SALVADOR
Pais buscam orientação sobre como escolher o método de ensino ideal

Pai de primeira viagem, Cláudio Batista aposta em uma escola construtivista para resolver o problema da hiperatividade do filho de quatro anos. Já a assistente social Marli Alves, mãe de uma menina de onze, não gostou do método. Enquanto a administradora Maria do Socorro Ávila defende a técnica sóciointeracionista, o motorista Júlio César Cunha não abre mão do ensino tradicional.
A evolução da educação nos últimos 30 anos convergiu para diversas tendências. O ensino tradicional passou a ser questionado nas escolas brasileiras, dando espaço às metodologias piagetiana, construtivista, tecnicista, sóciointeracionista, entre outras. No meio de tantas teorias: pais e mães em dúvida sobre que tipo de metodologia se aplica melhor a personalidade dos filhos e qual vai ajudá-los a se desenvolverem tanto como indivíduos, quanto como cidadãos inseridos em uma sociedade que busca avidamente a tecnologia, mas sente a necessidade de resgatar valores como solidariedade e ética.
“A necessidade de fazer com que o aluno fizesse parte de um contexto pedagógico de forma mais participativa ditou os rumos que a educação tomaria nas décadas de 1980, 90 e 2000”. A afirmação é da vice-diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Mary Arapiraca, doutora em Educação. Para ela, o ensino tradicional pecava pelo fato de ser verticalizado, sem a participação do estudante como executor das ações.
“Mesmo assim, a teoria não merece ser desprezada por completo, pois conserva elementos importantes”, diz a educadora. “Mesmo com a expansão das teorias mais participativas, a presença do professor como mediador e transmissor de conteúdo continua sendo imprescindível no processo de aprendizado”, defende. O motorista Júlio César concorda: “O ensino tradicional é importante, pois o aluno aprende e jamais esquece o conteúdo”, defende.
Dentro das correntes que fazem parte do cronograma da maioria dos estabelecimentos de ensino da Bahia uma das que mais se destaca atualmente é a sóciointeracionista. Concebida pelo bielo-russo Lev S. Vygotsky (1896-1934), a teoria se baseia na relação entre o indivíduo e o meio onde vive.
Essa é a proposta que agrada a administradora Maria do Socorro Ávila, mãe de Isabela, nove anos. “Acredito que ela é bem mais esclarecida do que as crianças de antigamente. Sabe mais coisas do que eu quando tinha a idade dela”, compara.
A mestra em Currículo Educacional pela Universidade Federal do Paraná, Margareth Passos, que faz parte da coordenação pedagógica do Instituto Social da Bahia (Isba) explica que a visão de Vygotsky sobre a educação permite que os estudantes atuem como pesquisadores e trabalhem coletivamente na resolução de problemas e no resgate sócio-cultural, com a aquisição de novos conhecimentos interdisciplinares. “Nós defendemos o casamento da visão sociointeracionista com o respeito a valores como ética, respeito, justiça e solidariedade”.
O adolescente Joadson Santos, 16, aluno do terceiro ano do ensino médio, prestou vestibular para engenharia mecânica. Educado pelo método criado pelo pesquisador bielo-russo, acredita ter se tornado um ser humano melhor com o que aprendeu na escola. “Hoje eu tenho uma visão ampla sobre os problemas que afligem a sociedade desde o aquecimento global até responsabilidade social”.
Homem e sociedade - Na educação infantil, a interação indivíduo - coletivo também já comtempla o currículo de grande parte das entidades de ensino. A escola Kimimo, que há 35 anos trabalha com crianças de um a seis anos, adota a visão de sóciointeração. A diretora da unidade, Therezinha Neder acredita que a história de uma pessoa começa a ser construída desde a gestação. Para a psicopedagoga, é importante que as crianças aprendam desde cedo a formar opinião. “A alfabetização deles é iniciada no primeiro ano de vida, com a inclusão de diversos conceitos educacionais”, afirma.
Outra linha que integra o moderno processo de educação é o construtivismo. Para a educadora Iracema Povoas, o modelo procura descrever os diferentes estágios por que passam os indivíduos no processo de aquisição dos conhecimentos, de como se desenvolve a inteligência humana e de como uma pessoa se torna autônoma. A professora, que trabalha com educação infantil em uma creche, o sistema construtivista ainda não é posto em prática como deveria. “Cada aluno deveria ser educado de forma personalizada até que fossem nivelados em patamares como compreensão e aprendizado, pois cada um tem sua forma de pensar e de agir”.
Por acreditar que o construtivismo, ao mesmo tempo em que estimula a autonomia, dispensa uma atenção especial ao aluno enquanto ser único, é que Cláudio Batista vai investir numa escola com esse método para o filho. “Acredito que ele será melhor aproveitado numa instituição com essas características”.
A assistente social Marli Alves diz que não gostou do método porque a filha demorou para aprender a ler e escrever. “Ela só conseguiu decodificar as frases depois que troquei de escola”.
Integração - Muitas teorias são utilizadas de forma integrada nos processos educacionais. Na Escola Montessoriana, a originalidade está no fato das crianças ficarem livres para movimentarem-se pela sala de aula, utilizando os materiais em um ambiente propício à auto-educação. A manipulação destes materiais em seus aspectos multi-sensoriais é um fator primordial para o aprendizado da linguagem, matemática, ciências e prática de vida, defendem especialistas em educação.
A "pedagogia renovada" é uma concepção que inclui várias correntes que, de uma forma ou de outra, estão ligadas ao movimento da Escola Nova ou Escola Ativa. Tais correntes, embora admitam divergências, assumem um mesmo princípio norteador de valorização do indivíduo como ser livre, ativo e social.
Já a teoria Piagetiana surge a partir dos anos 80 com maior evidência na integração entre tendências que tinham um viés mais psicológico e outras cujo tema era mais sociológico e político.