SALVADOR
Mulheres passam 15 horas ao relento para visitar presos

Todos os dias, dezenas de mulheres dormem em frente ao Complexo Penitenciário do Estado, na Av. Cardeal Avelar Brandão Vilela, na Mata Escura. A demora nas revistas íntima e de objetos, segundo elas, atrasa o acesso, reduz o tempo da visita aos internos e as obriga a passar mais de 15 horas em frente à unidade prisional, sem o mínimo de dignidade e segurança.
A reportagem passou a noite do dia 13 e a madrugada do dia 14 de agosto no local, com mulheres que aguardavam para visitar internos do prédio principal do Presídio Salvador, uma das nove unidades do complexo.
A noite fria e chuvosa não foi empecilho para as 30 mulheres que dormiram ali na rua naquele dia. A maioria se acomodou no chão, forrado apenas com um pedaço de plástico e um fino lençol. Outras, em um banco de concreto coberto por papelão. E algumas delas em barracas de camping.
"Dormir aqui é um risco grande. Homens passam de carro dando tiro na gente e gritando 'É caveira'", afirma uma dona de casa, 33 anos, do bairro de Itapuã.
O marido dela está preso há dois anos acusado de tráfico de drogas. Antes, conta ela, havia passado 12 anos. "Faz 14 anos que venho visitar meu marido aqui. Chego às 11h para dar tempo de agilizar o banho, lanche", diz.
O prédio principal do Presídio Salvador é dominado por internos ligados à facção criminosa Comissão da Paz (CP), cujo símbolo é um escorpião. O local onde as mulheres dormem fica a cerca de 100 metros de uma das entradas da localidade do Inferninho, onde o domínio é da facção rival, Caveira.
Ritual
Entre as 30 mulheres que dormiram em frente ao complexo no dia em que a reportagem esteve lá, apenas uma aguardava para ver o filho. As demais iam visitar os companheiros.
Elas repetem este ritual duas vezes por semana, sempre às quartas-feiras e sábados - dias que antecedem aos de visita no prédio principal do Presídio Salvador.
A maioria chega entre a tarde e a noite de quarta-feira para a visita do dia seguinte. Outras chegam durante a madrugada.
Para evitar as constantes brigas e agressões pelos primeiros lugares na fila para entrada no complexo, elas criaram senhas que são distribuídas pela dona de casa que sempre chega às 11h.
"Só tem uma palavra que justifique tudo isso: amor. A gente cega o olho para isso tudo. Só de olhar o sorriso dele quando me ver e ouvi-lo dizer: 'Amor, você veio me ver' compensa tudo que passamos fora e dentro do presídio", explicou uma cabeleireira de 20 anos de idade, sob anonimato.
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