“Ainda estamos muito longe de uma real democracia racial”, diz ator Jorge Washington

Publicado quarta-feira, 20 de novembro de 2019 às 13:05 h | Atualizado em 20/11/2019, 16:22 | Autor: Shagaly Ferreira*

Para além das diversas comemorações que acontecem por conta do Dia da Consciência Negra em Salvador e em todo o Brasil, a data também é cercada por uma série de reflexões sobre a vivência e a experiência de ser negro em um país que traz a marca da escravidão na história de sua formação populacional. Uma dessas questões se refere aos discursos que questionam a existência de uma democracia racial entre a população brasileira, tese que foi sustentada culturalmente por muito tempo e que vem sendo constantemente debatida pelos movimentos negros.

Dono de uma trajetória que aliou por quase 40 anos a militância e os palcos, o ator Jorge Washington, 56, aponta que, apesar dos avanços conquistados através de muitas lutas travadas por esses movimentos, o Brasil ainda está muito longe de uma real democracia racial. Durante uma entrevista ao Portal A TARDE, nesta quarta-feira, 20, o artista alertou para os perigos de um retrocesso dos direitos adquiridos pelos negros ao longo dos anos, apontando para a necessidade de suas demandas serem debatidas para além da ocasião do Novembro Negro.

“Temos muito a comemorar, mas estamos ainda muito longe de uma real democracia racial. Os processos de luta são muitos. Há muitos avanços, como o sistema de cotas, por exemplo, em que as universidades têm conseguido um equilíbrio, mesmo longe do ideal. Há um retrocesso batendo na nossa porta, mas temos resistido por conta de todo o processo de afirmação que o Movimento Negro vem pregando. Outro fato é o 20 de novembro ser comemorado como Dia da Consciência Negra, e não o 13 de maio, que tinha a Princesa Isabel como grande figura do povo negro. Hoje, temos a figura de Zumbi dos Palmares, de Dandara dos Palmares e várias outras como símbolo de resistência. É uma discussão que deve ser feita no cotidiano, não só em um dia e em um mês”, pontuou.

Estereótipos negros

Washington destacou a importância de que o negro possa fazer de cada espaço um lugar de militância, isso inclui também a representação de personagens para o ator, desde os palcos teatrais até as grandes produções televisivas. Para ele, na televisão, apesar de os personagens negros ainda estarem atrelados a alguns estereótipos negativos, certos avanços podem ser percebidos em relação à reação do público, que repercute negativamente diante de tentativas de reforço desses estigmas. Por ainda não vislumbrar um trabalho mais cuidadoso com relação à representação negra na TV, o ator deixou de aceitar papéis em novelas.

“Na televisão, houve o caso da novela gravada na Bahia, ‘Segundo Sol’, que não tinha atores negros. Com a grande repercussão, a direção da novela teve que contratar às pressas atores negros. Inclusive, eu fui convidado, mas não quis, pois eu entendo que a televisão hoje não forma, ela deforma. Você tem alguns atores que brigam contra isso, como Lázaro Ramos, Taís Araújo, Érico Brás e outros que têm feito esse enfrentamento dentro das grandes redes, mas ainda é muito pouco. Eu sei que a sobrevivência é importante, mas não tem como negociar. Eu não teria coragem de fazer um papel estereotipado e ir para uma comunidade fazer uma palestra afirmativa”, explicou.

Tendo o teatro como um espaço de luta, o ator tem como princípio participar de obras em que consiga fazer uma troca com a plateia através do lúdico e do encantamento, a fim de poder tocar mais rapidamente o espectador. Integrante do Bando de Teatro Olodum desde sua fundação, em 1990, o ator destaca o trabalho do grupo teatral na ressignificação de personagens que acionam outras narrativas e possibilidades de representação dos negros.

“Não tem como o Bando ir para o palco levando um personagem estereotipado. Recentemente, a gente recebeu um presente de Elísio Lopes Jr., um espetáculo para a abertura do Novembro Negro da Sepromi ,no TCA. O texto fazia uma linha do tempo mostrando como as leis foram criadas no Brasil para nos oprimir, como são racistas. Há um personagem indígena que foi representado sem estereótipos. Tem que ter esse olhar, esse cuidado com um personagem homossexual, tem que ter um cuidado com um personagem idoso, você não pode ir para o palco estereotipar esses personagens porque eles não são estereótipos”, alertou.

Democracia quilombola

Há três anos trabalhando com um projeto de culinária musical que alia gastronomia, música e memória afetiva, Jorge Washington defende o empreendimento e a circulação de recursos entre o povo negro como forma de resistência. Ele aponta que, assim como as pessoas viviam no Quilombo dos Palmares, em uma democracia quilombola, tal convivência deve espelhar os descendentes destes povos na atualidade.

“Todos os que estavam à margem da sociedade se encontravam em Palmares. Há relatos de trocas comerciais com as comunidade do entorno. Então, é um legado para gente se espelhar. Está provado que o melhor espaço para você viver é uma democracia, onde se respeita a diferença. É a melhor forma de se produzir, de ter uma qualidade de vida. Quando a comunidade negra se espelha nessa democracia que é o quilombo, que é Palmares, e reafirma a nossa herança, reafirma também o nosso legado de resistência e de afirmação. Isso só fortalece a nossa causa”, finalizou.

*Sob a supervisão da editora Keyla Pereira

Publicações relacionadas