SALVADOR
Pacientes e familiares cobram regularização dos serviços no CAPS
Angelina Gonçalves Silva, 60, não é portadora de doenças mentais, mas está preocupada com a situação do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), cujas atividades foram interrompidas em três unidades – Pernambués, Águas Claras e Liberdade - por conta do atraso de pagamentos dos funcionários. Moradora do bairro de Cajazeiras, ela precisa acompanhar os dois filhos – um de 25 anos, que tem retardo, e outro de 28, que sofre de esquizofrenia paranóica- até o Centro de Águas Claras várias vezes durante a semana para dar continuidade ao tratamento de transtornos mentais deles
A paralisação dos três CAPS foi iniciada nesta terça-feira, após uma reunião para solicitar o pagamento dos salários, que segundo os funcionários, são feitos com atraso. Eles enviaram uma carta à Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), órgão responsável pelo funcionamento dos centros, para informar sobre a situação e cobrar a regularização dos salários, além de solicitar melhorias para as unidades. Eles garantem retomarão as atividades quando a Secretaria resolver a pendência.
Representantes das três unidades baianas estão reunidos com o Superintendente de Atenção Integral à Saúde para resolver o impasse, na sede da Secretaria, na noite desta quarta. Além do atraso dos salários, os funcionários reivindicam a assinatura de um novo contrato, porque o acordo trabalhista acabou em dezembro do ano passado. Apesar do fim do contrato, os funcionários continuaram trabalhando porque a Sesab teria se comprometido a pagar os meses trabalhados sem contrato oficial
Na manhã desta quarta-feira, 30, familiares dos pacientes do Centro de Águas Claras, reuniram-se com uma representante da Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) para discutir a continuidade do tratamento de transtornos mentais. Com a promessa de fazer uma manifestação na frente da unidade, os parentes e pessoas que recebem o tratamento no local resolveram apenas conversar com a representante da Sesab.
Segundo a diretora da associação dos familiares e usuários dos serviços de saúde mental da Bahia, Ana Audina Uchoa de Carvalho Borges, a representante da Secretaria garantiu que os salários dos meses de março e abril serão pagos até esta sexta-feira, 1º, e segunda-feira, 4, respectivamente. Com a regularização, o órgão voltará a prestar atendimento aos cerca de 400 pacientes ativos e aos 700 inscritos.
Enquanto o impasse entre governo e trabalhadores continua, os usuários e parentes estão preocupados com a interrupção dos serviços. Muitos pacientes precisam ser acompanhados semanalmente por conta dos cuidados necessários para o tratamento de transtornos mentais. Em Águas Claras, por exemplo, cerca de 70 pessoas são atendidas todos os dias.
<b> Remédios</B> A falta medicamentos é outro problema que os profissionais e parentes precisam lidar constantemente. A saída é recorrer a outras unidades em busca de ajuda, conforme Angelina Gonçalves Silva. “Há locais, no entanto, que não dão remédios a pacientes que se tratam em outros centros. Alem disso, com o problema dos pagamentos, alguma pessoas acabaram indo embora porque ninguém quer ficar trabalhando de graça. A professora de educação física saiu e eles não fazem mais atividade. A situação está ficando insustentável”, relatou Angelina.
Outro problema, de acordo com Angelina, é a estrutura do CAPS de Águas Clara. Os sanitários estão quebrados e sujos por falta de investimentos e de gente para trabalhar na limpeza, destaca Angelina. “Existe apenas uma pessoa para fazer serviço de limpeza, é muito para uma pessoa só. Está até entrando cobra porque o mato não é aparado. Um filho como o meu, por exemplo, pode ser machucado porque não tem idéia do perigo de um animal desses”, acrescenta.
Outra que está sendo prejudicada é a aposentada Ana Auridina Uchoa de Carvalho Borges. Portadora de transtorno bipolar, problema que leva a pessoa de um estado intenso de euforia à depressão grave, vai ao local duas vezes por semana para ser acompanhada por um psicoterapeuta, com quem passa, pelo menos, uma hora em cada consulta. Além da psicoterapia, faz oficina da palavra, técnica usada para abordar temas que fazem parte da vida dos pacientes.
Como precisa do acompanhamento para dar continuidade ao seu tratamento, a aposentada torce para que a situação seja regularizada imediatamente. “Não pode paralisar os trabalhos ligados à saúde mental porque as pessoas podem ter crises caso haja interrupção das consultas”, destacou Ana Auridina, que também recorre ao uso de medicamentos para tratar do transtorno.