Poesia engajada do Nordeste de Amaralina na luta por espaços no mercado editorial

Publicado sexta-feira, 03 de setembro de 2021 às 06:05 h | Atualizado em 02/09/2021, 21:38 | Autor: Bruna Rocha | Agência Mural

Entre saraus, lives e publicações nas redes sociais, jovens poetisas do Nordeste de Amaralina, em Salvador, buscam espaços para debater temas como autocuidado, empoderamento e o cotidiano nas periferias, por meio das suas obras.

“Encontrei no Instagram um espaço para expor meu trabalho e ele se tornou o meu ambiente, o meu lugar de fala. Lá falo sobre feminismo, palmitagem e empoderamento, porque essa é a minha vivência enquanto jovem negra periférica”, diz Luísa Cardoso, 16, poetisa e estudante do curso refrigeração e climatização industrial no Ifba (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia).

Luísa conta que o interesse por poesia começou na infância, quando começou a escrever e recitar. “Com meus 8, 9 anos, eu escrevia mensagens para a família, e aos 11, 12 já me apresentava para toda a família. Era algo que eu gostava muito de fazer”.

Redes sociais

Com o início da pandemia, Luísa resolveu fazer vídeos declamando para suas redes sociais. “Gosto de dizer que a arte já nasce com a gente e aflora esse nosso lado artista. Produzo arte porque sei que através dela sou uma pessoa mais livre”, conta.

Em alguns de seus poemas, Luísa aborda temas como feminicídio e a violência policial nas favelas, como em “Ser mulher é isso” e “O plano”, respectivamente, publicados em seu Instagram (@luisa.cardoso_).

Com cerca de 1.600 seguidores na rede social e vídeos que somam mais de 15 mil visualizações, Luísa também participou de lives e eventos no YouTube. “Participei de palestras abordando o setembro amarelo, a importância do autocuidado e sobretudo a rede de apoio familiar, junto ao acompanhamento psicoterapêutico”, diz Luísa.

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Jeana Oliveira (Mona Kizola) planeja publicar seu primeiro livro com 31 poesias | Foto: Bruna Rocha | Ag. Mural | 31.8.2021

Mona Kizola

Outra referência para os jovens no bairro é Jeana Oliveira, 19, também conhecida pelo seu nome artístico Mona Kizola, como foi batizada após iniciar sua trajetória no candomblé. Multifacetada, a jovem é atriz, capoeirista, jogadora de futebol no clube Lusaca, microempreendedora, estagiária na Cipó Comunicação Interativa e, como poetisa, quer ir além das apresentações em saraus e escrever seu próprio livro de poesias.

Já escolhido, o nome da obra será Kuá Ndanji, palavras de origem bantu, que juntas significam “Pela Raiz”. “Kua Ndanji trará a minha vivência como preta, periférica, mulher e candomblecista. Tudo o que se relaciona a uma sociedade periférica e seus apagamentos”, diz Mona.

O livro deverá conter 31 poesias; 21 delas já foram selecionadas. A autora estuda agora como fará para encontrar patrocínio e editora para lançar sua publicação. Uma das poesias que fará parte do escrito é Conscientização, em que ela fala sobre frustrações e desesperanças.

“Vejo na poesia a possibilidade de desabafar, e milito nas obras, é a minha forma de ter voz e a partir dela ser escutada. Assim, posso falar por um jovem preto ou jovem preta que se sente silenciado pelo sistema”, diz Mona. 

Enquanto produz, a poetisa participa de eventos. Recentemente se apresentou na live Julho das Pretas, pelo Instituto Odara, no Sarau do Coletivo Resistência Preta, e recitou na ocupação Carlos Marighella. “Tenho que colocar minha cara a tapa e falar sobre essas injustiças, porque muitos dos meus morreram em busca desse direito, preciso buscar a plenitude para os meus”, complementa.

Dentre suas principais inspirações estão Kota Gandaleci, Kalulu Ndanji e Negra Winnie, participantes de um grupo que reúne advogadas, escritores, poetas e cantores do cenário baiano. “São pessoas que me incentivam muito e acreditam em mim. Aprendo muito com eles e é um prazer poder conviver com esses seres magníficos”, pontua.

Por isso que amo a poesia, eu me vejo nela, porque posso falar quem realmente sou, minhas dores, amores, sobre o que vivo. É tão maravilhoso, isso me fará chegar a muitos lugares e quero trazer os meus comigo”.

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