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22/03/2023 às 5:45 - há XX semanas | Autor: Alan Rodrigues

Alagoinhas atrai indústrias de bebidas e vira polo nacional

Com fontes de alta pureza e baixa acidez, município baiano se destaca como 'melhor água do Brasil'

Unidade da Itaipava, do Grupo Petrópolis, integra polo de bebidas
Unidade da Itaipava, do Grupo Petrópolis, integra polo de bebidas -

Uma riqueza que brota da terra – ou melhor, do subsolo – tornou-se o elemento fundamental para o surgimento de um polo industrial de grande porte em Alagoinhas, a 128 quilômetros de Salvador. Hoje, a cadeia produtiva que tem como matéria-prima a água da cidade responde por 50% da arrecadação do município e emprega mais de 5 mil trabalhadores de forma direta.

A água de Alagoinhas é reconhecida como a melhor do Brasil e a segunda melhor do mundo para a fabricação de bebidas, graças à pureza, à baixíssima alcalinidade e ao ph perto de neutro, quase sem acidez. Hoje, são três fábricas instaladas na cidade e uma quarta está a caminho. Somente em cervejas, a cidade produz, por ano, 13,8 milhões de hectolitros, ou 1,38 bilhão de litros das mais variadas marcas.

Coube à então Schincariol – depois Brasil Kirin, mais tarde adquirida pela Heineken – colocar a pedra fundamental desse bilionário polo de bebidas, no final dos anos 1990. “A qualidade da água de Alagoinhas foi o que atraiu essas empresas”, afirma o prefeito Joaquim Neto (PSD). “Primeiro Schincariol, depois Itaipava (Grupo Petrópolis), Heineken e junto com elas outras cervejas e fábricas de água e refrigerantes.”

Pureza

De acordo com ele, uma das vantagens da água de pouca acidez presente no município é a simplificação dos processos de fabricação. “A pureza da água é tanta que para fazer refrigerantes não precisa acrescentar praticamente nada”, atesta o prefeito. O gerente de negócios da Itaipava para a Bahia e Sergipe, Sérgio Pinheiro, confirma: “a água extraída vem mais purificada, com ph maior, e precisa de menos ingredientes para fazer a mineralização”, explica.

A produção anual de refrigerantes (3,36 bilhões de litros) e água mineral (600 milhões de litros), além de energéticos e sucos, movimenta a economia local e gera oportunidades. Em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), o município investe na formação de mão-de-obra e colhe os frutos da criação de empregos com massa salarial acima da média, o que se reflete em bons resultados nos setores de comércio e serviços. “A gente não quer só o chão de fábrica, quer ver nossos trabalhadores subindo os degraus”, diz o prefeito.

Cidade quer ser capital da cerveja

A qualidade da água de Alagoinhas não atrai apenas as indústrias de bebidas, mas toda uma rede de fornecedores de insumos que contribuem para o crescimento da economia da região. São fábricas de embalagens plásticas, tampinhas, latas e anéis de alumínio, caixas plásticas para transporte e armazenamento, bem como de mesas e cadeiras também plásticas.

Toda essa produção, além de gerar 5,3 mil empregos diretos, segundo a prefeitura, movimenta também o setor de logística, um verdadeiro “polo carreteiro”, como diz o prefeito, de onde parte a distribuição para todo o Norte/Nordeste e norte de Minas Gerais, pelas BRs 101 e 110, que passam pela cidade.

E as empresas não param de chegar. “Somos instados a todo instante com sondagens de novas empresas de bebidas”, revela o prefeito Joaquim Neto. Desde 2021, a fábrica de refrigerantes, sucos e energéticos Dore negocia a instalação de uma fábrica no município, que se encontra em fase de projeto.

Qualidade da água pesou na decisão da Dore de se instalar em Alagoinhas
Qualidade da água pesou na decisão da Dore de se instalar em Alagoinhas | Foto: Divulgação

“O que pesou no desejo de se instalar em Alagoinhas foi justamente a questão da água”, afirma o gerente de negócios Bahia e Sergipe da Dore, Sérgio Pinho. “A água da cidade precisa de menos processamento, a qualidade é melhor e nosso concorrente direto está lá (Grupo São Miguel, dos refrigerantes Goob).”

A movimentação de toda essa produção gera para o município uma arrecadação superior à do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). São R$ 200 milhões, mais da metade de toda a receita da cidade. E há espaço para crescer. “Nós temos um mar debaixo da gente”, diz o gestor municipal, referindo-se aos Aquíferos São Sebastião e Tucano, de onde vem a água tão valiosa.

Joaquim Neto já levou para o secretário estadual de Turismo, Maurício Bacelar, a proposta de fazer de Alagoinhas a capital nacional da cerveja e de criar um festival no município, nos moldes da Oktoberfest de Santa Catarina.

“Já temos o compromisso do governador Jerônimo Rodrigues (PT) de trazer um aeroporto para Alagoinhas e queremos tornar a cidade um polo turístico com a criação da rota da cerveja”, projeta o prefeito.

Produção artesanal também é destaque

Não são apenas grandes indústrias que movimentam a fabricação de cervejas em Alagoinhas. A presença de cervejarias conhecidas e a qualidade reconhecida da água estimulam amantes da bebida a investir no desenvolvimento e produção de cervejas artesanais.

A cidade abriga pelo menos 30 pequenos produtores da bebida. É o caso do contador Alan Madureira, que há dez anos se aventurou a produzir a própria cerveja. Consumidor e apreciador de cervejas especiais, ele comprou seu primeiro equipamento em 2013, com capacidade para produzir 20 litros por vez.

“Sabendo que as cervejarias estavam se instalando na cidade, tive o interesse de aprender sobre a fabricação”, lembra.“Aproveitei que nossas fontes têm uma água que vem praticamente pronta, basta tirar o cloro.”

Madureira passou a comercializar a cerveja em eventos e, hoje, sua marca “Hart”, cerveja tipo ‘ale’ (mais encorpada) rende ao cervejeiro-contador entre R$ 4 mil e R$ 5 mil por mês.

Atualmente, ele possui um equipamento capaz de produzir 150 litros simultaneamente, ou 4,5 mil litros por mês, mas só tem produzido por encomenda ou em ocasiões especiais. “Não vivo disso, mas é um aditivo importante.”

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