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Bahia Azul teve pane parcial de 3 meses, diz Embasa

Publicado domingo, 05 de novembro de 2006 às 18:29 h | Atualizado em 05/11/2006, 18:29 | Autor: Vitor Pamplona
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*Infografia: Veja como funciona o tratamento de esgoto na cidade



Equipamento vital no sistema de esgotamento sanitário de Salvador, a Estação Bahia Azul, no bairro do Rio Vermelho, passou 88 dias - entre julho e outubro deste ano - funcionando com apenas uma das cinco etapas de processamento do esgoto da capital baiana.



Durante este período, somente o lixo grosseiro como latas, madeira, papelão, vidros e garrafas plásticas foi recolhido. Detritos como óleos, graxas, sólidos menores e areia foram escoados pelo emissário submarino. Durante o funcionamento normal do processo, esses resíduos são depositados no aterro sanitário.



O problema só foi admitido pela Embasa (Empresa Baiana de Saneamento) depois de duas negativas. Inicialmente, a estatal alegou, através de sua assessoria de imprensa, que não havia “nenhum problema com a rede de esgotos de Salvador”. Após visita da reportagem à estação, porém, o supervisor Eduardo Araújo disse que a paralisação havia durado pouco mais de um mês - de meados de setembro ao final de outubro -, versão que foi retificada no dia seguinte. Alegando ter “se esquecido”, ele disse que a paralisação ocorrera, na verdade, de 30 de julho a 26 de outubro.



A suspensão, segundo a companhia, foi provocada por problemas com o equipamento conhecido como bombas parafuso, sem as quais o condicionamento do esgoto não pode ser feito plenamente.



“Verificamos a necessidade de trocar as buchas que ficam na base das bombas para não comprometer a estrutura que as sustenta. As peças vêm de São Paulo, mas demoraram mais que o normal para chegar. Com a paralisação, decidimos realizar uma manutenção geral no sistema”, disse Araújo.



O esgoto foi então desviado do fluxo normal dentro da estação e encaminhado para o emissário sem passar por todas as etapas do processo - após a retirada somente do lixo urbano.



Prejuízo incerto



Os danos ambientais acarretados pelo despejo do material são imprevisíveis. “Tudo depende da capacidade do mar diluir esta quantidade de matéria orgânica adicional, que não estava prevista pelo sistema. Além disso, o acúmulo de areia pode causar o assoreamento do fundo do mar”, explica a especialista em tratamento de efluentes Úrsula Medeiros, mestra em engenharia ambiental formada pela Universidade Federal da Paraíba, referência nacional em estudos na área. “Quanto mais matéria orgânica é lançada no ambiente, menos oxigênio sobra para os peixes e plantas. Mas só podemos medir o impacto com base em dados”, pondera.



O monitoramento do ecossistema atingido pelo emissário submarino, porém, é realizado a cada dois anos apenas pela própria Embasa, que contrata empresas especializadas e encaminha os resultados para o Cepram (Conselho Estadual do Meio Ambiente).



A última avaliação ocorreu em 2004. Uma nova licitação ficará por conta do novo governo da Bahia, que passa a ser conduzido pelo PT no próximo ano. Segundo Araújo, o Cepram recomendou à empresa diminuir o prazo entre as avaliações para 18 meses. “Não acho viável, até porque é uma operação cara. A última que fizemos custou R$ 3 milhões”.



Quanto ao despejo de detritos não previstos pelo sistema de esgotamento, a equipe técnica da Embasa minimiza possíveis prejuízos ambientais. “O lixo que foi escoado diretamente para o emissário não representa danos substanciais. Trata-se na maior parte de restos de comida e óleo de cozinha. Por não haver indústrias na zona urbana de Salvador, o esgoto que coletamos é do tipo residencial, de baixo potencial ofensivo. Nosso esgoto é fraco”, alegou Araújo. Apesar do discurso apaziguador, ele admite: “Alguns pedaços de plástico, por exemplo, passaram”.



Esquecimento



A paralisação de parte dos equipamentos foi constatada há duas semanas pela estudante de Engenharia Sanitária Ambiental da Ufba Márcia Dourado. Durante uma visita feita por um grupo da faculdade à estação, em 19 de outubro, ela registrou em vídeo e fotos a grande quantidade de lixo depositado nos coletores destinados a receber a areia retirada do esgoto. Até mesmo um pé de capim havia nascido em um deles. Questionados pela estudante, funcionários da Embasa alegaram que o entulho havia sido recolhido do pátio da unidade e não era proveniente do esgoto.



Procurada pela reportagem do A Tarde On line uma semana depois, a assessoria da Embasa afirmou não haver qualquer problema com o esgotamento sanitário de Salvador, nem com a Estação Bahia Azul. Mas se dispôs a organizar uma vistoria na estação, a fim de comprovar o funcionamento normal das máquinas.



A visita se deu na tarde de terça-feira 31 de outubro. Antes da vistoria ao parque de máquinas, a equipe da Embasa explicou o funcionamento do sistema e ressaltou que a Estação Bahia Azul não faz ‘tratamento’, mas ‘condicionamento’ do esgoto - procedimento no qual os resíduos são retirados, mas a matéria orgânica é expelida para o Oceano Atlântico.



Durante o esclarecimento, o supervisor Eduardo Araújo afirmou que a interrupção parcial no funcionamento da estação teria ocorrido por “um mês e pouco”, mas não soube precisar o período exato. Segundo ele, a revisão das bombas parafuso caberia à multinacional francesa Veolia, que vendeu o equipamento à Embasa e, por conta de uma cláusula contratual, seria responsável por sua conservação.



Contatada por telefone em São Paulo, a Veolia Water Systems Brasil, subsidiária brasileira da Veolia Environment, gigante do ramo de tratamento de água e efluentes presente em todos os continentes do planeta, desmentiu a versão da Embasa.



Segundo o diretor de operações da empresa, Ramuntcho Etcheverry, a última manutenção realizada pela Veolia ocorreu em maio. “Fico surpreso com a afirmação [da Embasa], pois tivemos uma reunião em setembro na qual ficou acertado que as bombas seriam retiradas para nos desobrigar [de continuar prestando assistência técnica]”, disse. De acordo com Araújo, este é o desejo da multinacional, contestado pela Embasa. Entre as duas empresas haveria um desentendimento a respeito do contrato.



Na quarta-feira 1º de novembro, o A Tarde On Line voltou a procurar Araújo para confirmar o período exato em que a Estação Bahia Azul não funcionou como previsto. Alegando esquecimento, ele disse que a paralisação ocorrera na verdade de 30 de julho a 26 de outubro. Ao ser informado da negativa da Veolia a respeito do trabalho de manutenção, Araújo argumentou que, neste período, a própria Embasa teria se encarregado do serviço.



Esta última versão apresentada pelos dirigentes da Embasa é a mais condizente com a análise feita pela professora Hermínia Freitas, do Laboratório de Tecnologia de Sementes Florestais Nativas do Instituto de Biologia da Ufba. Segundo ela, para atingir o tamanho apresentado na fotografia captada no coletor de areia, o capim leva, a depender da espécie, de três a cinco meses.



Funcionamento



Planejada para ser o “coração” do sistema de esgotamento sanitário de Salvador, a Estação Bahia Azul recebe todo o esgoto coletado na capital baiana. Antes de ser expelido, ele passa por cinco estágios para reduzir o potencial ofensivo ao ambiente marinho.



No primeiro, o lixo de maior dimensão é retido por uma grade com espaçamento de 2,5 cm - esta foi a única etapa que permaneceu em funcionamento nos últimos meses.



Em seguida, o esgoto é bombeado com auxílio de bombas parafuso - estruturas com 20 toneladas cada, capazes de elevar o líquido de grandes profundidades. Elas conduzem o esgoto para os desarenadores, cuja finalidade é retirar óleos, graxas e principalmente areia, para diminuir o assoreamento onde o líquido é despejado.



No quarto estágio, o esgoto é encaminhado para as peneiras rotativas, equipamento que retém detritos de diâmetro superior a 2mm. Na quinta e última fase, ele é conduzido a uma estação elevatória, onde sete bombas encaminham o esgoto para o emissário submarino. Finalmente, ocorre o despejo no oceano, a 27 metros de profundidade e 2,35 km da costa, distância considerada segura por manter o esgoto longe das praias.

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