Periferia volta a ter batalhas de rimas

Publicado sexta-feira, 10 de setembro de 2021 às 06:05 h | Atualizado em 09/09/2021, 20:53 | Autor: Eduardo Machado | Agência Mural

“Quero ver matar ele! Quero ver matar ele!”. Ecoada em coro por jovens das mais diversas idades, identidades e territórios de Salvador, a provocação, apesar da linguagem agressiva, é um convite poético de convocação à Batalha da Revolução, um duelo de rimas improvisadas entre MCs realizado no último sábado(4), na Praça da Revolução, em Periperi, no Subúrbio Ferroviário.

Para o evento acontecer, participantes e público enfrentam outra luta: manter os devidos cuidados de enfrentamento à Covid-19.

“Agora já está melhor, tudo certo. A maioria dos MCs estão vacinados ou com a primeira dose. Com isso, os duelos voltam a acontecer cumprindo todas as medidas preventivas necessárias”, destaca um dos organizadores, Junior Anjos, 21, conhecido como MC J.N.

O rapper e também organizador da batalha, Everton Portela, 20, o E.V MC, ressalta a motivação para retomar os trabalhos de valorização da cultura hip hop e difusão da cultura popular. “É um encontro de pessoas negras e periféricas, que vivem isoladas cultural e socialmente”, diz E.V MC.

Com o isolamento social por conta da pandemia, artistas populares que têm a rua como palco vivenciam momentos de incertezas e dificuldades, aponta a jovem poetisa Beatriz Santos, 19, moradora de Periperi, estudante e trabalhadora do mercado informal. “Trabalhava o tempo todo fazendo poesia nos coletivos e tive que parar por conta da pandemia. E esse retorno das batalhas a gente tem que aproveitar para recarregar as energias”, reforça.

Para o competidor Wallace de Jesus, 11, morador da Urbis de Periperi e o mais novo competidor pelo prêmio de R$ 50, a batalha é uma inspiração. “Lembro que estava passando e vi um monte de gente reunida. Aí vim perguntar o que era e falaram sobre a Batalha de Rap”, relata.

A regra das batalhas é bem simples: cada MC tem 30 segundos para desenvolver suas rimas, um round para cada; se houver empate é feito o terceiro round. A decisão é do público, que se manifesta através de gritos ou levantando as mãos para contagem de votos.

Morador de Cosme de Farias e estreante na Batalha da Revolução (@batalhadarevolucao), George dos Santos, 18, ou MC Pitbull (@Pitbull.astro), foi o campeão da disputa, que contou com 16 participantes. Ele levou para casa o prêmio de R$ 50 e um kit de brindes da Tabacaria WM (@tabariawm071), que patrocina o evento.

Outras praças

Com agenda todas as quintas-feiras, às 15h, na rotatória da praça do Jardim Botânico, no bairro de São Marcos, acontece a Batalha Nova Era (@bne_batalhanovaera).

Para a MC Mahina, 17, moradora do bairro e uma das organizadoras do evento, é importante manter uma série de atividades voltadas para os jovens.

“O principal foco é tirar a galera do tráfico. Esse é o nosso alvo. Além da batalha, fazemos uma roda de poesias, temos projetos de arrecadação de livros para uma biblioteca e também incentivamos, por meio da produtora Todú Canto, outras batalhas com divulgação e planejamento de comunicação”, diz.

Wendel Santos, 20, conhecido como Cardy MC, um dos criadores da Batalha Nova Era, conta que a disputa acontece desde dezembro de 2019, deu uma pausa devido à pandemia, e só voltou a acontecer em julho. Ele destaca o desafio de realizar as rodas de rima no momento atual, apesar do avanço da vacinação. “É mais difícil porque a galera é um pouco cabeça dura, mas a gente sempre vai reforçando o uso da máscara e do álcool em gel”, conta Cardy MC.

Em Periperi, os jovens Leonardo Silva dos Santos, 21, e Jadson Souza Aragão, 21, mais conhecidos, respectivamente, como Shaft e Dato MC, são realizadores da Batalha da Zeferina (@batalhadazeferina), que acontece no Conjunto Habitacional Guerreira Zeferina quinzenalmente, aos sábados à tarde.

Shaft MC destaca o apoio conquistado para o evento no bairro: “A Batalha da Zeferina inspira outras pessoas, porque a comunidade toda abraça e apoia. Inclusive, a gente tem conquistado espaço dentro da comunidade”. E exemplifica: “Os bares dão um apoio para a gente com água, as pessoas se envolvem e participam, aos poucos vêm chegando, ajuda com uma camisa, um amigo fotografa, um vizinho fortalece com a luz e o microfone e assim vai crescendo, se estruturando”.

Para Dato MC, o isolamento com o período da pandemia e a ausência das manifestações artísticas resultaram no avanço da violência. “Quando a cultura não ocupa o espaço que deve ocupar por direito, outras coisas ocupam, como o crime e a violência. Quando existe escassez de cultura, a violência toma esse espaço”, observa.

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