BAHIA
Bahia tomba dois terreiros de candomblé como patrimônio cultural
Decreto amplia proteção a espaços históricos de Salvador e Itaparica


Dois dos mais tradicionais terreiros de candomblé da Bahia passam a contar com proteção legal do Estado. O Omo Ilê Agboulá, na Ilha de Itaparica, e o Ilê Asé Kalé Bokún, no bairro de Plataforma, em Salvador, foram tombados como patrimônio cultural material da Bahia.
O decreto publicado no Diário Oficial do Estado, na quinta-feira, 23, inclui os dois espaços no Livro de Tombamento de Bens Imóveis do Estado e reconhece seus valores histórico, arquitetônico, cultural e simbólico.
O objetivo é preservar locais considerados referências da ancestralidade, da memória e das tradições religiosas de matriz africana.
Omo Ilê Agboulá preserva culto aos ancestrais
Localizado na Ilha de Itaparica, o Omo Ilê Agboulá é reconhecido como a principal referência do culto aos egúngun no Brasil e abriga a mais antiga comunidade em funcionamento contínuo dedicada ao culto dos ancestrais.
De acordo com o dossiê técnico elaborado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), a origem do terreiro está ligada à preservação dos assentamentos rituais de antigas casas religiosas de Vera Cruz, Mocambo, Tuntum e Encarnação, confiados à família Daniel de Paula após o encerramento das atividades desses espaços.
Essa trajetória faz da comunidade uma guardiã de tradições religiosas que remontam ao início do século XIX, com a chegada de africanos iorubás da região de Oió ao Brasil.
Segundo a tradição oral, o patrono da casa, Babá Agboulá, foi invocado pela primeira vez no fim do século XIX. A organização institucional do terreiro ocorreu entre as décadas de 1920 e 1930.
Antes do novo decreto, o Omo Ilê Agboulá já possuía reconhecimento como Patrimônio Imaterial da Bahia e, desde 2015, também é considerado Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Kalé Bokún mantém viva a tradição ijexá
Também incluído na lista de bens protegidos pelo Estado, o Ilê Asé Kalé Bokún é considerado a principal referência da tradição ijexá no Brasil e o único terreiro dessa nação que permanece em funcionamento contínuo desde sua fundação.

Criado pelo babalorixá Severiano Santana Porto, o terreiro possui registros oficiais de 20 de agosto de 1933, embora suas origens sejam atribuídas ao fim do século XIX, por volta de 1896.
A comunidade surgiu a partir de um grupo de africanos ijexá que deixou a região central de Salvador e se estabeleceu no Subúrbio Ferroviário.
Durante o período de repressão às religiões de matriz africana, entre as décadas de 1920 e 1940, a comunidade criou a Sociedade Beneficente Cultural e Recreativa São Miguel como forma de proteger e fortalecer suas práticas religiosas.
Entre as tradições preservadas pela casa estão o ritual do Otun, responsável pela renovação do axé, e o culto às gueledés, celebração ligada ao poder ancestral feminino considerada uma prática em risco de desaparecimento no país.
Tombamento amplia proteção ao patrimônio cultural
Os dois reconhecimentos fazem parte de uma série de tombamentos aprovados pelo Governo da Bahia com base em estudos técnicos elaborados pelo IPAC e validados pelo Conselho Estadual de Cultura.
Na semana passada, também receberam proteção estadual o Terreiro Ilê Axé Onirê, de nação Ketu, em Santo Amaro, o antigo Grupo Escolar J. J. Seabra, atual sede do Museu Regional de Arte de Feira de Santana, e o edifício da Câmara de Vereadores de Valença.
O tombamento é um dos principais instrumentos de preservação do patrimônio cultural brasileiro. A medida garante a conservação das características dos bens protegidos e contribui para preservar a memória, a diversidade cultural e as tradições históricas da Bahia.