Casais idosos dão exemplo de amor no dia dos namorados

Publicado sábado, 12 de junho de 2021 às 10:26 h | Atualizado em 19/11/2021, 12:15 | Autor: Nicolas Melo

O que é mais lindo que o amor? O poeta Luís Vaz de Camões já dizia em no Soneto, publicado em 1598, que o "amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente;... é querer estar preso por vontade". O amor ultrapassa as barreiras do tempo e o professor de redação Osvaldo da Silva Lessa Filho, 78 anos, fez provar isso ao escrever uma carta apaixonada para a, então, namorada Adair dos Santos Lessa, 72, em 1969.

Sem medo de expor o sentimento, Osvaldo declarou: "Ah! Seu pudesse! A você que tanto estimo, daria o céu e as estrelas. Mas, se não posso, desejo... Que todas as flores e cravos que ao mundo brotam, enfeitem a toda sua vida!". Cheia de metáforas românticas expressando o coração de um homem apaixonado, a carta completa 52 anos de existência neste sábado.

São mais de 20 cartas escritas a punho pelo professor para a namorada, carinhosamente chamada de Daia. Esquecidas pelo tempo de uma vida de 46 anos de união do casal, elas vieram novamente à luz, recentemente, quando a filha mais velha do casal as encontrou por acaso.

"Estava arrumando a casa, mexendo nas coisas, quando encontrei essas cartas no guarda-roupa. Então decidi falar delas, pois meu pai sempre gostou de escrever. Ele sempre era convidado para escrever dedicatórias de livros e faz um ano que descobri que ele fez um para mim, em um livro antigo", disse Raida Lessa, 43.

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São mais de 20 cartas escritas a punho por Osvaldo para Adair | Foto: Divulgação | Arquivo Pessoal

A história de amor começou quando ela tinha 12 e ele 14 anos. Na época, os futuros pombinhos cursaram na mesma escola, no Colégio Estadual Luiz Tarquínio, na Boa Viagem. "Eu fazia a (antiga) 6ª série e ele a 8ª. A primeira vez que o vi, ele estava com uma moça. Toda a noite ele ficava com essa moça e ficava me olhando", relembrou Adair.

Um dia, ela encontrou uma amiga e então desabafou. "Esse rapaz está com a namorada e não tem vergonha na cara", disse. Osvaldo na rua Polydoro Bittencourt e amiga de Adair no Monte Serrat. Um dia a moça resolveu investigar e descobriu que a, então, suposta namorada era irmã de Lessa. Sabendo disso, no dia seguinte, "eu dei uma risadinha e ele deixou a irmã e pegou o mesmo ônibus que o meu e puxou conversa", recordou Daia.

O apóstolo Paulo descreve o amor no livro bíblico de 1ª Coríntios como paciente e bondoso e que "não inveja, não se vangloria, não se orgulha [...] Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". Atualmente, Osvaldo e Adair vivem em Nagé, um povoado de Maragogipe, no Recôncavo Baiano. Ele sofre de mal de Alzheimer - doença degenerativa que destrói as funções mentais, levando a pessoa à demência -, sem reconhecer a pessoa que tanto amou.

"É uma doença que não tem volta. Hoje eu cuido dele e só que tenho é amor, carinho e dedicação para cuidar dele", disse Adair, revelando também o medo do seu coração. "Meu único medo hoje é que eu vá primeiro que ele. Todo dia eu peço a Deus que ele não me leve primeiro que Osvaldo porque eu estando aqui posso cuidar dele", lamentou.

Uma ex-aluna e atual amiga da família recordou dos dias que participou de um pequeno grupo de estudo na casa de Osvaldo. "Ele era muito grosso e exigia da gente, mas mesmo sendo grosso na sala de aula ele era muito romântico com tia Dai. Muito respeitador. Ele nunca tomava uma decisão sem antes perguntar a opinião dela. Eu via isso muitas vezes. Era como se a última palavra fosse dela e ele acatava a decisão dela", revelou Caroline dos Santos, 42.

Outros casais

Foi numa festa de São João, na Ladeira do Pepino, no bairro de Brotas que começou o romance entre Maria das Graças Moura de Alcântara, 74, e Edvaldo Marques de Alcântara, 84. Juntos a 54 anos, Maria conta que não foi fácil conciliar casamento, filhos e trabalho, mas que no final tudo deu certo.

"Era São João de 64 quando ele me convidou para dançar, namoramos por 10 anos e estamos juntos até hoje. Eu tinha uns 18 anos e todo o dia ele ia me ver. Ficávamos na varanda sob uma lâmpada de 100 velas (gargalhadas). Nós ficamos juntos e construímos a nossa família e o segredo de tanto tempo é o amor, é a cumplicidade. Sexo é uma coisa, amor é outra", explicou Maria das Graças.

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Foi numa festa de São João, no bairro de Brotas que começou o romance entre Maria das Graças e Edvaldo Marques | Foto: Divulgação | Arquivo Pessoal

"Eu era mais rígida que ele, mas nunca tive aquele ciúme doentio que a gente ver hoje. Isso destrói qualquer relacionamento. Hoje em dia, o pessoal namora muito rápido. 'Fica' muito rápido. Tem muitas brigas, é um negócio de pancadaria, tudo é matar", lamentou.

Com muita graça, o caminhoneiro Francisco José de Lucena, 69, conta que o namoro com Elenita Francisca Souza Lucena, 60, foi rápido. "Namoramos por uns seis meses e casei logo com ela. Casei logo para os outros não pegarem (risos). Ele conta que saiu da Paraíba em 1977 e chegou em Xique-xique, no interior da Bahia. Em solo baiano, ele conheceu o amor em janeiro de 1978 atualizou o status para - casado.

Após 48 anos de união, ele fala que o namoro ainda existe. "Ainda é assim, na paquera. Tem que ser, né? Eu viajava muito, passava dias fora viajando, mas sempre que voltava era o tempo todo com ela. A gente saia e curtia muito em casa", contou Francisco.

Para Elenita, o segredo do relacionamento ter durado tanto tempo é a tolerância. "Eu casei nova, sem experiência nenhuma. Não sabia nem cozinhar. Hoje sou uma cozinheira de primeira. Mas, é isso, tem que saber tolerar um ao outro. Saber conversar muito", comentou. "Se ele comeu a carne, agora tem que roer o osso também. Entre tapas e beijos", brincou.

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