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Arte da produção de saveiros resiste

Publicado sábado, 08 de março de 2008 às 18:45 h | Atualizado em 08/03/2008, 20:27 | Autor: Cristina Santos Pita, da sucursal Santo Antônio de Jesus
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Ao chegar à baía de Camamu (a 335 km de Salvador, no baixo sul baiano), o  visitante pode estranhar a idéia de um estaleiro em meio a rios e manguezais. Mas no Porto de Camamu e no povoado de Cajaíba do Sul, a 8 km da sede, concentram-se os resistentes estaleiros para a construção artesanal de embarcações.

Em Cajaíba do Sul a economia está voltada, além da pesca, para a calafetagem, marcenaria e pintura de escunas e saveiros. O povoado é conhecido no mundo todo, pois é nele que se produz a  maioria das escunas e saveiros que hoje estão espalhados pelo Brasil e fora dele.

Tradição – Num dos mais famosos estaleiros da região, o Camarada, que fabrica belas embarcações de madeira, instalado na Marina São Jorge, no Porto de Camamu, mestre Elpídio Souza Caetano, 65 anos, controla de perto o avanço dos trabalhadores. Os calafates dão o acabamento no casco, um trabalho bastante árduo, que é feito com martelo e formão.

Já no meio do rio, os pintores estão trabalhando na manutenção do convés. Em um ano o saveiro deve estar totalmente pronto para ser usado pelo cliente. O valor total do trabalho: R$ 1 milhão. “Eu construo o casco, que custa R$ 300 mil. Pago aos trabalhadores, compro a madeira”, conta o mestre Elpídio Caetano. Os saveiros garantem a sobrevivência dos mestres artesãos do Recôncavo e do baixo sul.

“Antigamente aqui eram construídos barcos de pesca e de carga e os saveiros, que escoavam a produção de tabaco e açúcar do Recôncavo e o azeite-de-dendê do litoral”, conta o mestre Elpídio. Hoje em dia, equipados também com motores potentes, eles marcam presença nos centros turísticos do litoral brasileiro como barcos de lazer. Ninguém ensinou ao mestre Elpídio como um saveiro deve ser construído.

Ele conta que tirou as idéias olhando os outros barcos e o tempo de vida no mar colaborou. “Vivo disso há 43 anos e aprendi com o tempo, que não muda. Nenhum barco afundou até hoje”, diz mestre Elpídio, que é conhecido como o maior construtor de barcos da Bahia. “Ganhei nome, mas perdi três dedos na plaina”.

O estaleiro Camarada é  o maior estaleiro da Bahia, com 30 máquinas de carpintaria nas oficinas, 15 empregados e encomendas de todo o Brasil e do  exterior. “Estamos construindo saveiros para o Rio de Janeiro, Caribe, e dois para Angola”, relata mestre Elpídio.

Os mestres de Camamu, assim como de Valença, Cachoeira, Maragojipe usam, além do machado e do enchó, o graminho, tábua que fornece os parâmetros e as escalas diferenciadas para a construção de saveiros e dá ao barco a  homogeneidade de forma que tinham no passado.

Mestre Elpídio conta que também conseguiu achar saída para um dos problemas que ameaça a sobrevivência dos pequenos e rudimentares estaleiros baianos: a falta de madeira. Ele está mandando buscar a madeira no Pará . “Não podemos extrair a madeira da região, apenas o oiti e o conduru, usadas para a quilha e o mastro, além da jaqueira”.

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