AUTOS
Automáticos de até R$ 120 mil apliam presença no mercado de automóveis
Motores turbo avançam na base, CVT domina entre compactos e elétricos, e SUVs ganham espaço entre os modelos de entrada

O avanço dos motores turbo nas versões de entrada, o domínio do câmbio CVT entre os compactos e a chegada de elétricos e SUVs às faixas mais acessíveis redesenham o mercado brasileiro em 2026. O carro automático deixou de ser item restrito às versões mais caras, mas passou a operar em um novo piso: dificilmente abaixo dos R$ 100 mil.
Levantamento do A TARDE AUTOS, com base em dados de sites de montadoras e publicações especializadas, identificou modelos com transmissão automática — ou, no caso dos elétricos, com condução sem troca de marchas — por até R$ 120 mil, um recorte que revela não apenas preços, mas uma mudança estrutural no perfil dos veículos de entrada.
Esse novo patamar de preços, no entanto, não representa necessariamente uma distorção recente. Segundo o especialista em mercado automotivo, doutor em administração e diretor da Place Logistics, Eder Polizei, a comparação histórica ajuda a entender o cenário atual. “Um carro popular da década de 1990, corrigido pela inflação, já se aproximaria hoje dos R$ 80 mil, mesmo sem itens básicos de segurança e tecnologia. Ao incorporar equipamentos que hoje são padrão, como controles eletrônicos e centrais multimídia, o valor naturalmente se aproxima dos R$ 100 mil”, afirma.
Fiat Argo Drive 1.3 CVT
Entre os modelos a combustão, o Fiat Argo Drive 1.3 CVT parte de R$ 107.790 e mantém a proposta de entrada com motor aspirado, priorizando consumo e baixo custo de manutenção.
Outro representante da popularização dos motores turbo é o Citroën C3 You!, vendido na faixa de R$ 107 mil a R$ 110 mil. Combinado ao câmbio CVT, o conjunto entrega mais eficiência e desempenho, reforçando uma tendência que antes estava restrita a versões intermediárias.
Já o Peugeot 208 Active Turbo parte de cerca de R$ 109 mil e se diferencia pelo desempenho superior proporcionado pelo motor turbo, com respostas mais rápidas no uso urbano e rodoviário. A adoção de motores turbo, segundo Polizei, está ligada à busca por eficiência e escala. “Os motores são hoje projetados para operar com turbo desde a origem, o que garante melhor desempenho em baixas rotações, menor consumo e redução de emissões. Com a produção em larga escala, essa tecnologia deixou de ser exclusiva e passou a equipar também modelos de entrada”, explica.
Entre os modelos que avançam um pouco na faixa de preço, o Citroën Basalt Feel Turbo CVT é ofertado na faixa de R$ 112 mil a R$ 115 mil e amplia a presença dos SUVs na base do mercado. Com motor turbo, maior espaço interno e proposta versátil, o modelo evidencia o avanço da “SUVização” também nos segmentos mais acessíveis.
Esse movimento também tem explicação estrutural. “Os SUVs atuais são, em muitos casos, derivados de plataformas de carros de passeio, com estrutura monobloco. Isso reduz custos de produção e permite oferecer um veículo mais alto, com conforto semelhante ao de um sedã, atendendo ao uso urbano, que é predominante”, analisa o especialista.
Já o Chevrolet Onix Turbo AT é vendido na faixa de R$ 113 mil, mantendo o equilíbrio entre consumo, desempenho e conforto, o que explica sua presença recorrente entre os modelos mais vendidos do país.
Outro fator que ajuda a consolidar o avanço dos automáticos é a escala produtiva. “À medida que as montadoras aumentam o volume de produção, o custo unitário das transmissões automáticas cai significativamente. Em alguns casos, já é mais viável produzir versões automáticas do que manuais, que tendem a ficar restritas a nichos específicos”, afirma Polizei.
Elétricos: outra lógica
Os modelos elétricos aparecem nesse recorte por dispensarem a troca de marchas, embora não utilizem câmbio convencional. Nesses veículos, o torque é entregue de forma imediata, o que elimina a necessidade de múltiplas relações de transmissão e altera a forma de condução em relação aos modelos a combustão.
Nesse contexto, o Renault Kwid E-Tech parte de R$ 99.990 e se posiciona como uma das opções elétricas mais acessíveis do país, com proposta essencialmente urbana. Já o BYD Dolphin Mini, vendido na faixa de R$ 115 mil, amplia esse alcance ao oferecer maior autonomia, próxima de 280 km, e um pacote tecnológico mais amplo.
Apesar do avanço, o segmento ainda enfrenta desafios. “Os modelos chineses mudaram a dinâmica do mercado, mas a questão do valor de revenda ainda é um ponto sensível para o consumidor brasileiro, que tradicionalmente considera esse fator na decisão de compra”, pondera Polizei.
O conjunto mostra que o câmbio automático se consolidou como padrão nas versões de entrada dos modelos a combustão, impulsionado pela rotina urbana e pela evolução das transmissões. Em paralelo, elétricos e motores turbo passam a disputar espaço diretamente com os antigos hatches aspirados, enquanto SUVs deixam de ser exceção na base do mercado. Na prática, o consumidor encontra mais tecnologia e diversidade, mas dentro de um novo patamar de preço, que redefine o conceito de carro popular no Brasil.
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