povo, sem a participação das autoridades. Agora, ninguém os tira.
Senhores, o modelo atual chegou ao limite. Vemos os mesmos congestionamentos, os mesmos empurra-empurras e a mesma falta de inteligência logística. O Carnaval continua na mesmice, sufocado pela própria grandeza.
O Carnaval não pode ser um produto apenas para turistas.
Salvador tem áreas prontas para alargar a festa. O Comércio, com seu cenário cinematográfico, está sedento de animação. A Paralela possui a imensidão e a mobilidade do metrô. Patamares e Boca do Rio também poderiam ganhar vida nos dias de Momo. Falta vontade política e ousadia criativa.
O episódio com Ivete também escancarou a saudade que o baiano tem da "pipoca" — aquela folia democrática, sem cordas ou abadás. Nos anos 60, 70 e 80, a Carlos Gomes era um rio de gente livre. Criar novos circuitos não é apenas logística; é resgate social para quem sai de casa apenas com a grana do transporte e da cerveja.
A folia de Momo, que continuamente se reinventa, acomodou-se em dois únicos trechos grandes.
Nossa história é feita de rupturas: Dodô e Osmar criaram o trio; Moraes Moreira subiu para cantar; Luiz Caldas e Daniela Mercury deram vida ao Axé. Hoje, o roteiro é inverso: as autoridades ditam o script aos artistas.
Pode ser arriscado expandir, mas quem não ousa definha. O Carnaval não pode ser um produto apenas para turistas. Coragem para enfrentar novos caminhos! O trio de Ivete na Carlos Gomes reavivou a memória e a tradição. É hora de seguir esse passo.
*Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista. Membro da Academia de Cultura da Bahia (ACB) e conselheiro da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).
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