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Aos 86, escritor cego produz na pandemia

Bruna Rocha | Agência Mural
Por Bruna Rocha | Agência Mural
Aloísio Pimentel usa bem os seus dias: exercita-se diariamente por uma hora e meia, leciona, grava conteúdo para YouTube e Instagram e escreve livros e poemas | Foto: Bruna Rocha | Agência Mural
Aloísio Pimentel usa bem os seus dias: exercita-se diariamente por uma hora e meia, leciona, grava conteúdo para YouTube e Instagram e escreve livros e poemas | Foto: Bruna Rocha | Agência Mural - Foto: Bruna Rocha | Agência Mural

Com 86 anos, o escritor Aloísio Pimentel pratica diariamente uma hora e meia de exercícios físicos, leciona, grava conteúdo para o YouTube e ainda produz livros e poemas. Somente no período da pandemia, o morador do Nordeste de Amaralina, em Salvador, produziu sete livros e 80 poesias, superando as limitações causadas por um glaucoma, que o fez perder a visão.

“Precisei sustentar minha família cedo e não me restava tempo para escrever. Hoje percebo que a minha inspiração só surge em meio às muitas experiências e leituras que fiz e vivi”, diz Pimentel.

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Nascido em agosto de 1934, na cidade de Amargosa, no centro-sul da Bahia, o escritor mudou-se para a capital ainda bebê. Contudo, continuou a visitar a cidade natal, onde o interesse pela escrita surgiu.

“Eu amava sentar no banquinho da cidade de Amargosa e contemplar a beleza da região, quando um dia fiquei intrigado com o nome da cidade e escrevi uma poesia, ‘Amargosa’”, conta.

Aos 17 anos, já escrevia crônicas e poesias, mas, aos 19, precisou se afastar da literatura por questões financeiras e passou a trabalhar na construção civil. “Não tive mais tempo de fazer poema, nem escrever nada, porque usava o tempo justamente para trabalhar de dia e estudar à noite”, conta.

Anos depois, trabalhando na contabilidade, volta e meia Pimentel arranjava tempo livre para suas escritas e chegou a ser um dos cronistas na Rádio Sociedade da Bahia. Seu primeiro livro foi publicado há seis anos, pela editora Letra: “Viração: amor, amizade paixão e sofrimento”.

Em 2018, lançou o livro “Carnaval de Salvador: crônicas de um folião”, que conta a história do Carnaval baiano, suas curiosidades e o que aconteceu na festa de 1940 até os dias atuais. Depois, escreveu o livro “Contos que não são de fada”, que ainda não foi editado.

Hoje, aposentado e vacinado contra a Covid-19, o escritor dedica as suas noites e madrugadas à sua produção literária. Para a filha do escritor, a professora Luciana Pimentel, 53, a literatura mostrou novas perspectivas para o futuro do pai.

“Com o encerramento das atividades presenciais no escritório de contabilidade, precisamos encontrar outras atividades para painho, e por isso decidimos investir no projeto literário”, explica Luciana, falando do apoio dado a ele. “Aos poucos fui motivando e mostrando novas possibilidades de ele enxergar além dos olhos. A partir daí, ele criou novas expectativas e percebeu que a vida não acaba depois de se aposentar ou encerrar um negócio. Percebeu que a gente, independentemente da idade, pode começar um novo negócio e ter novas perspectivas, podendo isso ser tão bom quanto o que fazia antes”, diz ela.

Por conta da perda da visão, Pimentel conta com alguns auxiliares no processo de materialização dos livros e na produção de conteúdos para seu canal no YouTube e seu Instagram, onde fala sobre assuntos como política e a pandemia.

Um dos seus colaboradores é Luís Lago, 26, estudante de letras pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ele transcreve as gravações realizadas por Pimentel e monta a estrutura dos livros. Lago também cuida das redes sociais do escritor e organiza a agenda de postagens.

“Enxergo nossa relação como uma oportunidade e um desafio, pois é uma pessoa jovem, contemporânea de um senhor de 86 anos, de uma geração completamente diferente da minha. Mas é um aprendizado mútuo, porque apresento meu mundo, com as novas tecnologias, e aprendo quando ele traz realidades de outras épocas”, diz Lago.

Lago diz que a ligação entre eles foi imediata. “No meu primeiro contato com o senhor Aloísio aconteceram grandes conexões. A princípio, por ele ser apaixonado e amante da literatura, segundo por ter um fascínio enorme por produções literárias, questões históricas e críticas sociais. Então, foi uma comunhão imediata”.

Para adquirir uma obra do escritor Aloísio Pimentel, é preciso entrar em contato pelo Instagram ou pelo telefone (71) 8152-9414.

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