Busca interna do iBahia
HOME > bahia > SALVADOR

SALVADOR

Copa do Mundo diminui doação de sangue

Andreia Santana
Por Andreia Santana

A violência urbana levou o taxista Idelfonso da Silva Guimarães, 35, a enfrentar uma tarde chuvosa em Salvador para doar sangue. Visando salvar a vida de um companheiro de profissão que tomou nove tiros durante um assalto, Idelfonso abriu mão de algumas corridas e foi à sede da Fundação Hemoba (Hemocentro da Bahia), na avenida Vasco da Gama, na tarde de quinta-feira, dia 29. O taxista é uma exceção, pois o mês de junho registrou índices muito baixos de captação no órgão. Ao longo de todo o mês, o hemocentro conseguiu coletar apenas 3.494 bolsas, pouco mais da metade das 6.500 que necessita todo mês para atender aos hospitais da rede pública da capital e dos dez municípios da região metropolitana.



Historicamente, junho é um mês que apresenta bons resultados na reposição dos estoques da Hemoba, pois com a campanha de São João mais gente se sensibiliza para doar sangue. Este ano, porém, a queda na quantidade de bolsas coletadas – em média o hemocentro consegue seis mil bolsas em junho – tem uma explicação: a Copa do Mundo.



Segundo a coordenadora da captação de doadores da Fundação Hemoba, Cecília Guerra, as comemorações pelas vitórias da Seleção Brasileira levam os potenciais doadores a beberem além da conta. “O resultado desse período tão festivo é que muitos candidatos ao chegaram ao posto de coleta apresentam índice elevado de álcool no sangue e por isso não podem fazer a doação”. Para doar sangue, acrescenta Cecília, é preciso, no mínimo, um intervalo de quatro horas sem ingerir bebida alcoólica.



Além da Copa dificultar o alcance da meta de doações, a Hemoba, ao longo do ano, enfrenta dificuldades para atingir sua meta. Em 2005, o hemocentro conseguiu ultrapassar a marca das 25 mil bolsas nos 12 meses. Este ano, ainda não alcançou as 23 mil. Levando em conta que em dezembro o índice de doações também é bem pequeno, devido às festas de fim de ano e às viagens de férias, o órgão pode não igualar a marca do ano passado. A média mensal em 2006 também está bem abaixo do necessário para atender a demanda de Salvador, apenas 3.800 bolsas.



“Nosso mês de maior coleta foi fevereiro, com a campanha de Carnaval, que rendeu 5.200 bolsas. No resto do ano enfrentamos dificuldades porque depois do Carnaval, muitos potenciais doadores ficaram clinicamente impedidos por causa do surto de viroses e alergias respiratórias na cidade”, revela Cecília Guerra.



Aliado às viroses e ao excesso de álcool no sangue, outros obstáculos como níveis baixos de hemoglobina (causada por anemias ou regimes de emagrecimento severos) impedem a doação temporariamente. No caso de diagnóstico de doenças infecciosas, como as DSTs/Aids, a doação é descartada.



Para conseguir suprir a demanda por 6.500 bolsas de sangue por mês, seria necessário que pelo menos oito mil pessoas procurassem a sede da fundação ou um dos dois postos de coleta na cidade (nas estações de transbordo do Iguatemi e Pirajá). Mas esse número ainda é bem distante da realidade da Hemoba. De 4.967 candidatos à doação que o órgão recebeu em junho, 1.361 foram considerados inaptos e mandados de volta para casa.



O índice de inaptidão chegou a 27,6%, quando o Ministério da Saúde recomenda que ele seja em torno de 11%. No ano passado, ao longo do ano, o hemocentro teve índices de 24% de inaptidão, percentual muito superior ao recomendado pelo MS. Além disso, em junho deste ano, das doações recebidas, 145 tiveram de ser descartadas por doenças que impedem a transfusão. Além disso, 97 possíveis doadores estavam com anemia.



“Infelizmente, captar doares é difícil no Brasil porque, como não vivemos em um país de guerras e catástrofes, as pessoas não têm consciência da urgência e da necessidade de uma transfusão de sangue”, define Cecília Guerra. Ela revela ainda que, entre os meses com maior índice de captação estão os de fevereiro (Campanha de Carnaval), junho (Campanha Junina, exceto nos períodos de Copa) e novembro (mês do doador e da campanha nacional do MS). No resto do ano, a fundação precisa contar com a boa vontade de gente como o taxista Ildefonso ou como o mergulhador profissional Lucival Santos, 43.



Ato de solidariedade



Lucival Santos já é doador fidelizado pela Hemoba, com direito a carteirinha. A primeira vez que doou sangue foi para ajudar um conhecido. A partir daí, não deixou mais de ir. Na quinta-feira de chuva, a mesma que levou Idelfonso ao órgão para salvar o amigo baleado, Lucival foi à fundação doar para a mãe de um amigo. Os dois voluntários têm em comum ainda o fato de já terem presenciado o drama da necessidade por sangue na própria família.



“Um conhecido que já era doador me convenceu a vir da primeira vez e depois disso, vim duas vezes para ajudar parentes e algumas outras vezes apenas para colaborar com a instituição. Não me importo em saber para quem o meu sangue vai, sei que ele pode salvar vidas”, diz o mergulhador. Não satisfeito em doar sangue de três em três meses, tempo mínimo necessário para quem pretende se tornar doador assíduo, Lucival tenta ainda convencer outras pessoas a imitar o que chama de “ato de solidariedade com o próximo”.



Já Ildefonso, que viveu a experiência de correr atrás de doadores para o pai, vê a doação de sangue como um gesto de amor e de carinho com a vida de outra pessoa. Pai de um menino de cinco anos, ele faz questão de ensinar ao filho a importância do seu ato. “Quero trazer também o meu irmão da próxima vez”.



Hospitais não repõem sangue



O gesto de pessoas como o taxista e o mergulhador seria ainda mais valorizado se as unidades de saúde fizessem à sua parte. A Resolução de Diretoria Colegiada (RDC), norma que regulamenta os procedimentos de hemoterapia, na qual se insere a captação e distribuição de sangue e derivados, recomenda que, para cada bolsa de sangue recebida, os hospitais públicos retribuam encaminhando três doadores ao hemocentro.



Em Salvador, a recomendação não é seguida à risca pelos hospitais públicos. Muito pelo contrário, unidades de saúde que necessitam receber uma quantidade elevada de bolsas de sangue da Hemoba, não repõem nem 50% do estoque através do encaminhamento de doadores. Este ano, no período de 01 a 28 de fevereiro, mês do Carnaval e do verão, quando aumenta o índice de acidentes na cidade, o Hospital Roberto Santos recebeu 891 bolsas de sangue, mas só encaminhou 347 doadores a Hemoba, quando deveria ter mandado pelo menos 2673. No Hospital Geral do Estado (HGE), onde funciona a maior emergência pública da Bahia, foram entregues 475 bolsas de sangue em troca de apenas 11 doares, dos quais, só seis coletas foram efetivadas.



A média de retorno dos hospitais baianos fica em 4,5% do total de sangue recebido. Graças a campanhas de conscientização entre os médicos dessas unidades, em abril deste ano se conseguiu um percentual de 23,2%. Hospitais como o Roberto Santos, por exemplo, já conseguiram, em meses de maior movimento, devolver 40% do estoque usado.



O déficit ainda é tão alto porque não existe lei que obrigue o paciente que recebe sangue em uma transfusão, a devolver o material em forma de novos doadores para os hemocentros. A doação de sangue também é voluntária, não sendo permitido pagar ou oferecer qualquer beneficio ao doador em troca do seu sangue.



Transplante de medula



Quando chega para doar sangue pela primeira vez, o candidato é recebido por um Serviço de Atendimento ao Doador. Profissionais como a assistente social Liege Servo, fica responsável por esclarecer todas as dúvidas sobre o procedimento, além de incentivar o voluntariado. Entre as duvidas mais freqüentes que precisa responder, Liege cita a curiosidade das pessoas em saber se doar sangue enfraquece o organismo, engorda ou vicia.



“Nós explicamos desde o cadastro até a sala de coleta. Além disso, informamos que, caso seja encontrada alguma alteração no sangue do candidato, ele receberá uma carta pedindo que retorne ao hemocentro para fazer novos exames. Isso acontece, por exemplo, se encontramos no sangue de uma pessoa o traço genético para anemia falciforme. Uma pessoa com esse traço tem de ser orientada porque se ela se casa com outra pessoa que também tenha o traço genético, existe pelo menos 25% de chances de gerar um descendente portador da doença”, detalha Liege.



Paralelo ao trabalho de orientação, Liege busca sensibilizar o doador de sangue para que também se torne um doador de medula óssea. O procedimento de inicio é bem simples. A pessoa interessada colhe 10 ml de sangue. Esse material passa por um exame chamado tipagem de HLA, que vai determinar a identidade genética da pessoa. A probabilidade de duas pessoas no mundo terem HLA compatíveis é de um em um milhão. A partir daí, esse HLA passa a fazer parte do Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome).



Caso um paciente com leucemia que esteja na fila para o transplante de medula seja compatível com um dos doadores do Redome, o doador é chamado para ir ao hospital. A retirada de 10% da medula, material que fica dentro dos ossos e que é responsável por gerar as células do sangue, requer anestesia geral (aplicada na veia) e um procedimento cirúrgico que leva 90 minutos e que consiste em retirar o material através de uma agulha que atravessa o osso da bacia.



Segundo os médicos, o procedimento não oferece riscos e o paciente sai do hospital caminhando, apenas com a sensação de que tomou uma injeção. Menos de 24 horas depois, os 10% de medula retirados já estão recompostos no organismo. “Muita gente teme a anestesia ou não tem informações sobre o processo, que é seguro, e isso afasta doadores”, revela Liege.



Mas quem pensa que a Hemoba é só captação e distribuição de sangue se engana. O órgão também possui um ambulatório especializado no tratamento de doenças hematológicas benignas, como hemofilia, anemia falciforme e púrpura. Por mês, revela a hematologista Anelisa Streva, coordenadora do ambulatório, são realizadas 1.500 consultas em pacientes, entre adultos e crianças, do Sistema Único de Saúde (SUS) encaminhados por médicos ou hospitais públicos.



Você pode doar sangue se...



- Tiver entre 18 e 65 anos

- Estiver em boas condições de saúde

- Estiver bem alimento

- Tiver dormido, no mínimo, seis horas

- Pesar mais de 50 quilos

- Apresentar documento oficial de identidade com foto recente e assinatura



Onde doar:



- No Posto de coleta da Estação Iguatemi, de segunda à sexta, das 7h às 19h e aos sábados das 7h às 13h

- No Posto de coleta da Estação Pirajá, de segunda à sexta, das 7h às 17h

- Na sede da Hemoba (avenida Vasco da Gama), de segunda à sexta das 7h às 19h e aos sábados das 7h às 11h30





Informações



Tel: 3116-5600

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Relacionadas

Mais lidas