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SALVADOR

Especialistas discutem incentivo à tabelinha em campanha do Governo

Clarissa Borges

Por Clarissa Borges

28/07/2007 - 15:59 h

Uma das ações da campanha de incentivo ao planejamento familiar lançada pelo Ministério da Saúde, com o objetivo de conscientizar a população sobre a importância de escolher o momento certo para ter um filho, tem gerado polêmica entre especialistas. Além das dicas sobre os métodos contraceptivos, o governo pretende distribuir uma cartilha de bolso que inclui um calendário para ajudar a praticar a tabelinha. Raramente recomendada por médicos ginecologistas, a tabelinha é um método antigo que apresenta alto índice de falha.

Por ser natural, sem custo e não exigir precaução durante o ato sexual, o método continua em uso. Para a estudante de fisioterapia Ana Cláudia*, a primeira falha da tabelinha foi decisiva. Ela até conseguiu evitar a gravidez por algum tempo, mas aos 24 anos veio o imprevisto. Confiando na regularidade do seu ciclo menstrual, a jovem não esperava que o estresse causado por uma briga com o pai alterasse seu período fértil. O resultado é a filha, hoje com 2 anos, gerada quando ela não tinha qualquer pretensão de ser mãe.

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Segundo o coordenador médico do serviço de ginecologia e obstetrícia do Hospital Salvador, Flávio Costa Pereira, o caso de Ana Cláudia é comum. Ele explica que, como o período fértil é baseado na variação hormonal, e vários fatores externos – especialmente os emocionais - podem interferir nesta variação, não se pode afirmar, com segurança, quando há risco ou não de fecundação. "A segurança é nenhuma", revela.

Classificada como método de anticoncepção comportamental, junto ao coito interrompido, medição da temperatura e método do muco, a tabelinha se baseia na observação do ciclo menstrual para saber qual é a freqüência da menstruação. A mulher deve anotar as datas da menstruação por um período de seis meses e, assim, determinar os dias da ovulação. Teoricamente, basta evitar relações sexuais no período ou se proteger usando um dos chamados métodos de barreira, como camisinha feminina e masculina e diafragma.

Cooperação - A assessoria de comunicação do Ministério da Saúde confirmou que tabelinhas serão distribuídas à população, junto com cartilhas de bolso que serão elaboradas com base em uma cartilha já existente. "A eficácia da tabela depende do seu uso correto e da cooperação de ambos os parceiros", diz o texto da cartilha. O responsável pela campanha foi procurado pela reportagem do A Tarde On Line para falar sobre o incentivo à tabelinha, mas não estava disponível para entrevista.

Apesar de sempre ter controlado bem o ciclo hormonal, a jovem não confia mais no método. "Eu anotava todas as relações, olhava se tinha risco, porque você tem que ter o controle, mas o corpo humano não é perfeito", reconhece. Ana Cláudia aprendeu a lição e agora usa a pílula para evitar uma segunda gravidez. Taxativo, o médico diz que, atualmente, o método só deve ser usado quando a mulher quer engravidar, e não o contrário. "Se o governo está incentivando, é um erro", opina.

O médico lembra que, para algumas mulheres, o risco é ainda maior. "Mulheres que são violentadas, por exemplo, já têm uma predisposição maior a engravidar, por causa da variação hormonal maior em função do estresse", revela. Ele acrescenta que outros métodos comportamentais também não são recomendados. "Interromper a relação não funciona, porque nem sempre as pessoas conseguem se controlar", afirma. Além disso, se o homem teve relação recente, ainda pode ter espermatozóides no líquido expelido antes da ejaculação.

Disciplina x segurança - O ginecologista da equipe do Centro de Pesquisa em Reprodução Humana (Ceparh) Luís Carlos Calmon, reforça a corrente contrária à tabelinha, lembrando que, além de ser um método falho mesmo quando seguido à risca, exige muita disciplina para ter o mínimo de segurança. "Não acho uma boa incentivar o uso da tabelinha", resume0, e assinala que o Ceparh é pioneiro em oferecer a esterilização masculina, uma prática que não é lembrada pelo governo. "É importante, porque temos que dar o direito ao homem também", esclarece.


Atenta ao risco de uma gravidez indesejada, a enfermeira Regina Sampaio, 35, não se descuida, e sabe que não pode contar apenas com a tabelinha para evitar a gravidez. "Na verdade, uso a camisinha. A tabela é para me orientar", revela. Ela conta que, como tentou engravidar por um ano e não conseguiu, deixou de usar qualquer método anticoncepcional, mesmo quando já não desejava ser mãe. Cansada de contar com a sorte, voltou a adotar o preservativo. "Acho que nenhum método é 100% confiável. Dois são mais do que um só", conclui.


Para a ginecologista do Ceparh, Consuelo Calizzo, incentivar o uso da tabelinha "é melhor do que nada". Ela pontua que o mais recomendado é o incentivo ao uso de preservativos e anticoncepcionais orais e injetáveis, mas acredita que o assunto deve estar sempre na pauta de discussão. "É ótimo haver a campanha, porque é mais uma chance de se falar sobre o assunto, especialmente para a população de baixa renda", acredita.


Efeitos reduzidos - O médico Flávio Costa recomenda a suas pacientes o uso da pílula, que considera a melhor forma de evitar a gravidez. "Hoje não se usa mais alta dosagem e os efeitos colaterais são reduzidos. Temos a de baixa dosagem e a de baixíssima", explica. O anticoncepcional injetável facilita a vida de quem esquece de tomar a pílula, e pode ser mensal ou trimestral. Para o médico, a camisinha e o dispositivo intrauterino (DIU) também são seguros. "A mulher deve entender o que acontece com ela para poder controlar o que pode acontecer", completa.

O especialista faz questão de chamar atenção ainda para o método de contracepção de emergência e frisa que chamar a pílula de hormônio de "pílula do dia seguinte" é um desfavor à informação. A pílula deve ser usada em uma situação de emergência, quando algum método falhar, e o quanto antes. "No mesmo dia, a eficácia é de 98%, no dia seguinte já cai para 66%, e depois, 30%. Antes de qualquer recomendação, no entanto, o médico assinala que o mais importante é procurar um ginecologista para indicar o melhor método para o caso.

*Nome fictício a pedido da entrevistada

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