A TARDE BAIRROS
História do Comércio se confunde com a própria fundação de Salvador
Foi justamente nessa faixa litorânea que ocorreu o primeiro momento de fundação de Salvador

Muito antes de se consolidar como centro financeiro e comercial de Salvador, o Comércio já era o principal palco de chegadas e partidas da cidade. Toda a região era, literalmente, praia — e foi justamente ali que se deram os primeiros passos para a fundação da capital baiana.
“Salvador é, sobretudo, uma cidade portuária”, conta o historiador Murilo Mello. “Ela nunca foi uma cidade produtora. A produção vinha de outras partes do mundo, mas também do Recôncavo, do sertão, com fumo e açúcar. Salvador sempre viveu do porto e desse contato entre Europa, África e América.”
Essa vocação, segundo ele, explica por que aquela área da cidade sempre foi tão valorizada desde os primórdios. “O nome tradicional era Rua da Praia, porque a cidade era só a parte alta. A única praia que pertencia à cidade era aquela.”
Foi justamente nessa faixa litorânea que ocorreu o primeiro momento de fundação de Salvador. “Foi ali, na região da Conceição da Praia, que Tomé de Souza atracou em 1549 e realizou a primeira vistoria da parte terrena para a escolha do sítio onde seria fundada a fortaleza de Salvador”, explica o historiador Rafael Dantas.
No século XVI, toda a área que hoje vai da Gamboa à Bahia Marina, passando pela Conceição da Praia, Associação Comercial e arredores, era tomada pelo mar. “Tudo aquilo ali era praia”, enfatiza Dantas.
Além da posição estratégica, a região oferecia uma vantagem decisiva: abundância de água doce. “Era um local privilegiado, com várias fontes, cursos d’água e até pequenas cachoeiras que escorriam pelas encostas”, destaca o historiador. “Isso foi fundamental para o abastecimento dos navios que cruzavam o Atlântico.”
Murilo Mello reforça que a área praticamente nasce junto com a cidade. “Quando Tomé de Souza chega, tudo desembarca na Rua da Praia e precisa subir dali.” Segundo ele, essa dificuldade logística moldou a própria cidade. “Era muito difícil subir mercadoria. Por isso se constroem ladeiras e caminhos para levar a carga de forma mais rápida e segura.”
Foi nesse contexto que Tomé de Souza foi recebido por Caramuru e Catarina Paraguaçu. A partir desse momento, a área passou a ser usada prioritariamente para atividades portuárias, funcionando como porta de entrada da cidade.

CONEXÃO COM A FORTALEZA
Com o crescimento de Salvador, consolidou-se uma relação estrutural entre Cidade Alta e Cidade Baixa. “A fortaleza sempre esteve conectada à parte alta, onde ficavam o poder político, religioso e social, e à Cidade Baixa, onde estava o porto”, afirma Rafael Dantas. Mello complementa: “Não havia ocupação residencial ali. As pessoas moravam na Cidade Alta. A Rua da Praia sempre foi lugar de trabalho, de comércio, de circulação.”
O comércio surgiu como consequência direta dessa dinâmica. Murilo observa que, naquele período, nem existia um porto único. “Existiam os portos. Cada empresário tinha o seu trapiche, o seu ponto de atracação.”
Inicialmente conhecida como Porto de Salvador ou Rua da Praia, a área só passou a ser chamada de Comércio a partir do século XVIII, denominação que se consolidou nos séculos seguintes. E foi justamente nesse período que o bairro atingiu seu auge.
“No século XVIII, estamos falando de um dos maiores portos do mundo”, afirma Rafael Dantas. “Movimentava açúcar, fumo e o tráfico de pessoas escravizadas, produtos que sustentavam o comércio global daquele período.”
Segundo ele, Salvador disputava protagonismo com grandes centros internacionais. “Concorria diretamente com portos de Portugal, da Espanha, da Inglaterra e de Macau. Não é exagero dizer que Salvador equivalia a uma Nova York ou a uma Detroit da época, por causa do seu porto comercial.”
Murilo Mello concorda. “Todo o dinheiro circulava ali. Salvador vivia em função do porto.” Essa pujança se refletiu nas transformações urbanas. Desde o século XVI, sucessivos aterros foram realizados, já que o mar batia diretamente na encosta. “O mar lambia a Conceição da Praia”, lembra Murilo.
Nos séculos XVIII e XIX, surgiram grandes projetos de melhoramento urbano, muitos deles impulsionados pela Associação Comercial da Bahia. “É nesse período que aparecem os casarões pombalinos”, explica Dantas. “Eram edifícios de quatro ou cinco pavimentos, construídos por comerciantes, seguindo o estilo adotado na reconstrução de Lisboa.” A Casa dos Azulejos Azuis, onde hoje funciona a Casa da Música, é um dos poucos remanescentes desse conjunto arquitetônico.
No início do século XX, novas transformações profundas ocorreram, sobretudo durante o governo de J. J. Seabra. “Seabra assume em 1912 e encontra uma Bahia economicamente combalida”, explica Murilo. “Ele tenta dar uma injeção de modernidade.”
Foi nesse contexto que se ampliaram os aterros e se estruturou definitivamente o Comércio como hoje se conhece. “Esse aterro vai expandir o bairro, melhorar a ligação terrestre e impulsionar o crescimento.”

OS IRMÃOS LACERDA
É também nesse período que se consolida o novo Porto de Salvador, inaugurado em 1913. Quarenta anos antes, em 1873, outro símbolo definitivo da região já havia sido erguido: o Elevador Lacerda. “É o primeiro elevador de uso público do mundo”, afirma Dantas.
Murilo destaca o caráter pioneiro e privado da obra. “Foi um sonho dos irmãos Lacerda, investidores de Valença. Não teve dinheiro público. Foi uma obra ousada, caríssima.”
Rafael Dantas reforça o impacto financeiro do empreendimento: “Foi um investimento tão alto em mão de obra, maquinário e equipamentos que quase levou os irmãos Lacerda à falência. Dinamitar a encosta para implantar o elevador foi um trabalho hercúleo para a época”, afirma o historiador.
Inicialmente, o elevador tinha apenas uma torre. A segunda, em estilo art déco, só seria construída décadas depois. “Hoje, junto com o Farol da Barra, é a maior marca de Salvador”, diz Murilo.
Outro marco incontornável do Comércio é a Igreja da Conceição da Praia. “A primeira igreja, de palha, foi construída a mando de por Tomé de Souza”, explica Dantas. “Depois veio uma de alvenaria, cujas ruínas ainda estão lá dentro.”
A igreja atual, construída no século XVIII, é considerada uma das maiores obras de engenharia da América Latina colonial. “Todas as pedras vieram de Portugal”, explica Dantas. “Elas já vinham numeradas, com letras e símbolos, como um grande lego.”
Foi o próprio Rafael Dantas quem identificou esse sistema de encaixe, ao coordenar o projeto de Resgate dos Toques dos Sinos na Igreja da Conceição da Praia. “Foi ali que percebi que as pedras vieram todas de Portugal já cortadas, numeradas e com marcas específicas, como se fosse um grande manual de montagem”, relata.
Segundo o historiador, cada bloco possuía sinais que indicavam exatamente sua posição no conjunto arquitetônico, permitindo que a igreja fosse erguida em Salvador com extrema precisão. “Era um sistema de encaixe muito avançado para a época, que revela não apenas a importância econômica da cidade, mas também o nível de planejamento e de técnica envolvido naquela construção”.

DINÂMICA DOS TRAPICHES
A vocação portuária também explica a presença de trapiches, armazéns e mercados. “O trapiche era fundamental para guardar mercadorias de importação e exportação”, diz Murilo. Dantas lembra que ali se pesavam toneladas de açúcar e fumo, havia mercados de cavalos e intensa circulação de moedas estrangeiras. “Tinha banco de Londres, banco de Nova York.”
Na história do bairro, poucos equipamentos urbanos foram tão decisivos para a dinâmica econômica da cidade quanto os trapiches. Ligados diretamente à condição portuária de Salvador, eles funcionavam como grandes mercados e pontos centrais de circulação de mercadorias, pessoas e dinheiro.
O Mercado Modelo, por sua vez, só surge no início do século XX, também vinculado às reformas de Seabra. Em 1971, no entanto, foi transferido para o imóvel atual — que funcionava como Alfândega — após o antigo mercado ser atingido por incêndios.
“Depois de incêndios no antigo mercado, os feirantes foram levados para lá, o que acabou salvando o prédio.” Ele também desmistifica histórias populares. “Nunca houve comércio de escravizados ali. Aquela parte inferior era para armazenar mercadorias sensíveis ao sol, como vinho.”
PERDA DE PROTAGONISMO
Com o avanço do século XX, porém, o Comércio começa a perder protagonismo. “A partir das décadas de 1960 e 1970, com a construção do Centro Administrativo, do Iguatemi, da rodoviária e das avenidas de vale, a cidade se espalha”, explica Murillo. “O centro perde circulação de pessoas e força econômica.”
Ainda assim, ambos os historiadores acreditam em um novo ciclo. “É um caminho quase inevitável”, diz Murilo. “Em várias cidades do mundo, as áreas portuárias voltaram a ser valorizadas.”
Para Rafael Dantas, entender o passado é essencial para pensar o futuro. “De todos os lugares de Salvador, o Comércio foi o que mais passou por transformações urbanas. Conhecer essa história é fundamental para compreender o papel que ele ainda pode voltar a ter na cidade.”
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