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Internet muda relacionamento entre os jovens

Publicado sábado, 18 de novembro de 2006 às 10:08 h | Atualizado em 18/11/2006, 10:08 | Autor: Kleyzer Seixas
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Passar horas em frente ao computador conectado a dezenas de amigos e notícias de todo o mundo. Trocar mensagens, fofocar, paquerar, marcar encontros e estreitar amizades por meio da internet toma o lugar, muitas vezes, do contato físico entre adolescentes e pré-adolescentes.



A estudante Juliana Lima, de 13 anos, é o exemplo clássico de jovem que diminuiu seus contatos no cara-a-cara por conta dos apelos e facilidades virtuais. “É melhor falar com meus amigos pelo computador. Pessoalmente, é meio sem graça. A internet nos dá a opção de falar com muitas pessoas ao mesmo tempo. É uma janela para o mundo”, afirma.



A jovem, que fica até cerca de sete horas na frente do computador, faz parte das estatísticas da pesquisa da Harris Interactive e da Alloy Media & Marketing, publicada recentemente, que afirma: a internet e o celular mudaram a maneira como pré adolescentes (8 a 12 anos) e adolescentes (13 a 18 anos) definem amizade e a maneira como interagem com seus pares.



De acordo com o estudo, apenas 53% dos adolescentes preferem manter o contato pessoalmente com os colegas. O restante tende a usar a internet e o celular para se aproximar, mesmo que virtualmente, do seu grupo. Encaram a ferramenta como uma forma para passar o tempo com os amigos e paqueras, a exemplo de Thais Neiva, 13.



Estudante da rede pública de ensino, gasta diariamente em torno de R$ 4,00 para ficar na internet por, em média, 5 horas. Ela recorre a uma Lan House no bairro onde mora, no Rio Vermelho, para “pôr o papo em dia” com os cerca de 150 amigos que possui no messenger [programa de comunicação instantânea da Microsoft].



Fofocas, novidades e troca de segredinhos estão entre os assuntos do dia. Durante a navegação, até faz pesquisas relacionadas à escola e troca informações sobre provas e atividades, mas a maior parte do tempo é dedicada à conversação sobre coisas do dia-a-dia, confessa a garota.



O excesso de tempo dispensado ao mundo virtual acaba mudando a rotina da garota. Encontros familiares, por exemplo, já foram desmarcados porque Thaís preferiu teclar com os parceiros do msn ou ficar usando o orkut, site de relacionamentos do google que é febre entres os jovens.



“Não acredito que a internet nos afaste da família como muitos pais dizem. Somos jovens e é comum que isso ocorra em determinado período da nossa vida. Temos essa fase de querer estar em contato maior com pessoas da nossa idade e usamos a internet para isto. Se não fosse a internet, com certeza existiria outra ferramenta”, afirma.



A jovem acredita, no entanto, que é preciso dar um freio na uso da ferramenta. Para ela, o uso da internet tornou-se excessivo há cerca de um ano. “Estou tentando parar e me dedicar mais aos estudos, perco bastante tempo no messenger com minhas amigas. Nada feito em excesso faz bem”, assume.



Ao contrário de Thaís, os estudantes Carlos Silva e Rafael Santos, ambos com 17, não pensam em ficar longe do computador. Afinal, os encontros com amigos, as conversas com as namoradas e a interação com outros usuários da rede são possibilitas, de forma até mais barata e fácil, por meio do computador.



Os pais dos dois jovens reclamam do uso em excesso. Os garotos até concordam com eles, mas não resistem. “Uma vez meu padrinho, que mora no Rio de Janeiro, veio a Salvador nos visitar e ficou chateado porque não dei muita atenção para ele. Fiquei trancado no quarto usando o bate-papo”, assume Rafael, que tem mais de 160 contatos no messenger.



Aproximação virtual - Conforme a pesquisa, os usuários adolescentes possuem, em média, 75 amigos cadastrados em seus programas de comunicação instantânea, tendo até 35 cadastrados em seus celulares. Mais de 15% afirma que as amizades online são "extremamente" ou "muito" próximas. O número de contatos triplica quando o assunto é o orkut, site em que muitos deles possuem mais de 600 contatos. No entanto, nem todos que estão no orkut são muito próximos.



Desses contatos, existe pelo menos um amigo com quem os jovens se comunicam apenas pela internet. São pessoas que conhecem através de sites de relacionamentos ou por meio de amigos. Daiana Santana,16, por exemplo, tem um amigo virtual que lhe foi apresentado por uma colega de sala.



“Nunca tínhamos nos visto pessoalmente e passamos a nos falar porque ele viu meu perfil no orkut. Ficou interessado e me adicionou no messenger. Nos comunicamos diariamente e falamos sobre diversos assuntos”, afirma. A garota, entretanto, não pensa em levar a amizade para o mundo real. “Somente pelo computador é suficiente”, destaca a menina.



Mariana Pinho, 17, também mantém conversações com pessoas que nunca viu pessoalmente. São cinco amigos que conheceu por meio de outros amigos. Dois deles moram em estados diferentes, mas a distância fica a uma clique do mouse. “Muitas vezes prefiro conversar com eles a ter de ir na casa de algumas colegas”, confessa a jovem, que vem tendo o uso da internet limitado pela sua mãe, a enfermeira Ana Cristiane Santana Pinho.



“A internet é uma ferramenta extremamente útil, mas os jovens não devem extrapolar o uso porque a vida é feita de outras coisas, de contato físico entre familiares e amigos. As pessoas não devem deixar isso se perder ou se enfraquecer”, argumenta Ana Cristiane, ao lembrar que costuma fiscalizar a filha quando ela está na rede. “Existem casos absurdos de crime pela internet e é obrigação dos pais estarem atentos”, acrescenta.



Embora as relações familiares fiquem um pouco mais distanciadas, o uso da internet não deve ser encarado como um bicho de sete cabeças, avalia o psicólogo Victor Brandão. Segundo ele, o uso moderado não destrói ou interfere nas relações pessoais. Pelo contrário, em alguns casos, as amizades começam por meio da internet e muitas vezes se fortalecem.



Casos como o de Daniela Souza e Marcos Cunha, os dois com 18. Eles se conheceram através de uma amiga em comum e trocaram os e-mails. Depois, passaram a conversar pelos programas de bate-papo e os outros encontros pessoais foram possibilitados pelo uso da internet.



“Se não tivéssemos estreitado a amizade pelo msn não teríamos nos visto outras vezes”, comenta Daniela Souza, que conhece Marcos Cunha há dois anos. “Hoje, considero Marcos como um dos meus melhores amigos. Falamos sobre tudo: namorados, problemas em casa, dificuldades ligadas ao vestibular”, enumera.



O orkut é outra ferramenta que facilita o reencontro de pessoas. Gente que não se vê há anos e que perdeu o contato com colegas e até mesmo com os familiares acaba achando o perfil dos “sumidos” no site de relacionamentos. Basta apenas digitar o nome da pessoa na pesquisa e identificar quem se procura, como ocorreu com Marcelo Dantas.



Refúgio na Lan House - Marcelo encontrou um primo que foi morar na Austrália através do orkut. “Depois que achei ele, passamos a nos falar todos os dias pelo messenger”, destaca o estudante, que tem acesso ao mundo virtual em Lan Houses, ponto certo para os jovens que não possuem computador em casa ou têm o acesso à internet limitado pelos pais.



É lá onde os jovens passam horas na frente do computador. Eles chegam pela tarde e, muitas vezes, em grupo de três ou até mais de oito. Permanecem no local, geralmente, até a noite e garantem mais de 50% do lucro de muitos estabelecimentos na capital baiana.



Na Landint, localizada no bairro da Vila Laura, por exemplo, os adolescentes costumam chegar depois da 15 horas, quando não estão mais nas salas de aula. “Eles se reúnem, muitas vezes em uma mesma máquina e ficam navegando na internet”, afirma Fábio Landeiro, um dos proprietários do local.



Na Lan House do Rio Vermelho, o movimento também fica mais intenso pela tarde. O local recebe, em média, 80 pessoas por dia, a maioria de jovens, informa Itamar Lino, proprietário da Lan, que trabalha no local há quase três anos. Segundo ele, o fluxo de jovens têm crescido no últimos meses.

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