Unidas e Localiza voltam a crescer e anunciam fusão

Publicado quarta-feira, 30 de setembro de 2020 às 06:06 h | Atualizado em 29/09/2020, 23:01 | Autor: Lúcia Camargo Nunes | São Paulo

O mercado foi pego de surpresa na quarta-feira, 23, com a notícia da possível fusão de Unidas e Localiza, o que pode criar uma gigante no segmento de locação, incluindo não apenas o aluguel de veículos, mas os serviços de carros por assinatura e gestão de frotas. Como ambas são empresas de capital aberto, a operação ocorrerá por meio da incorporação de ações. Contudo, está condicionada à aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

“O mercado de aluguel de carros é altamente competitivo, tem mais de 10 mil locadoras e se renova a cada momento. A união das duas companhias contribuirá para a criação de uma operação mais robusta, garantindo maior acesso à mobilidade e acompanhando a evolução e os desafios do segmento”, afirma Luís Fernando Porto, CEO da Unidas.

A nova empresa deverá contar com uma frota de mais de 468 mil veículos, presença em 404 cidades e atuação na América do Sul. A receita da empresa combinada nos últimos 12 meses foi de R$ 14,3 bilhões e o valor de mercado consolidado, de R$ 48 bilhões.

Para o economista e consultor automotivo Raphael Galante, é preciso acompanhar se o Cade vai aprovar uma empresa que poderá ter até 70% do mercado. Exceto pela Movida, que também tem forte atuação no Brasil, as demais são empresas pequenas e médias. “O grande impacto para o consumidor, que assistia a uma guerra de preço muito forte, é ter menos promoções e menos tarifas com descontos”, avalia. “A aposta será nas frotas terceirizadas. Muitas empresas venderam seus ativos (carros) para ter liquidez em seus negócios. Melhor alugar carros do que deixar esse patrimônio imobilizado, com todos os custos envolvidos”, observa o economista.

Impacto das eleições

Para Rogéria Vianna de Alencar, diretora regional na Bahia da Abla (associação que representa o setor no país), hoje as locadoras enfrentam, entre as dificuldades, a escassez de veículos novos, provocada pela produção reduzida das montadoras, em função da pandemia da Covid-19.

Em época de eleição, há maior uso de carro alugado no Brasil todo

“Existe uma alta demanda por motoristas de aplicativos e de pessoas físicas, que evitam usar o transporte público. E na Bahia ainda temos a demanda de transporte intermunicipal, principalmente das pessoas que viajam muito para o interior. A maioria das locadoras está com pátios vazios”, relata Rogéria. “Temos, então, o evento das montadoras, da pandemia e político, porque historicamente em época de eleição há maior uso de carro alugado por conta da propaganda eleitoral. O mercado está muito aquecido, não só na Bahia como no Brasil inteiro”.

A diretora da Abla na Bahia diz que também voltou a ter uma boa procura no segmento de turismo. “Recebemos pedidos de clientes em hotéis, passeando, a trabalho vindo de outros estados. Esse turismo, que zerou no início da pandemia, já cresceu. O valor da locação caiu nos meses mais críticos e está voltando à normalidade. Para motoristas de aplicativo, por exemplo, houve empresas que cobraram R$ 30 por mês, só para ter o carro rodando”.

Nesse cenário, ela destaca pequenas e médias empresas que venderam seus veículos para sobreviver à pandemia. “Algumas fazem conta se vale a pena alugar por mês ou apenas alguns dias específicos. Já o cliente que é motorista de aplicativo está voltando. Muitos deles estão desempregados, alguns no seguro-desemprego ou recebendo o auxílio emergencial. Boa parte que já era motorista devolveu o carro e agora retorna ao trabalho. Assusta porque estão voltando de uma vez só”, avalia. “E as pessoas físicas estão fazendo cálculos, alugam por mês ou por ano, o que é mais econômico, ou até aluguel eventual. Esse nicho que já vinha crescendo está crescendo mais, algo em torno de 30%”, calcula Rogéria.

“Esperamos que no início de 2021 as montadoras retomem a produção, que o mercado se regularize, as eleições já passaram, a pandemia já tenha diminuído com a vacina, e aí tudo volte à nova normalidade”, estima a diretora regional.

Questionada pelo A TARDE Autos, a Unidas, que não declara informações quantitativas nem regionalizadas, informou por meio de sua área de comunicação que, até obtenção das aprovações necessárias para a consumação da operação, as empresas continuarão a atuar de forma independente em todos os locais onde estão presentes. “Depois disso, esperam se tornar referência global em mobilidade e contribuir para a transformação desse mercado cada vez mais competitivo”, concluiu.

Mercado em expansão

Já a Localiza esclarece que na Bahia possui 33 agências de aluguel de carros. A locadora lançou neste mês o novo serviço Meoo, de carros por assinatura, com planos de até 48 meses e que promete uma economia de até 30% ao usuário em relação à posse do veículo. “A Localiza percebe que as pessoas estão cada vez mais priorizando a posse em detrimento do uso. Com a pandemia, o carro se tornou uma alternativa segura de transporte. Soluções como carro por assinatura e aluguel mensal têm conquistado um espaço cada vez maior na jornada de mobilidade da sociedade. O turismo doméstico também ganhou protagonismo nesse momento, em que as pessoas estão preferindo viajar de carro para destinos mais próximos de onde moram, com mais segurança e flexibilidade”, informou a companhia.

Entre as soluções oferecidas, além do Meoo, existe o Mensal Flex, aluguel mensal para pessoas físicas; aluguel para viagens curtas ou outras necessidades imediatas e o aluguel para motoristas de aplicativo, por meio do Localiza Driver. “Apesar do impacto gerado pela pandemia, a Localiza já percebeu uma retomada de seus negócios, como demonstrado nos resultados do 2º trimestre de 2020, reportados no final de julho. Depois do período de maior queda de demanda, ocorrido em abril, a empresa reportou um aumento progressivo da frota alugada em maio e junho, fechando o trimestre nos patamares de 2019 no Aluguel de Carros e superiores ao ano de 2019 na Gestão de Frota”, relatou a empresa.

Em junho de 2020, a divisão de aluguel de carros da companhia estava com taxa de utilização em 60,7%, 7,7 pontos percentuais maior que em abril, já mostrando recuperação dentro do trimestre. A divisão de gestão de frotas se firma como a mais resiliente nesse cenário. A receita aumentou 14,8% em relação ao 2º trimestre de 2019. A frota média alugada continua em crescimento, 14,4% maior quando comparada ao mesmo período do ano anterior. O resultado sugere que a terceirização vem se tornando uma tendência para as empresas, que cada vez mais percebem os benefícios da terceirização de frotas como solução de mobilidade.

A companhia expressa otimismo, pela tendência de mudança de comportamento do uso em detrimento à posse de determinados bens. Seguindo o movimento percebido em países da Europa e na China, o turismo doméstico também já tem demonstrado grande potencial de ganhar cada vez mais espaço no turismo brasileiro, fomentando o setor de aluguel de carros.

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